Rio de Janeiro – 19/02/2026 – 11:24
Dentro do Carnaval e suas diversas expressões artísticas há um elemento que não pode faltar: os Sambas-Enredo. Este é um subgênero do samba, estilo que surgiu a partir de compositores carnavalescos e é fundamental no espetáculo produzido pelas escolas de samba.
Marcado por seu ritmo contagiante, alegre e também cheio de energia, estes enredos são a trilha sonora dos desfiles, determinando a performance das agremiações, figurinos, alegorias e até coreografias.
Mas para além da festa em si, os Sambas-Enredo trazem à tona sempre pautas diversas, principalmente sobre a cultura brasileira, fazendo críticas sociais, contando sua história, memória, entre outros temas. Assim também foi com o setor de energia, onde escolas como Salgueiro, Mangueira e Grande Família transformaram temas pouco explorados no Carnaval em motivo para sambar. Conheça mais abaixo.
A Cana-de-Açúcar na terra que “tudo dá”
No ano de 2004, por exemplo, a escola G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, cantou o samba-enredo “A cana que aqui se planta, tudo dá… Até energia. álcool, o combustível do futuro”, composição de Renato Lage, Márcia Lávia e do Departamento Cultural do Salgueiro.
A letra fala sobre a história da cana de açúcar no país, da sua chegada no Brasil-Colônia até os dias atuais, onde se tornou base para a produção de biocombustíveis.

“Verde eldorado, o encanto “deste lado” / Solo fértil pro meu samba germinar / Pelo tempo, adoçou a economia / Com a evolução, ganhou outro “sabor”/ O álcool, o progresso movia / Coisa que Caminha nem imaginou […] / Conquistando o “espaço, infinito alvorecer” / A cana que aqui se planta, tudo dá / Dá samba até o dia clarear / O combustível do futuro é brasileiro / É energia que hoje embala meu Salgueiro”
Sinopse:
Originalmente da Índia, a cana-de-açúcar foi trazida através de colonizadores portugueses no século XVI. Devido aos solos férteis do Brasil e vasta mão de obra escravizada disponível na época, a cana se tornou o principal produto da economia brasileira.
No entanto, é a partir da era Industrial que passou a ser uma fonte de energia no Brasil, mais precisamente na década de 1920, quando foi iniciada a exploração para a produção do álcool combustível (o etanol). No entanto, essa fonte só ganhou larga escala a partir dos anos 70, após uma crise mundial de fornecimento de petróleo.
Assim como outros países, havia uma grande dependência de combustíveis fósseis, o que fez com que o governo brasileiro implantasse, por exemplo, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), medida que impulsionou o uso dessa fonte e também estimulou a produção de veículos movidos a etanol.
Veículos nesse modelo foram os mais populares dos anos 80, perdendo espaço apenas em função de uma forte crise de abastecimento tempos depois. Em função disso, no ano de 2003, já no início do novo milênio, foram criados carros híbridos, movidos tanto a etanol quanto a álcool.
O enredo “quase profético”, denominou o álcool como o combustível do futuro, o que coincidentemente se tornou o nome de um dos programas do Governo Federal em 2021, onde o álcool está inserido. Atualmente a cana corresponde a 16,7% da matriz energética brasileira, segundo o Balanço Nacional Energético de 2025, também oferecendo múltiplos usos, como para a produção de biogás e bioeletricidade.
Amazônia: um samba para a maior reserva de Gás Natural do Brasil
Mais recentemente, no ano de 2025, o gás natural também foi tema de samba pela escola G.R.C.E.S A Grande Família, intitulado de “Gás Natural – A Energia Que Faz Pulsar a Amazônia”. A obra é autoria de Marlon Oliveira, Laio Lopes, Moysés Oliveira, Zé Paulo Sierra e David Oliveira e foi interpretada por Moysés Oliveira, com participação especial de Zé Paulo Sierra e aborda o potencial amazonense em prover o gás, fonte estratégica para a segurança e transição energética do país.

