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Gráfico com médias da taxa básica de juros desde 1999 coloca os primeiros mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Lula no topo da comparação. Especialistas alertam que inflação, crises econômicas e decisões do Banco Central precisam entrar na análise.

O Brasil convive há décadas com uma das questões mais debatidas de sua economia: o custo elevado do dinheiro. Para quem precisa financiar um imóvel, comprar um carro, investir em um negócio ou utilizar o cartão de crédito, as decisões sobre a taxa básica de juros podem ter consequências diretas no orçamento.

Mas, afinal, em qual governo o país registrou os juros mais altos?

Um levantamento divulgado nas redes sociais, com dados atribuídos à série histórica do Banco Central, compara as médias da taxa Selic durante diferentes mandatos presidenciais desde 1999.

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De acordo com os percentuais apresentados no gráfico, o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999–2002) aparece com a maior média, de 19,8% ao ano, seguido pelo primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2006), com 18,4%.

Na outra ponta, o período de Jair Bolsonaro (2019–2022) registra a menor média da publicação, de 6,3%.

Entretanto, a interpretação exige cuidado: os números foram reproduzidos do levantamento original, que não detalha o método utilizado para calcular as médias. Além disso, os períodos comparados enfrentaram cenários econômicos bastante diferentes.

Veja as médias da Selic apresentadas no levantamento

GovernoPeríodoMédia informada
Fernando Henrique Cardoso1999–200219,8%
Lula — 1º mandato2003–200618,4%
Lula — 2º mandato2007–201011,0%
Dilma Rousseff — 1º mandato2011–20149,9%
Dilma Rousseff — 2º mandato, interrompido2015–201613,4%
Michel Temer2016–20189,3%
Jair Bolsonaro2019–20226,3%
Lula — mandato atual2023–2026Aproximadamente 13%

Fonte dos percentuais: levantamento divulgado por @renandias8, com referência à série histórica da Selic do Banco Central (SGS 432).

Os valores não foram apresentados pelo autor com memória de cálculo ou explicação sobre a ponderação dos períodos. Por isso, devem ser tratados como números atribuídos ao gráfico, e não como médias independentemente auditadas.

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FHC: por que os juros eram tão elevados entre 1999 e 2002?

O segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso foi marcado por transformações importantes na política econômica brasileira.

Em 1999, após uma crise cambial, o Brasil passou a adotar o regime de câmbio flutuante e instituiu o sistema de metas para a inflação.

Nesse ambiente, a política monetária utilizava taxas de juros elevadas para enfrentar pressões inflacionárias, conter a desvalorização da moeda e preservar a estabilidade econômica.

O período também foi influenciado por turbulências internacionais, incertezas fiscais e episódios de forte volatilidade financeira.

Segundo o levantamento apresentado, a média da Selic entre 1999 e 2002 foi de 19,8% ao ano, a maior entre os períodos analisados.

Isso não significa, entretanto, que a taxa tenha permanecido nesse patamar durante todos os meses.

A Selic variou conforme as decisões do Banco Central e as condições econômicas de cada momento.

Primeiro governo Lula também começou com juros elevados

Entre 2003 e 2006, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a Selic apresentou média de 18,4% ao ano, segundo os números divulgados.

O início do governo ocorreu em um ambiente de pressão sobre o câmbio, expectativas inflacionárias elevadas e dúvidas do mercado financeiro sobre os rumos da política econômica.

O Banco Central manteve uma postura monetária restritiva no começo daquele período, buscando conter a inflação e estabilizar as expectativas.

Com o passar dos anos, houve espaço para redução gradual dos juros.

No segundo mandato de Lula, entre 2007 e 2010, a média indicada no levantamento caiu para 11% ao ano.

A diferença entre os dois mandatos demonstra como um mesmo presidente pode governar em contextos econômicos distintos.

Dilma: juros oscilaram entre redução e forte aperto monetário

O primeiro mandato de Dilma Rousseff, de 2011 a 2014, aparece no gráfico com média de 9,9%.

Durante parte desse período, o Brasil adotou uma política de redução da taxa básica, mas o movimento foi posteriormente revertido diante do aumento das pressões inflacionárias.

No segundo mandato, iniciado em 2015 e interrompido em 2016 pelo impeachment, a média apresentada sobe para 13,4%.

O país enfrentava recessão econômica, inflação elevada, deterioração fiscal e aumento da incerteza.

Esse contexto contribuiu para a manutenção de juros altos, mesmo em um cenário de retração da atividade econômica.

Temer: queda dos juros acompanhou recuo da inflação

Durante o governo Michel Temer, entre 2016 e 2018, o levantamento aponta média de 9,3%.

O período foi marcado por um ciclo de redução da Selic, favorecido pela desaceleração da inflação e pela recuperação gradual da estabilidade de preços após a crise econômica.

A taxa básica chegou a patamares historicamente baixos para os padrões brasileiros daquele momento.

Entretanto, a economia ainda enfrentava dificuldades, incluindo desemprego elevado e recuperação lenta da atividade.

