De dramas policiais a comédias, fantasias, animações e fenômenos do streaming, seleção feita pela BBC Culture ouviu 206 especialistas de 43 países e ainda rende boas escolhas quase cinco anos depois
Abrir o streaming e passar mais tempo procurando uma série do que realmente assistindo a alguma coisa virou uma experiência conhecida.
Para quem está nesse momento, uma lista publicada em 2021 ainda pode funcionar como um verdadeiro mapa para a próxima maratona.
Naquele ano, a BBC Culture reuniu 206 críticos, jornalistas, acadêmicos e profissionais da indústria da televisão de 43 países para responder a uma pergunta ambiciosa: quais eram as melhores séries de televisão do século XXI até aquele momento?
O resultado reuniu 100 produções, escolhidas entre nada menos que 460 títulos diferentes que receberam votos.
No topo ficaram três séries que se tornaram referências da televisão contemporânea:
🥇 The Wire
🥈 Mad Men
🥉 Breaking Bad
Mas basta avançar algumas posições para perceber como a seleção atravessa estilos, épocas e maneiras completamente diferentes de contar histórias.
Fleabag aparece em quarto lugar. Game of Thrones, em quinto. The Leftovers ocupa a sétima posição, The Office, versão britânica, aparece em nono e Succession fecha o top 10.
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Quase cinco anos depois, a lista continua sendo uma boa desculpa para descobrir — ou rever — algumas das produções mais influentes da televisão recente.
Como a BBC chegou às 100 séries?
O ranking não foi montado por votação popular.
A BBC Culture convidou profissionais ligados diretamente à análise, estudo e produção de televisão.
Foram 206 participantes de 43 países, entre críticos, jornalistas, acadêmicos e profissionais da indústria.
Cada pessoa deveria apresentar uma lista com suas dez séries preferidas do século XXI.
A primeira colocada de cada participante recebia dez pontos; a segunda, nove; e assim sucessivamente, até um ponto para o décimo lugar. Depois, os pontos foram somados para formar a classificação geral.
A composição do grupo também foi divulgada: 104 homens, 100 mulheres e duas pessoas não binárias participaram da consulta.
Ao todo, 460 séries receberam pelo menos um voto.
Só valiam produções que começaram no século XXI
Existe uma regra que ajuda a explicar algumas ausências aparentemente inexplicáveis.
Para participar, a produção precisava ter tido seu episódio inicial depois de 1º de janeiro de 2000. As respostas foram coletadas até julho de 2021.
Por isso, séries gigantescas que começaram ainda nos anos 1990 ficaram de fora.
O caso mais evidente é The Sopranos, frequentemente incluída entre as obras mais importantes da história da televisão, mas cuja estreia aconteceu em 1999.
A regra também significa outra coisa importante ao revisitar o ranking em 2026:
a lista é um retrato da televisão até meados de 2021.
Séries que estrearam depois daquele período simplesmente não poderiam aparecer, independentemente da repercussão que tenham alcançado nos últimos cinco anos.
Portanto, ela não deve ser entendida como uma lista atualizada das “100 melhores séries disponíveis hoje”, mas como uma grande fotografia crítica dos primeiros 21 anos do século.
The Wire ficou em primeiro lugar
Lançada em 2002, The Wire ficou no topo da votação.
Criada por David Simon, a produção ambientada em Baltimore utiliza inicialmente o combate ao tráfico de drogas como porta de entrada para analisar estruturas muito maiores — polícia, política, imprensa, escolas, desigualdade e funcionamento das instituições.
Na votação da BBC, quase um quarto dos participantes colocou a produção diretamente em primeiro lugar, e quase metade a incluiu em seu top 10.
Esse desempenho ajuda a dimensionar por que a série terminou à frente de títulos com alcance popular muito maior.
O ranking não mediu audiência.
Mediu preferência crítica.
Mad Men e Breaking Bad completam o pódio
Na segunda posição aparece Mad Men, drama ambientado no mundo da publicidade norte-americana dos anos 1960.
Logo depois vem Breaking Bad, em terceiro.
A história de Walter White transformou uma premissa relativamente simples — um professor de química que entra para o mundo do crime — em uma das jornadas de transformação de personagem mais reconhecidas da televisão contemporânea.
As duas produções, ao lado de The Wire, formaram um pódio completamente dominado por dramas norte-americanos.
Mas o restante do ranking rapidamente amplia esse universo.
Fleabag chega ao quarto lugar
Uma das colocações mais expressivas é a de Fleabag.
Criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, a produção britânica chegou à quarta posição e foi a série criada por uma mulher mais bem colocada na votação.
