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Pesquisa mexicana acompanhou 29 mulheres e encontrou resultados promissores com terapia fotodinâmica contra HPV e lesões cervicais de baixo grau; técnica segue em investigação e não deve ser confundida com uma cura já disponível para a infecção

Uma substância aplicada diretamente no colo do útero. Algumas horas depois, uma fonte de luz vermelha direcionada para a região. Meses mais tarde, o HPV já não era detectado em todas as participantes de um dos grupos acompanhados.

O resultado parece impressionante — e realmente chamou a atenção da comunidade científica.

Mas é preciso compreender exatamente o que foi encontrado antes de transformar uma pesquisa promissora em uma afirmação muito maior do que os dados permitem.

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O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto Politécnico Nacional (IPN), no México, em uma linha de investigação liderada pela cientista Eva Ramón-Gallegos, que estuda terapia fotodinâmica há mais de duas décadas.

No estudo realizado com 29 mulheres da Cidade do México, as participantes apresentavam infecção pelo papilomavírus humano (HPV), neoplasia intraepitelial cervical grau I — conhecida como NIC I — ou as duas condições simultaneamente.

Seis meses após o tratamento, o HPV deixou de ser detectado em 100% das participantes do grupo que apresentava somente a infecção pelo vírus, sem lesões cervicais.

Entre aquelas que tinham HPV associado à NIC I, a resposta registrada foi de 64,3%.

Já entre mulheres com NIC I sem HPV detectável, houve regressão da lesão em 57,2%, resultado que, nesse grupo específico, não alcançou significância estatística.

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São resultados relevantes.

Mas eles não significam que a ciência encontrou uma “cura para o HPV”.

E entender essa diferença é justamente o que torna a pesquisa ainda mais interessante.

O estudo existe — mas não é uma descoberta feita agora

O resultado voltou a circular com força nas redes sociais recentemente, muitas vezes acompanhado de manchetes que apresentam a pesquisa como uma descoberta nova.

Ela não é.

Os dados das 29 mulheres da Cidade do México fizeram parte de uma pesquisa de doutorado concluída em fevereiro de 2019, segundo o próprio Instituto Politécnico Nacional.

Posteriormente, os resultados passaram pelo processo de publicação científica e foram apresentados no periódico Photochemistry and Photobiology.

O artigo foi publicado on-line em 11 de fevereiro de 2023, no volume 99 da revista, sob o título Elimination of Human Papillomavirus and Cervical Pathological Microbiota with Photodynamic Therapy in Women from Mexico City with Cervical Intraepithelial Neoplasia I.

Portanto, a informação é verdadeira.

O que precisa ser corrigido é a impressão de que se trata de uma terapia recém-anunciada em 2026 ou de um tratamento que já tenha sido estabelecido como cura definitiva.

Não foi isso que aconteceu.

Quem é Eva Ramón-Gallegos?

Eva Ramón-Gallegos é professora e pesquisadora da Escola Nacional de Ciências Biológicas do Instituto Politécnico Nacional, no México.

Ela coordena uma linha de investigação dedicada ao uso da terapia fotodinâmica contra infecção persistente por HPV e alterações de baixo grau do colo do útero.

Segundo o próprio IPN, a pesquisadora trabalha nessa área há mais de 20 anos, no Laboratório de Citopatologia Ambiental do Departamento de Morfologia.

O projeto é multidisciplinar.

Participam pesquisadores, ginecologistas, patologistas, citopatologistas e outros profissionais de saúde.

O objetivo atual declarado pelo grupo é desenvolver um tratamento minimamente invasivo para mulheres com infecção persistente pelo HPV e/ou lesões intraepiteliais cervicais de baixo grau.

Ou seja: não se trata do trabalho isolado de uma única cientista.

Há uma equipe de pesquisa construída ao longo de anos, com diferentes teses, experimentos e publicações.

Afinal, o que é terapia fotodinâmica?

A lógica da técnica parece quase futurista, mas as bases da terapia fotodinâmica são estudadas há mais de um século.

Ela combina três elementos:

um medicamento fotossensibilizante, luz em um determinado comprimento de onda e oxigênio presente nos tecidos.

No projeto mexicano, é utilizado o ácido aminolevulínico, um precursor de uma molécula chamada protoporfirina IX.

O medicamento é aplicado localmente.

Após ser absorvido, determinadas células acumulam maior quantidade da substância fotossensível. Depois, a região é irradiada com luz vermelha de aproximadamente 635 nanômetros.

A exposição à luz desencadeia reações fotoquímicas que produzem espécies reativas capazes de danificar as células-alvo.

É justamente essa seletividade que interessa aos pesquisadores.

