Dupla do Mitsubishi #7 decidiu a prova nas voltas finais, completou 52 voltas em pouco mais de duas horas e venceu também a edição que marcou o retorno da tradicional Corrida do Milhão ao calendário
Brasília viveu neste domingo (27) um daqueles dias que entram para a história do automobilismo.
Depois de mais de duas horas de disputa, mudanças de liderança, estratégias diferentes nos boxes e quatro entradas do safety car, Sérgio Sette Câmara e Lucas Di Grassi venceram a primeira corrida em formato Endurance já realizada pela Stock Car Pro Series.
A dupla do Mitsubishi Eclipse Cross #7, da Team RC, completou 52 voltas em 2h03min25s835 no Autódromo Internacional Nelson Piquet e recebeu a bandeirada apenas 1s574 à frente de Guilherme Salas e Arthur Gama.
Rafael Reis e Alberto Cattucci completaram o pódio, a 2s985 dos vencedores.
O resultado coroou um fim de semana que já havia se tornado especial antes mesmo da largada.
A etapa marcou também o retorno da Corrida do Milhão, que estava fora do calendário desde 2020, desta vez incorporada ao formato inédito de longa duração. A edição brasiliense manteve a tradicional premiação de R$ 1 milhão destinada ao vencedor.
Uma corrida decidida quando parecia estar acabando
A prova teve praticamente tudo o que uma corrida de longa duração pode oferecer.
Foram duas horas mais uma volta, três paradas obrigatórias, troca de pilotos, diferentes estratégias de pneus e combustível e quatro períodos de safety car.
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A liderança mudou de mãos várias vezes.
E a definição só aconteceu nas últimas voltas.
Sette Câmara e Di Grassi chegaram a liderar com boa vantagem, mas o cenário mudou na última sequência de pit stops.
Segundo Sette Câmara, a estratégia havia funcionado bem nas duas primeiras paradas, realizadas durante períodos de safety car. Na última, entretanto, a dupla precisou cumprir a parada completa sob bandeira verde e perdeu posições.
Foi quando Lucas Di Grassi iniciou uma recuperação que transformaria o final da corrida.
A ultrapassagem que decidiu tudo
Na reta final, Alfredinho Ibiapina aparecia na liderança.
Uma nova intervenção do safety car juntou novamente o pelotão e abriu uma última oportunidade.
Na relargada, faltando duas voltas para a bandeirada, Di Grassi atacou.
O piloto recuperou a primeira posição ao superar Ibiapina e colocou novamente o carro #7 na liderança. A ultrapassagem ocorreu na penúltima volta e definiu o resultado.
Depois disso, restou administrar os quilômetros finais.
Sette Câmara e Di Grassi cruzaram a linha de chegada com pouco mais de um segundo de vantagem.
Em uma corrida de mais de duas horas, os três primeiros terminaram separados por menos de três segundos.
Pódio da Endurance de Brasília
🥇 Sérgio Sette Câmara / Lucas Di Grassi
Team RC — Mitsubishi Eclipse Cross
52 voltas — 2h03min25s835
🥈 Guilherme Salas / Arthur Gama
Valda-Cavaleiro Sports — Chevrolet Tracker
+1s574
🥉 Rafael Reis / Alberto Cattucci
Car Racing — Toyota Corolla Cross
+2s985.
Salas e Gama ainda registraram a volta mais rápida da prova, com 1min55s046.
Primeira vitória de Sette Câmara na Stock Car
Para Sérgio Sette Câmara, o domingo teve significado ainda maior.
Foi sua primeira vitória na Stock Car Pro Series.
O mineiro construiu grande parte da carreira fora do país e passou por categorias internacionais como Fórmula 2 e Fórmula E antes de retornar ao automobilismo brasileiro.
Em Brasília, dividiu o carro com justamente um piloto que conhece bem do cenário internacional.
Sette Câmara e Lucas Di Grassi compartilharam o grid da Fórmula E por várias temporadas e mantêm uma relação de amizade construída no automobilismo.
A sintonia funcionou.
Sette Câmara destacou depois da corrida justamente o trabalho feito pelo companheiro no trecho final, quando o carro precisou recuperar na pista as posições perdidas durante a estratégia de boxes.
Di Grassi chega à quarta vitória na categoria
Para Lucas Di Grassi, o triunfo não foi o primeiro na Stock Car.
O piloto chegou à quarta vitória na principal categoria brasileira.
Campeão mundial da Fórmula E e com longa trajetória internacional, Di Grassi retornou à Stock Car especialmente como convidado de Sette Câmara para a corrida de Brasília.
Após a prova, destacou o nível do grid e descreveu o trecho final praticamente como uma nova corrida Sprint dentro da própria Endurance.
A avaliação faz sentido.
Depois de quase duas horas de estratégia e administração do equipamento, o último safety car colocou novamente vários competidores em condições de disputar a vitória diretamente.
E aí velocidade pura voltou a ser decisiva.
Primeiras voltas tiveram Gabriel Robe e Nelsinho Piquet na frente
A corrida havia começado com outro cenário.