Com apenas duas temporadas, a produção mostrou que quantidade de episódios pouco importa quando o impacto cultural é grande.
Logo atrás aparece uma obra de proporções completamente diferentes.
Game of Thrones ocupa o quinto lugar.
A fantasia baseada nos livros de George R. R. Martin transformou-se em fenômeno mundial e ajudou a consolidar um período em que séries passaram a receber investimentos, escala de produção e repercussão antes associados sobretudo ao cinema.
O top 10 mistura mundos completamente diferentes
As dez primeiras posições mostram bem a amplitude da votação:
- The Wire
- Mad Men
- Breaking Bad
- Fleabag
- Game of Thrones
- I May Destroy You
- The Leftovers
- The Americans
- The Office (UK)
- Succession
Há crime, publicidade, fantasia medieval, comédia, espionagem, trauma, religião e sátira corporativa.
É uma diversidade que ajuda a explicar uma das ideias centrais da própria BBC ao publicar o levantamento: nas primeiras décadas do século XXI, a televisão deixou definitivamente de ser tratada como uma espécie de “irmã menor” do cinema e passou a ocupar um espaço de enorme prestígio artístico.
E Succession ainda nem havia terminado
Revisitar a lista em 2026 produz algumas curiosidades.
Quando a votação aconteceu, Succession já estava na décima posição, apesar de sua trajetória ainda não estar concluída.
A série terminaria apenas em 2023.
Ou seja: a avaliação da BBC foi formada antes de críticos conhecerem o desfecho completo da disputa da família Roy.
O mesmo vale para outras produções que estavam em andamento quando os votos foram coletados.
Por isso, algumas posições poderiam naturalmente ser diferentes caso exatamente os mesmos especialistas fossem consultados hoje.
De Chernobyl a Black Mirror
Depois do top 10, continuam aparecendo títulos que se tornaram parte importante da cultura pop.
BoJack Horseman ficou em 11º.
Six Feet Under, em 12º.
Twin Peaks: The Return, em 13º.
Atlanta, em 14º.
E Chernobyl aparece em 15º.
Mais abaixo, The Crown ocupa a 16ª posição, Lost aparece em 19º e Black Mirror, em 22º.
Logo depois, em 23º lugar, está Better Call Saul, derivada do universo de Breaking Bad.
A classificação é particularmente interessante porque mostra que continuações e produções ligadas a franquias não foram automaticamente tratadas como inferiores às obras originais.
Sherlock, True Detective e Fargo também aparecem
Para quem gosta de investigação, crime e suspense, a lista oferece material para muitas horas de maratona.
Sherlock aparece em 25º lugar.
Line of Duty, em 27º.
True Detective, em 31º.
Fargo, em 35º.
The Bridge, produção escandinava que ajudou a ampliar internacionalmente o interesse pelo chamado Nordic noir, também está entre as selecionadas.
Mais adiante surgem The Killing, Mindhunter, Dexter, Hannibal e Luther.
Ou seja: se o problema é encontrar um bom suspense policial para começar, a lista praticamente fornece um catálogo próprio.
La Casa de Papel também entrou
Produções de enorme popularidade mundial também conquistaram espaço.
Money Heist, nome internacional de La Casa de Papel, aparece na 43ª posição.
Stranger Things está em 68º.
Narcos aparece entre as produções classificadas na faixa dos 80 primeiros.
Westworld ocupa uma das últimas posições do ranking.
E The Queen’s Gambit — O Gambito da Rainha, fenômeno da Netflix lançado em 2020, encerra a relação.
É a número 100.
Estar no fim do ranking, contudo, não deve ser interpretado como avaliação ruim.
É preciso lembrar que 460 produções receberam votos e apenas 100 entraram na seleção final.
Comédia também conquistou espaço
Quem imaginar uma lista dominada exclusivamente por dramas pesados vai encontrar algumas surpresas.
Há muitas comédias entre as 100.
The Office (UK) é a nona colocada.
30 Rock aparece em 17º.
Curb Your Enthusiasm, em 21º.
Veep, em 24º.
Depois surgem Parks and Recreation, Arrested Development, Schitt’s Creek, Peep Show, Community, The Good Place, How I Met Your Mother, It’s Always Sunny in Philadelphia e Crazy Ex-Girlfriend.
A presença dessas produções mostra também o quanto o formato da comédia mudou durante o século XXI.
Do falso documentário ao humor político e às séries que misturam comédia, drama e temas existenciais, as fronteiras ficaram muito menos rígidas.
Até animações aparecem entre as melhores
A seleção não restringiu a televisão adulta a produções com atores.