A intenção é atingir principalmente células alteradas ou infectadas, preservando ao máximo o tecido saudável ao redor.

No estudo, tratamento foi realizado duas vezes

Nas 29 mulheres da Cidade do México, foi utilizado um esquema de duas aplicações, separadas por um intervalo de 48 horas.

A avaliação dos resultados começou seis meses depois.

Foi nesse acompanhamento que apareceram os números que ganharam repercussão:

Somente HPV, sem lesão cervical:
100% deixaram de apresentar HPV detectável.

HPV + NIC I:
64,3% apresentaram eliminação do vírus.

NIC I sem HPV:
57,2% apresentaram regressão da lesão, mas a diferença desse grupo não foi estatisticamente significativa.

A própria publicação científica informa significância estatística para os resultados relacionados ao HPV, mas não para o grupo com NIC I sem detecção viral.

Essa é uma distinção importante.

Nem todos os percentuais apresentados em um estudo possuem o mesmo peso estatístico.

Pesquisa encontrou outro resultado curioso

Os cientistas não analisaram somente o HPV.

Também estudaram parte da microbiota vaginal das participantes.

Seis meses depois da terapia, o trabalho registrou eliminação de Chlamydia trachomatis em 81% das participantes em que o microrganismo estava presente e de Candida albicans em 80%.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores relataram impacto relativamente pequeno sobre Lactobacillus iners, bactéria pertencente à microbiota vaginal, que foi eliminada em apenas 5,8% das participantes avaliadas.

Os autores interpretaram os resultados como um sinal de que a terapia poderia ter potencial não apenas contra células alteradas relacionadas ao HPV, mas também contra determinados microrganismos patogênicos.

Novamente, são achados que precisam de confirmação em trabalhos maiores.

Então por que não podemos falar em “cura do HPV”?

Há várias razões.

A primeira é o tamanho do estudo.

Foram apenas 29 mulheres no total, posteriormente divididas em diferentes grupos conforme a presença de HPV e de alterações cervicais.

Isso significa que o percentual de 100% não representa 29 mulheres.

Ele corresponde apenas ao subgrupo que apresentava HPV sem lesão cervical.

A segunda razão é que esse trabalho não equivale a um grande ensaio clínico randomizado e controlado capaz de estabelecer de maneira definitiva a eficácia de um novo tratamento em comparação com outras abordagens ou com a evolução natural da infecção.

E existe um terceiro aspecto especialmente importante.

Na maioria das pessoas, o próprio organismo controla o HPV

O HPV é extremamente comum.

Quase todas as pessoas sexualmente ativas terão contato com algum tipo do vírus em algum momento da vida, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Mas isso não significa que todas desenvolverão doença.

Em cerca de 90% das pessoas, o próprio organismo controla a infecção. Na maioria dos casos, ela se torna indetectável espontaneamente dentro de um ou dois anos.

É exatamente por essa razão que estudos de tratamentos contra HPV precisam ser interpretados cuidadosamente.

Se uma infecção pode desaparecer naturalmente, pesquisadores precisam realizar estudos maiores e bem controlados para determinar quanto da negativação observada ocorreu por causa da terapia e quanto poderia ter ocorrido pela resposta natural do sistema imunológico.

Isso não invalida o resultado mexicano.

Mas mostra por que um grupo com 100% de negativação não é suficiente, isoladamente, para anunciar uma cura.

O problema está principalmente no HPV persistente

Embora a maioria das infecções desapareça, uma pequena parcela persiste.

E é justamente a infecção persistente por tipos de HPV de alto risco que representa a principal preocupação.

A Organização Mundial da Saúde informa que praticamente todos os casos de câncer do colo do útero estão relacionados a infecções persistentes por HPV de alto risco.

Entre os diferentes tipos do vírus, HPV 16 e HPV 18 têm importância especial e estão associados a grande parcela dos cânceres cervicais.

Isso também explica por que o grupo mexicano direciona atualmente seus estudos principalmente a mulheres com persistência do HPV por mais de 18 meses e/ou lesões intraepiteliais de baixo grau.

Nesse contexto, um tratamento capaz de ajudar o organismo a eliminar uma infecção persistente teria potencial clínico importante.

Mas é justamente essa eficácia que precisa ser comprovada em estudos maiores.

O próprio IPN ainda trata a técnica como projeto de pesquisa

Talvez esse seja o melhor indicador do estágio atual da tecnologia.

O Instituto Politécnico Nacional mantém uma página específica dedicada ao Projeto VPH.

Nela, a instituição informa que o grupo busca incluir um número maior de mulheres com infecção persistente e/ou lesões cervicais de baixo grau para continuar avançando na investigação.