“Meu Deus, abastece o sagrado chão / Abençoando a Amazônia e suas belezas / Riquezas exploradas sem pudor / Sendo assim o criador pôs o gás nas profundezas / Guerreiro nativo forçado ao labor / Servil à ganância do invasor / […] A luz do lampião virou candeia / Aqui, produz o gás em profusão / A nova matriz me norteia / Emprego, renda, educação / Me leva num elo de amor aos dons ancestrais / Ritos afloram saberes tribais / A fauna dos sons encantados / O galo canta na avenida / É bom de briga, não manda recado / Meu combustível é energia desse povo apaixonado”
Sinopse:
O gás natural é um combustível considerado estratégico para a transição energética, por ser o menos poluente dentre os outros insumos fósseis, permitindo o processo de adaptação para fontes mais limpas. Além disso, também tem papel relevante para a segurança energética nacional: quando fontes renováveis tem alguma redução na participação, por qualquer motivo, estiagens, por exemplo, ele supre essas demanda das usinas termelétricas, contribuindo para o pleno funcionamento do setor. O gás corresponde atualmente a 9,6% da matriz do Brasil, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
As primeiras buscas em torno do gás natural datam do começo do século XX, no entanto, sua utilização de fato no Brasil ocorreu a partir dos anos 40, após as descobertas de reservas de óleo e gás no estado da Bahia. Inicialmente era utilizado para aquecimento residencial, iluminação pública e outros fins. O gás só ganhou atenção como uma possível fonte de energia a partir do “choque do petróleo”, período em que houve uma baixa oferta, ocorrido entre os anos de 1973 e 1979 (mesmo contexto em que a cana-de-açúcar se destacou).
Segundo o Governo Federal, o gás natural representava apenas 1% no suprimento de energia até os anos 80, momento em que também foram encontradas novas reservas na Bacia de Campos, região que ocupa uma ampla área no Sudeste (de Arraial do Cabo, norte do estado do Rio de Janeiro até o sul do estado do Espírito Santo). A partir disso, passou a ser amplamente utilizado, primeiro controlado pelos estados e, mais tarde, também chegando à gestão do setor privado.
Já a descoberta na Amazônia se deu em 1986, na Província Petrolífera de Urucu, localizada no município de Coari, no Amazonas. Essa descoberta foi relevante por ter sido encontrado um óleo considerado mais “leve”, detendo menor teor de enxofre para a média nacional, sendo menos agressivo ao meio ambiente.
O tema, no entanto, divide opiniões e interesses: a Amazônia possui grande relevância para o setor de energia em função de seu vasto potencial energético, tanto pelos inúmeros rios aproveitados pelas usinas hidrelétricas, tanto por suas numerosas reservas de gás natural. O especialista Wilson Lima, explica que estima-se haver, apenas no estado do Amazonas, cerca de 40% das reservas de gás em terra do Brasil.
Por outro lado, a produção e processamento do componente durante a extração (profusão mencionada no Samba) é um tema sensível, principalmente devido ao risco ambiental e seu potencial impacto local, indo na contramão de metas climáticas. A ampla biodiversidade torna qualquer acidente, como vazamentos de óleo, perigosos, pontos que ainda enfrentam dificuldades de consenso.
O Carnaval é a nossa energia!
Já a Estação Primeira da Mangueira, lançou em 2005, o enredo “Mangueira energiza a avenida – O carnaval é pura energia e a energia é o nosso Desafio”, escrita por Lequinho, Junior Fionda e Amendoim e interpretada por Jamelão.ura energia e a energia é o nosso Desafio”, escrita por Lequinho, Junior Fionda e Amendoim e interpretada por Jamelão.

“O mundo gira, avança a tecnologia / A ciência faz o homem acreditar / Que a vida é uma fonte de energia pra sonhar / O vento corta o mar / Faz o moinho girar – vem sambar! / Com pensamento de amor, traz alegria no olhar / Que a energia negativa não vai te pegar / O desafio é o ciclo da vida / A água banha e guarda o tesouro desse chão / Da terra vi brotar tanta beleza / Do ventre da mulher, uma nação / Mangueira, tu és o ar que eu respiro / O fogo que aquece o meu coração / Na esperança de um novo amanhecer / […] Se me desafiar, pode contar, não vou desistir / Pois a energia é o nosso desafio / E o nosso desafio é aqui / A energia do samba”
Sinopse:
Este enredo traz o conceito de energia de forma mais ampla: energia é toda ação ou força que gera um trabalho/movimento, podendo partir de diversas fontes como do sol, das águas, dos ventos e também do ser humano.
Por exemplo: na história, o fogo foi a primeira fonte de energia a ser manipulada pela humanidade, estimada por volta de 50.000 a.C. Ao mesmo tempo, aproximadamente entre 10.000 e 5000 a.C., a sociedade já utilizava alguns tipos de energia, como a força dos animais (energia mecânica) e a biomassa, a partir da queima ou decomposição de resíduos (energia química ou calorífica).
Ao longo do tempo, os avanços tecnológicos e científicos permitiram a introdução de novas fontes. Há indícios, por exemplo, do uso da energia eólica no século X, para mover os moinhos de vento. Alguns séculos adiante, já na época das navegações, essa fonte ganhou novo impulso com a invenção dos mastros e da vela, onde barcos eram movidos pela força dos ventos.
Além dessas, há outras fontes de energia, como a hidráulica (vinda das águas), que data aproximadamente de 200 a.C. No passado já havia a prática do armazenamento de energia, através da construção de pequenos reservatórios para irrigação e agricultura, bem como o aproveitamento do movimento das águas (energia potencial e cinética), para mover moinhos.
Há ainda o carvão, que teve uma demanda elevada a partir da criação da máquina a vapor; a energia elétrica que surge sendo utilizada a nível industrial no final do século XIX; a descoberta do petróleo em 1859; a energia nuclear em meados do século XX; entre outras.
Desde então a sociedade avançou e se transformou, e apesar de cada uma dessas fontes terem nascido em diferentes contextos, todas elas e muitas outras foram incorporadas ao cotidiano, permitindo maior praticidade e conforto ao ser humano, novos conhecimentos e também conflitos de poder. Hoje elas se fazem presentes na iluminação noturna, no carregador portátil, aquecendo lugares que enfrentam baixas temperaturas, resfriando alimentos, auxiliam no aprimoramento das tecnologias e telecomunicações, nos transportes mais velozes e modernos, entretenimento, cultura e muito mais.
Tudo isso só foi possível a partir da energia humana, cheia de controvérsias, mas que também é forte, resiliente e criativa por natureza, assim como é o Carnaval.