Gabriel Robe, parceiro de Gabriel Casagrande, largou da pole position no Chevrolet Tracker #83 e manteve a liderança no início.
Arthur Gama aparecia logo atrás, seguido por Nelson Piquet Jr., Felipe Fraga e Felipe Drugovich.
Nelsinho rapidamente começou a pressionar.
Na quarta volta, conseguiu assumir a liderança, enquanto as primeiras janelas estratégicas começavam a se aproximar.
Na sexta volta, os boxes foram oficialmente abertos para a primeira das três paradas obrigatórias.
Pouco depois, Antonella Bassani parou em uma área de escape e provocou a primeira entrada do safety car.
A neutralização alterou imediatamente os planos das equipes.
Grande parte do pelotão aproveitou para cumprir a parada obrigatória.
Em determinado momento, quase todos os carros estavam simultaneamente nos boxes, deixando apenas o veículo de segurança circulando pelo traçado.
Três paradas obrigatórias transformaram a corrida em jogo de estratégia
A Endurance brasiliense não poderia ser vencida apenas acelerando.
Cada carro tinha de cumprir três pit stops obrigatórios, com reabastecimento e troca de piloto.
Ao menos uma dessas paradas precisava ser completada antes do término da 20ª volta.
Durante o reabastecimento, a única outra atividade permitida era justamente a troca de piloto.
Mecânicos tinham de aguardar o fim do abastecimento para realizar troca de pneus, ajustes ou reparos.
Isso criou uma verdadeira disputa paralela nos boxes.
Cada equipe precisava decidir quando parar, quais pneus utilizar e como reagir às entradas do safety car.
E, diferente de algumas provas de longa duração, uma parada realizada durante safety car continuava válida para o cumprimento das obrigações regulamentares.
Foi justamente essa característica que ajudou algumas duplas e prejudicou outras.
Endurance teve uma “corrida dentro da corrida”
A Stock Car ainda criou um formato particular de pontuação para Brasília.
A prova foi dividida em dois estágios.
O primeiro terminou na 20ª volta e distribuiu pontos equivalentes aos de uma corrida Sprint convencional.
Naquele momento, quem liderava era a dupla formada por Enzo Elias e Gianluca Petecof, que recebeu a pontuação máxima do primeiro estágio.
Depois, a corrida continuou normalmente até o final.
A bandeirada distribuiu uma segunda pontuação, desta vez equivalente à corrida principal.
Antes da prova, o regulamento permitia que um piloto acumulasse até 135 pontos caso vencesse os dois estágios — e até 137 considerando os pontos da pole position.
Isso aumentou consideravelmente o peso esportivo da etapa na reta final do campeonato.
20 acionamentos de potência extra
Outro ingrediente estratégico foi o push-to-pass.
Cada carro tinha direito a 20 acionamentos de potência extra durante a corrida.
Após o comando, havia cinco segundos de espera antes da liberação do incremento de potência, que permanecia disponível durante 12 segundos.
Em uma corrida longa, a questão não era simplesmente usar.
Era decidir quando usar.
Guardar os acionamentos para as voltas finais poderia significar ter uma arma adicional numa disputa direta pela vitória.
Gastá-los mais cedo poderia ser importante para ultrapassar no tráfego e evitar perda de tempo.
Com o pelotão novamente agrupado no final, cada detalhe passou a importar.
Calor de 32°C aumentou exigência
O desafio não estava apenas no regulamento.
Brasília recebeu a corrida sob aproximadamente 32°C.
Dentro dos carros, a sensação térmica é muito maior.
Pilotos enfrentam calor do motor, roupas antichamas, capacete e esforço físico durante os stints.
Em uma corrida de longa duração, manter concentração e desempenho mesmo sob esse desgaste se torna parte decisiva da competição.
As trocas de piloto ajudam a distribuir o esforço, mas também acrescentam outro desafio: dois competidores precisam encontrar posição de banco, cintos e ajustes que permitam a ambos extrair desempenho do mesmo carro.
A primeira Endurance da história da Stock Car
Embora corridas de duplas já façam parte da história da categoria, o formato realizado em Brasília foi diferente.
Foi a primeira prova efetivamente Endurance da história da Stock Car Pro Series, com duas horas mais uma volta e três paradas obrigatórias.
A competição brasileira possui quase cinco décadas de história.
Por isso, Brasília não recebeu simplesmente uma nova etapa.
Recebeu um formato que ainda não havia sido utilizado dessa maneira pela categoria.
A mudança também possibilitou reunir titulares e convidados com trajetórias em diferentes modalidades do automobilismo internacional.
Corrida do Milhão voltou depois de seis anos
Como se a estreia da Endurance não fosse suficiente, o evento também marcou o retorno de uma das provas mais conhecidas da história recente da Stock Car.
A Corrida do Milhão não era disputada desde 2020, quando Ricardo Zonta venceu em Interlagos.
Para 2026, a Stock Car escolheu Brasília para recuperar a competição especial.
O calendário divulgado no início do ano já colocava 27 de setembro como a data do retorno, com prêmio de R$ 1 milhão.