O portal atualmente permite que interessadas se cadastrem para projetos vigentes, desde que atendam aos critérios do protocolo de pesquisa e assinem termo de consentimento informado.

Ou seja:

a terapia segue sendo estudada dentro de protocolos de pesquisa.

Não é apresentada pelo próprio grupo como um tratamento universal já estabelecido para qualquer pessoa com HPV.

Mais de duas décadas de pesquisas

Os resultados das 29 mulheres não surgiram do nada.

O grupo do IPN construiu uma longa trajetória experimental antes de chegar à aplicação clínica.

Segundo o histórico oficial do projeto, entre 1995 e 2010 foram realizados estudos básicos sobre acúmulo de protoporfirina IX, doses de irradiação, morte de células de câncer cervical, eliminação de HPV em culturas celulares e modelos animais.

Em 2013, ocorreu o tratamento da primeira paciente mexicana dentro dessa linha de pesquisa.

Em 2017, foi publicado internacionalmente um dos primeiros trabalhos clínicos do grupo envolvendo mulheres mexicanas.

Esse estudo anterior utilizou terapia fotodinâmica com ácido aminolevulínico em mulheres com HPV 16 ou 18 e/ou NIC I. A publicação descreveu três aplicações com intervalos de 48 horas e acompanhamento em três, seis e 12 meses.

A pesquisa posteriormente continuou até chegar ao protocolo utilizado nas mulheres da Cidade do México.

O que é NIC I?

NIC significa neoplasia intraepitelial cervical.

A classificação descreve alterações encontradas nas células do colo do útero.

A NIC I representa alterações consideradas de baixo grau.

Ela não significa câncer.

Muitas dessas lesões podem regredir espontaneamente, especialmente em pessoas mais jovens.

Alterações de maior grau, como NIC II e NIC III, exigem outra abordagem e têm risco maior de progressão.

Esse detalhe também importa no caso mexicano.

O próprio Projeto VPH do IPN informa atualmente que sua terapia é pesquisada em mulheres com HPV persistente e/ou lesões de baixo grau.

O grupo afirma expressamente que não realiza esse protocolo experimental para lesões de alto grau NIC II ou NIC III, orientando essas pacientes a procurar atendimento ginecológico especializado.

Portanto, não é correto interpretar a pesquisa como tratamento estabelecido para câncer cervical.

Técnica interessa porque tenta preservar o colo do útero

Uma das motivações para pesquisar a terapia fotodinâmica é sua natureza minimamente invasiva.

Determinadas lesões precursoras podem exigir procedimentos que removem ou destroem parte do tecido cervical.

Dependendo do caso, isso pode ter implicações para a anatomia do colo e para a saúde reprodutiva.

A proposta da terapia fotodinâmica é diferente.

Ao utilizar um agente fotossensível e luz direcionada, os pesquisadores procuram eliminar seletivamente células alteradas sem retirar fisicamente uma parte do colo uterino.

O IPN destaca justamente a preservação da estrutura cervical e da fertilidade entre os potenciais benefícios da abordagem.

Isso ajuda a explicar o interesse científico pela técnica.

E os efeitos colaterais?

Segundo as informações atuais do projeto do IPN, as pacientes tratadas relataram principalmente irritação leve na região genital, que pode permanecer entre dois e cinco dias após a aplicação.

O grupo afirma ainda que o medicamento é aplicado de forma tópica.

Mas segurança em um grupo relativamente pequeno também não significa que todos os riscos possíveis já sejam conhecidos.

Esse é outro motivo para ampliar os estudos antes de incorporar uma tecnologia à prática clínica em larga escala.

Não é qualquer pessoa com HPV que precisa de tratamento para eliminar o vírus

Esse ponto é essencial.

Em geral, não existe indicação para tentar “eliminar” diretamente toda infecção genital pelo HPV.

O CDC esclarece que não há terapia antiviral específica recomendada para erradicar uma infecção subclínica pelo HPV. O tratamento médico é direcionado às manifestações provocadas pelo vírus, como verrugas ou lesões precursoras, enquanto muitas infecções são controladas naturalmente pelo sistema imunológico.

Portanto, receber um teste positivo não significa automaticamente precisar de um procedimento.

A conduta depende de fatores como:

idade;

tipo de HPV;

persistência da infecção;

resultado de exames complementares;

existência e grau de alterações celulares;

histórico clínico.

A avaliação deve ser individualizada.

Brasil está mudando a forma de rastrear o câncer do colo do útero

Enquanto terapias experimentais são pesquisadas no México e em outros países, o Brasil passa por uma mudança importante na prevenção.

As novas diretrizes brasileiras adotam o teste molecular para DNA do HPV oncogênico como exame primário de rastreamento do câncer do colo do útero.

