A doença de Chagas, causada pelo parasita Trypanosoma cruzi e transmitida principalmente pelas fezes do inseto conhecido como barbeiro, continua sendo um dos maiores desafios parasitários do continente americano. Apesar de décadas de políticas públicas que conseguiram reduzir a transmissão aguda, hoje restrita a áreas endêmicas do Norte e Nordeste, o Brasil enfrenta um novo problema: o aumento dos casos crônicos e a dificuldade em garantir diagnóstico e tratamento adequados.

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), até 2023 foram registrados oficialmente 17.049 casos crônicos da doença no país. No entanto, especialistas alertam que esse número está longe de refletir a realidade, já que muitos pacientes permanecem sem diagnóstico ou acompanhamento clínico. A melhora nos métodos de detecção apenas evidencia a dimensão do problema: milhares de brasileiros convivem com a doença sem acesso a tratamento contínuo.

Pesquisas recentes reforçam essa preocupação. Um estudo publicado na revista The Lancet Infectious Diseases mostrou que a carga global da doença de Chagas é subestimada, especialmente em países como o Brasil, onde a infecção é silenciosa e pode evoluir para complicações cardíacas e digestivas graves. A ausência de sintomas específicos logo após a infecção dificulta o diagnóstico precoce, e muitos pacientes só descobrem a doença em estágios avançados.

A Fiocruz, em parceria com a Universidade do Texas em El Paso, desenvolveu um método inovador para facilitar a extração de DNA do T. cruzi em amostras de sangue, etapa fundamental para o diagnóstico molecular. Essa tecnologia pode acelerar a identificação da doença, mas ainda enfrenta desafios para ser implementada em larga escala no sistema público de saúde.

Outro ponto crítico é o acesso ao tratamento. Atualmente, muitos pacientes precisam se deslocar para centros especializados, como a Casa de Chagas, em Recife, o que dificulta a adesão. Projetos-piloto em regiões endêmicas, como o Sertão do Pajeú (PE), buscam descentralizar o atendimento, permitindo que o tratamento seja realizado nas cidades de origem dos pacientes. Essa estratégia tem mostrado resultados positivos, mas ainda depende de maior investimento e expansão.

Além das dificuldades estruturais, há também o estigma social. Em comunidades rurais, a doença de Chagas é frequentemente associada à pobreza e ao isolamento, o que contribui para a invisibilidade dos pacientes. Especialistas defendem campanhas de conscientização e políticas públicas que integrem diagnóstico precoce, acompanhamento clínico e acesso facilitado a medicamentos.

O avanço da doença de Chagas no Brasil revela que, embora o país tenha conseguido controlar a transmissão aguda, ainda há um longo caminho para enfrentar os desafios do diagnóstico e do tratamento. Sem medidas eficazes de descentralização e ampliação da assistência, milhares de brasileiros continuarão invisíveis para o sistema de saúde, convivendo com uma enfermidade que poderia ser controlada com políticas mais robustas e inclusivas.

O Brasil conseguiu reduzir a transmissão, mas falha em cuidar dos pacientes crônicos — e essa lacuna ameaça transformar a doença de Chagas em um problema de saúde pública ainda mais grave.