Posteriormente, com ajustes na programação do campeonato, a corrida brasiliense passou também a receber o formato Endurance.
Assim, duas novidades acabaram reunidas na mesma prova:
a volta da Corrida do Milhão e a estreia da Endurance.
De prova tradicional a desafio em duplas
A primeira Corrida do Milhão foi realizada em 2008.
Desde então, a disputa passou por circuitos como Jacarepaguá, Interlagos, Goiânia e Curitiba antes de desaparecer do calendário depois de 2020.
Em 2026, a volta ocorreu de maneira completamente diferente das edições anteriores.
Em vez de uma prova convencional com um piloto por carro, o prêmio milionário foi disputado em uma corrida longa e em duplas.
Isso colocou a estratégia coletiva no centro do evento.
A vitória não dependia apenas de um piloto.
Dependia do desempenho de ambos.
Um fim de semana que começou equilibrado
O resultado de domingo foi difícil de prever até mesmo pelos treinos.
Na sexta-feira, Gabriel Casagrande e Gabriel Robe lideraram a primeira atividade.
Felipe Massa e Caio Collet ficaram apenas 0s065 atrás, enquanto Sette Câmara e Di Grassi terminaram em terceiro.
No segundo treino, Enzo Elias e Gianluca Petecof assumiram a liderança com 1min55s518.
A diferença para Felipe Fraga e Felipe Nasr foi de apenas 0s017.
Nada menos que 13 carros terminaram dentro do mesmo segundo.
Esse equilíbrio já indicava que a corrida teria poucas margens para erro.
Sette Câmara e Di Grassi largaram apenas em 12º
A vitória ganha outra dimensão quando se observa a posição de largada.
Na classificação de sábado, Gabriel Casagrande e Gabriel Robe conquistaram a pole.
Felipe Massa e Caio Collet ficaram com a segunda posição.
Sette Câmara e Di Grassi?
Apenas 12º no grid.
Portanto, a dupla vencedora precisou construir a corrida avançando pelo pelotão e aproveitando as oportunidades estratégicas.
Em uma prova marcada por quatro safety cars e três paradas obrigatórias, a posição de largada acabou sendo apenas uma parte da equação.
Top 10 da histórica Endurance
O resultado oficial terminou assim:
- Sérgio Sette Câmara / Lucas Di Grassi — Mitsubishi
- Guilherme Salas / Arthur Gama — Chevrolet
- Rafael Reis / Alberto Cattucci — Toyota
- Allam Khodair / Diego Nunes — Mitsubishi
- Alfredinho Ibiapina / Pedro Piquet — Toyota
- Felipe Bartz / Enzo Bedani — Mitsubishi
- Arthur Leist / Gabriel Koenigkan — Toyota
- Rafael Suzuki / Nelson Piquet Jr. — Chevrolet
- Gaetano Di Mauro / Felipe Drugovich — Mitsubishi
- Hélio Castroneves / Daniel Malzoni — Toyota.
O top 10 também mostra a diversidade de nomes reunidos na etapa, incluindo pilotos com experiências em Fórmula 1, IndyCar, Fórmula E e categorias internacionais de endurance.
Mais do que uma corrida
O domingo encerrou um fim de semana em que o Autódromo Internacional Nelson Piquet recebeu muito mais do que a prova principal.
A programação reuniu Stock Car, Stock Light, Fórmula 4 Brasil e Turismo Nacional, além de visitação aos boxes, atividades para o público e um grid repleto de nomes conhecidos do automobilismo brasileiro e internacional.
Para Brasília, foi também mais um passo na retomada do autódromo como palco de grandes eventos nacionais.
E o calendário já reserva outra atração poucos dias depois: em 3 de outubro, a Porsche Cup Brasil fará sua estreia na capital com uma prova de Endurance de 300 quilômetros.
O automobilismo, portanto, permanece em evidência na cidade.
Brasília entrou definitivamente na história da categoria
Quando os carros deixaram a pista no domingo, o resultado entregou muito mais que um vencedor.
A Stock Car terminou sua primeira Endurance.
A Corrida do Milhão voltou ao calendário.
Sérgio Sette Câmara conquistou sua primeira vitória.
Lucas Di Grassi chegou ao quarto triunfo na categoria.
E Brasília tornou-se o cenário onde todas essas histórias se encontraram.
Durante duas horas, a lógica tradicional da Stock Car deu lugar à resistência.
Foi preciso saber acelerar.
Poupar.
Parar.
Trocar.
Reagir ao safety car.
Mudar a estratégia.
E, quando a última oportunidade apareceu, atacar.
Na penúltima volta, Lucas Di Grassi fez justamente isso.
O carro #7 voltou à liderança.
E, pouco depois, recebeu a bandeirada que colocou Sérgio Sette Câmara, Lucas Di Grassi e o Autódromo Internacional Nelson Piquet juntos em um capítulo inédito da história da Stock Car brasileira.
Fontes: Stock Car/Grupo Veloci, Motorsport.com e calendário oficial da categoria.
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