O Ministério da Saúde informa que o novo modelo é direcionado, de forma geral, para mulheres de 25 a 64 anos e permite intervalo de cinco anos quando o resultado do teste é negativo.

A tecnologia começou a ser incorporada ao SUS e a previsão do governo federal é ampliar sua presença na rede pública nacional ao longo de 2026.

A mudança ocorre porque o teste identifica diretamente tipos oncogênicos de HPV e consegue apontar risco antes mesmo do surgimento de alterações detectáveis na citologia.

Vacinação continua sendo a principal ferramenta de prevenção

Nenhuma pesquisa sobre tratamento experimental substitui a vacina.

A vacinação contra o HPV é uma das principais estratégias para prevenir infecções pelos tipos virais associados a câncer.

A Organização Mundial da Saúde considera a vacinação uma das intervenções mais efetivas para prevenção do câncer do colo do útero.

O SUS mantém a vacina contra HPV no Calendário Nacional de Vacinação, com esquemas definidos conforme idade e grupo elegível.

A vacina é preventiva.

Ela não elimina uma infecção pelo HPV já instalada.

Essa diferença também é ressaltada pelo próprio grupo mexicano.

Por isso, prevenção combina diferentes estratégias:

vacinação + rastreamento + acompanhamento das alterações encontradas + tratamento das lesões quando indicado.

Há outras pesquisas internacionais com terapia fotodinâmica

O interesse pela técnica não está limitado ao México.

Em 2024, um estudo publicado na revista Scientific Reports avaliou terapia fotodinâmica em 14 mulheres jovens com lesões cervicais de alto grau.

Nesse trabalho, 64,3% apresentaram teste negativo para HPV de alto risco entre três e seis meses depois; aos 12 meses, a negativação chegou a 85,7%.

Os pesquisadores também relataram resposta completa das lesões do canal cervical avaliadas e ausência de eventos adversos graves no pequeno grupo estudado.

Mais uma vez, porém, foram apenas 14 pacientes.

O conjunto desses trabalhos mostra que a terapia fotodinâmica é uma linha científica real e promissora.

Também mostra que o campo ainda necessita de estudos maiores e de melhor qualidade antes de conclusões definitivas.

O que podemos afirmar hoje

Há uma diferença enorme entre dizer:

“cientistas encontraram uma terapia experimental que apresentou resultados promissores contra HPV”

e afirmar:

“cientistas descobriram a cura do HPV”.

A primeira frase é sustentada pelos dados.

A segunda, não.

O estudo mexicano é real, foi publicado em revista científica revisada por pares e encontrou 100% de negativação do HPV em um dos pequenos grupos avaliados.

Também registrou 64,3% de resposta entre mulheres com HPV associado à NIC I e 57,2% de regressão no grupo com NIC I sem HPV, sendo que este último resultado não atingiu significância estatística.

Mas foram 29 participantes no total.

Além disso, a história natural do HPV precisa ser considerada: em cerca de nove entre dez pessoas, a infecção torna-se indetectável espontaneamente dentro de dois anos.

É por isso que os resultados precisam ser reproduzidos em grupos maiores, acompanhados por períodos mais longos e comparados adequadamente antes que se possa dizer exatamente qual é a eficácia da terapia.

Promessa científica, sem transformar esperança em desinformação

O trabalho liderado por Eva Ramón-Gallegos é relevante justamente porque abre uma possibilidade.

Se pesquisas maiores confirmarem segurança e eficácia, a terapia fotodinâmica poderá futuramente oferecer uma abordagem minimamente invasiva para determinados grupos de mulheres com infecção persistente e alterações cervicais de baixo grau.

Isso seria importante.

Mas ciência não se constrói apenas com resultados impressionantes.

Ela avança quando esses resultados são reproduzidos, comparados, questionados e confirmados.

Por enquanto, a principal mensagem para quem recebe um diagnóstico de HPV não deve ser procurar uma suposta “cura com laser” anunciada nas redes sociais.

Deve ser manter acompanhamento ginecológico adequado.

A infecção por HPV é extremamente frequente e, na maioria das pessoas, desaparece sem produzir consequências graves.

Nos casos em que persiste, o rastreamento permite detectar alterações antes que evoluam.

E é justamente essa combinação — vacinação, diagnóstico precoce, acompanhamento correto e pesquisa científica séria — que continua sendo a melhor estratégia disponível para reduzir o impacto do HPV e do câncer do colo do útero.

O resultado mexicano merece atenção.

Mas merece também ser contado do jeito que a ciência exige:

como uma descoberta promissora — e não como uma cura já comprovada.

Fontes: Instituto Politécnico Nacional (IPN), Photochemistry and Photobiology, Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e INCA.