O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que estreou no Grupo Especial do Rio de Janeiro com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, provocou forte repercussão política e cultural. A proposta, segundo a cantora e compositora Teresa Cristina, uma das autoras do samba-enredo, foi pensada como uma homenagem estritamente cultural ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem intenção eleitoral.
Apesar da defesa dos autores, o desfile foi interpretado por parte do público como uma provocação política. Nas redes sociais, internautas apontaram que algumas alas e carros alegóricos teriam feito representações consideradas ofensivas, como a imagem de um “palhaço encarcerado” — vista por críticos como referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro — e a caricatura da chamada “família tradicional” retratada em latas de conserva, interpretada como deboche ideológico. Para esse grupo, a apresentação teria ultrapassado os limites da homenagem artística e assumido um tom de ataque político.
Em resposta, Teresa Cristina e integrantes da escola negaram qualquer intenção de ataque pessoal ou partidário. Eles afirmaram que o enredo foi concebido como uma leitura simbólica da história recente do Brasil, dentro da tradição crítica e satírica do carnaval, que historicamente mistura arte, ironia e comentário social.
A polêmica ganhou ainda mais força por ocorrer em ano eleitoral, o que levou partidos e juristas a discutir se o desfile poderia ser interpretado como manifestação político-partidária disfarçada de expressão cultural. O debate reacende uma questão recorrente: até que ponto o carnaval, como festa popular e espaço de liberdade criativa, pode ser apenas expressão artística e, ao mesmo tempo, instrumento de crítica, militância e disputa simbólica de poder no Brasil.
