Após mais de duas décadas de negociações, o aguardado acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a entrar em vigor, criando uma das maiores áreas de comércio preferencial do mundo, com cerca de 700 milhões de consumidores envolvidos. A assinatura — ainda sujeita à ratificação final pelos parlamentos dos países membros — representa uma mudança estrutural no comércio bilateral e promete mexer significativamente com o mercado global de vinhos.

Tarifas abolidas e oportunidades para vinhos europeus

Um dos pilares do acordo é a eliminação gradual de tarifas de importação. Para o setor vitivinícola europeu, historicamente limitado por tarifas que chegavam a 35% sobre vinhos e destilados, a redução desses encargos abre espaço para uma expansão comercial acelerada nos mercados do Mercosul, especialmente no Brasil, Argentina e Uruguai.

Segundo dados oficiais, os embarques de vinhos europeus ao Mercosul podem se tornar mais competitivos sem os altos tributos que hoje encarecem esses produtos nas gôndolas sul-americanas. A expectativa de importadores brasileiros e especialistas é que, ao longo dos próximos 8 a 12, os preços de vinhos europeus importados possam cair em média até 20%, refletindo essa redução tarifária gradual e ampliando o acesso a rótulos premium de França, Itália, Espanha e Portugal.

Pressões e resistências no setor agrícola europeu

Embora celebre-se o potencial de crescimento exportador para vinícolas europeias, o pacto também enfrenta fortes resistências dentro da própria União Europeia, especialmente entre produtores agrícolas e organizações rurais. Em países como França e Grécia, agricultores têm organizado protestos manifestando preocupações de que a liberação de comércio possa inundar mercados internos com importações mais baratas, pressionando preços e rentabilidade em segmentos sensíveis como carne, açúcar e, potencialmente, vinhos de menor valor agregado.

Essas tensões resultaram na inclusão de salvaguardas comerciais no acordo, que permitem a suspensão temporária de benefícios tarifários caso importações disparem e prejudiquem significativamente produtores locais. Embora essas medidas não se apliquem diretamente ao setor de vinhos de forma tão rígida quanto a setores como o de carnes, elas demonstram o cuidado político em equilibrar interesses de exportadores e agricultores domésticos.

Impactos diretos para consumidores brasileiros

Do ponto de vista dos consumidores no Brasil e no Mercosul, o efeito mais palpável do acordo será a redução dos preços de vinhos importados da Europa, sobretudo de categorias intermediárias e premium que hoje pagam tarifas expressivas para entrar no mercado sul-americano. Especialistas e executivos da indústria prevêem que, à medida que os mecanismos tarifários forem sendo eliminados ao longo dos próximos anos, vinhos europeus concorram mais favoravelmente com rótulos de Chile, Argentina e Uruguay, tradicionalmente fortes na preferência dos consumidores brasileiros.

Ao mesmo tempo, a maior variedade de produtos importados deve ampliar as escolhas nas prateleiras, de vinhos regionais com denominações de origem reconhecidas até rótulos de produtores menores que ainda não tinham acesso competitivo ao mercado brasileiro. Esse movimento tende a beneficiar, em especial, segmentos de consumidores de renda média e alta, que buscam maior diversidade e qualidade — embora grupos de menor renda também possam sentir impactos em produtos importados populares com reduções de preço ao longo do tempo.

Cadeia de valor e competitividade

Para as cadeias de produção e comércio — incluindo importadores, distribuidores e varejistas — o pacto cria oportunidades e desafios. Empresas brasileiras que hoje dependem de altos margens para cobrir tarifas poderão precisar ajustar seus modelos de negócio para competir com vinhos europeus mais acessíveis. Importadores que anteciparem tendências de consumo poderão se posicionar melhor para capturar participação de mercado, enquanto varejistas podem repensar mix de produtos e estratégias de preço para aproveitar o novo cenário competitivo.

Afinal, o que podemos esperar desse acordo?

O acordo entre Mercosul e União Europeia marca um ponto de inflexão no comércio internacional de vinhos. A redução tarifária progressiva promete baratear e diversificar o portfólio de rótulos disponíveis aos consumidores, estimulando a competição e renovando o apetite pelo consumo de vinhos importados no Brasil. Ao mesmo tempo, produtores e agricultores europeus e sul-americanos encaram desafios e incertezas, consequência natural de qualquer liberalização comercial de grande escala. No fim das contas, para o consumidor brasileiro, o resultado no longo prazo deve ser de preços mais competitivos e maior diversidade de escolhas nas prateleiras, especialmente à medida que o acordo avança em sua implementação.