O exemplo reforça que juros menores não significam, automaticamente, crescimento acelerado ou melhora imediata das condições de vida.

Bolsonaro: menor média do gráfico, mas com forte oscilação

O governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, aparece com a menor média do levantamento: 6,3% ao ano.

Durante a pandemia de covid-19, o Banco Central reduziu a Selic a 2% ao ano, o menor patamar nominal de sua história até então.

A decisão ocorreu em um contexto excepcional, marcado por forte retração econômica, incerteza global e medidas de estímulo à atividade.

Posteriormente, com a aceleração da inflação e as pressões sobre os preços, o Banco Central iniciou um ciclo expressivo de aumento dos juros.

A Selic chegou a 13,75% ao ano em 2022.

Portanto, a média mais baixa do período não significa que os juros tenham permanecido reduzidos durante todo o mandato.

Ela reflete tanto a fase de juros excepcionalmente baixos quanto a forte elevação posterior.

Terceiro governo Lula: Selic voltou a patamares elevados

No mandato iniciado em 2023, o levantamento apresenta média próxima de 13% ao ano até 2026.

O período começou com a Selic em 13,75% ao ano, patamar herdado do ciclo de aperto monetário anterior.

Posteriormente, houve reduções da taxa, seguidas por novas decisões de política monetária conforme a evolução da inflação e das expectativas econômicas.

A discussão sobre juros elevados voltou a ocupar o centro do debate nacional, envolvendo governo, empresários, trabalhadores, instituições financeiras e o Banco Central.

É importante observar que o mandato ainda está em andamento em outubro de 2026.

Por isso, a média do período é provisória e poderá mudar até o encerramento do governo.

O presidente da República decide a taxa Selic?

Não diretamente.

A taxa básica de juros é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central do Brasil.

As decisões consideram diferentes indicadores, incluindo inflação, expectativas de preços, atividade econômica e riscos para o cumprimento da meta inflacionária.

Desde 2021, o Banco Central possui autonomia formal estabelecida por lei complementar, com mandatos fixos para sua diretoria e regras específicas de nomeação e exoneração.

Isso não significa que as decisões do governo federal sejam irrelevantes.

A política fiscal, as expectativas sobre a dívida pública, a condução da economia e a credibilidade das instituições podem influenciar o ambiente em que o Banco Central define os juros.

Entretanto, atribuir cada elevação ou redução da Selic exclusivamente ao presidente da República não representa adequadamente o funcionamento da política monetária.

Juros mais baixos significam uma economia melhor?

Não necessariamente.

Uma taxa Selic baixa pode favorecer o consumo, os investimentos e a contratação de crédito.

Por outro lado, juros muito baixos em um ambiente de inflação persistente podem contribuir para o aumento das pressões sobre os preços.

Da mesma forma, juros elevados tendem a encarecer financiamentos e desestimular parte da atividade econômica, mas também são utilizados para conter a inflação e preservar o poder de compra da moeda.

O impacto depende do contexto.

A Selic nominal também não deve ser confundida com a taxa real de juros, que considera o efeito da inflação.

Duas economias podem apresentar taxas nominais semelhantes, mas condições de juros reais bastante diferentes.

Como a Selic afeta o bolso dos brasileiros?

Embora muitas pessoas acompanhem a Selic apenas quando ela aparece no noticiário econômico, seus efeitos estão presentes em diversas decisões financeiras.

Cartão de crédito e empréstimos: juros básicos elevados podem contribuir para o encarecimento do crédito, embora as taxas cobradas pelos bancos também dependam de inadimplência, custos, impostos, concorrência e margens.

Financiamentos imobiliários e de veículos: mudanças na política monetária influenciam as condições de financiamento, ainda que nem todas as modalidades reajam imediatamente.

Investimentos: aplicações vinculadas à Selic ou ao CDI tendem a acompanhar os movimentos dos juros, respeitadas as características de cada produto.

Empresas e empregos: crédito mais caro pode reduzir investimentos e consumo, afetando a atividade econômica e as decisões de contratação.

Inflação: o controle da demanda é um dos canais pelos quais a política monetária busca conter aumentos persistentes dos preços.

O que os números realmente revelam?

O levantamento mostra que o Brasil passou por diferentes ciclos de juros desde 1999, com períodos de taxas muito elevadas, reduções expressivas e novas altas.

Segundo as médias divulgadas no gráfico, FHC e o primeiro governo Lula lideram a comparação, enquanto o governo Bolsonaro aparece com a menor média.

Mas uma avaliação econômica mais completa precisa considerar a inflação, os juros reais, o crescimento do PIB, o desemprego, as crises internacionais e a situação fiscal de cada período.

Também é necessário utilizar uma metodologia uniforme para calcular as médias, especialmente quando os mandatos possuem durações diferentes.

A Selic é um indicador importante, mas não funciona como uma nota isolada de desempenho de um presidente.

O debate sobre o custo do dinheiro no Brasil exige análise histórica, dados verificáveis e compreensão das decisões de política monetária.