Enquanto milhões de brasileiros se preparam para blocos, festas e viagens, há quem conte os dias para aproveitar o Carnaval de maneira mais silenciosa — ou simplesmente ignore a data no calendário. Em um país que transformou a folia em símbolo nacional, optar por ficar em casa ainda é visto, por muitos, como sinônimo de desânimo ou isolamento. Mas especialistas afirmam que essa leitura pode ser equivocada.

Para a psicóloga Stéphany Costa, o desconforto de não participar da festa costuma estar menos ligado à decisão em si e mais à pressão social que a envolve. “Existe uma ideia coletiva de que o Carnaval é obrigatório. Quando a pessoa não se identifica com esse modelo de celebração, pode surgir a sensação de estar fazendo algo errado”, explica.
A cultura da comparação, intensificada pelas redes sociais, contribui para esse cenário. Imagens de amigos em blocos lotados, viagens animadas e festas privadas constroem a narrativa de que todos estão aproveitando intensamente. “Essa exposição cria a ilusão de unanimidade. Quem escolhe um programa mais tranquilo pode se sentir deslocado, mesmo estando confortável com a própria decisão”, observa a psicóloga.
Preferência ou evitação?
A especialista destaca, no entanto, que é importante diferenciar uma escolha consciente de um comportamento de evitação motivado por ansiedade social. Pessoas tímidas ou com medo intenso de julgamento tendem a evitar situações com grande exposição pública — e o Carnaval, por natureza, amplia estímulos, contato físico e interação constante.
Dados da Universidade de São Paulo (USP) indicam que cerca de 50% dos brasileiros se consideram tímidos. Embora a timidez seja um traço comum, pode se tornar limitante quando impede experiências desejadas. “O problema não é não ir ao bloco. A questão é quando a pessoa gostaria de participar, mas deixa de ir por medo excessivo ou insegurança”, pontua.
Segundo Stéphany, a culpa costuma surgir quando há conflito entre o desejo individual e a expectativa externa. “Autocuidado é respeitar seus próprios limites. Se a escolha de ficar em casa é autêntica, ela é válida. O sofrimento aparece quando a decisão é guiada pelo medo ou pela necessidade de corresponder ao que os outros esperam.”
Autonomia emocional
O Carnaval, reforça a psicóloga, não é uma régua universal de felicidade. Para alguns, descanso, leitura, maratonar séries ou encontros intimistas podem ser experiências igualmente significativas. A chave está na autonomia emocional — capacidade de decidir a partir das próprias necessidades, e não da pressão do ambiente.
Quando a ansiedade social ou o medo de julgamento passam a interferir de forma recorrente nas decisões, a terapia pode ajudar a compreender padrões e fortalecer habilidades sociais e autoestima.
No fim, a folia pode ter múltiplos formatos — inclusive o silêncio. E escolher não participar também pode ser uma forma legítima de celebrar, ainda que longe dos confetes e tamborins.