BoJack Horseman aparece em impressionante 11º lugar.
Avatar: The Last Airbender está entre as 100.
Rick and Morty também entrou.
Essa presença mostra como a animação se consolidou como linguagem capaz de disputar espaço crítico com grandes dramas tradicionais, e não apenas como um gênero destinado ao público infantil.
Há até documentário de natureza
Outra prova de que a seleção vai muito além da dramaturgia aparece na 73ª posição.
Planet Earth, produção documental da BBC dedicada à natureza, entrou entre as 100.
O levantamento, portanto, não procurou apenas escolher as melhores séries ficcionais.
A pergunta era mais ampla: quais produções televisivas foram consideradas mais importantes pelos participantes?
Uma lista internacional — mas ainda concentrada em Reino Unido e Estados Unidos
Apesar de os votantes virem de 43 países, a distribuição das obras não é igualmente global.
Produções britânicas e norte-americanas dominam amplamente o ranking. A própria análise posterior da lista reconheceu limitações e vieses da seleção.
Ainda assim, títulos produzidos fora desse eixo conseguiram espaço.
Dinamarca, França, Alemanha, Espanha, Canadá, Irlanda e Itália estão entre os países representados.
Séries como Borgen, The Bridge, Babylon Berlin, The Bureau e La Casa de Papel ajudam a ampliar a geografia da seleção.
Atenção aos empates no ranking original
Há uma pequena diferença entre algumas reproduções da lista encontradas nas redes sociais e a classificação original da BBC.
O ranking oficial possui três empates:
Downton Abbey e Band of Brothers dividiram a 36ª colocação;
The Good Place e Pose ficaram empatadas na 62ª;
e Narcos e Normal People dividiram a 84ª posição.
Alguns cards adaptados para redes sociais transformam essas posições em uma sequência contínua de 1 a 100 para facilitar a leitura.
É apenas uma diferença de apresentação, mas vale fazer a ressalva quando a proposta é reproduzir o levantamento com fidelidade.
Por que essa lista ainda vale a pena em 2026?
Porque uma boa lista de séries envelhece de forma diferente de uma lista de lançamentos.
A disponibilidade nas plataformas muda.
Novas produções aparecem.
Algumas séries perdem parte do impacto inicial; outras parecem ainda melhores quando revistas anos depois.
Mas títulos como The Wire, Mad Men, Breaking Bad, Fleabag, The Leftovers, Better Call Saul, Chernobyl e Succession continuam sendo referências constantes quando se discute a transformação da televisão neste século.
A lista também funciona de outra maneira:
como porta de entrada.
Quem chegou aos streamings mais recentemente pode conhecer Game of Thrones e Stranger Things, mas nunca ter assistido a The Americans.
Pode conhecer Breaking Bad, mas ainda não ter começado Better Call Saul.
Pode gostar de Black Mirror sem nunca ter visto Inside No. 9.
Ou ter ouvido dezenas de vezes que The Wire é extraordinária sem jamais ter dado o primeiro play.
E quais estão faltando?
É aí que qualquer lista desse tipo cumpre talvez sua função mais divertida.
Provocar discordância.
A própria BBC deixou claro, quando publicou o levantamento, que a relação não pretendia ser definitiva. O objetivo era também incentivar espectadores a descobrir obras desconhecidas e discutir aquelas que já conheciam.
E, em 2026, existe uma razão adicional para discordar.
Quase cinco anos de televisão aconteceram depois do fechamento daquela votação.
Produções lançadas após julho de 2021 não tiveram qualquer possibilidade de aparecer.
Portanto, se uma nova consulta fosse realizada hoje, o resultado provavelmente teria novos concorrentes — embora não seja possível afirmar quais títulos entrariam ou quais perderiam posições sem uma nova votação.
Para salvar antes da próxima maratona
Se a dúvida for apenas “o que assistir hoje?”, talvez o melhor uso dessa lista seja esquecer por alguns minutos a discussão sobre quem deveria estar em primeiro ou em 80º lugar.
Escolha um título que ainda não viu.
Há dramas longos.
Minisséries.
Comédias de episódios curtos.
Ficção científica.
Suspense.
Fantasia.
Animação.
Documentário.
E produções de vários países.
São 100 possibilidades para aquele momento em que o controle está na mão, o streaming está aberto e nenhuma capa parece convencer.
Quase cinco anos depois de publicada, a lista continua cumprindo exatamente a missão que a BBC dizia esperar quando a apresentou:
ajudar o público a encontrar algo novo para assistir — e dar bons motivos para discutir televisão depois.


