08/03/2026 – 12:37 – Rio de Janeiro

Atualmente é comum ver a presença de mulheres no setor de energia nas mais variadas áreas, embora ainda minoritária diante dos cargos ocupados por homens. De acordo com a IRENA, ao todo mulheres que atuam na área de energia compõem 22% da força de trabalho a nível global. 

Já no Brasil, elas correspondem a 20%, sendo predominantes em cargos administrativos, em contraste com pouco mais de 5% como lideranças. Apesar dessa disparidade, sua inserção e permanência resulta de uma longa caminhada construída por suas pioneiras que superaram as barreiras impostas pelo machismo e deixaram sua marca no mundo

Conheça algumas delas abaixo..

Maria Luiza Soares Fontes

Maria Luiza Soares Fontes foi uma figura icônica: além de ter sido a primeira engenheira eletricista do Brasil, viveu a honraria de receber o diploma das mãos do ex-presidente Juscelino Kubitschek, enquanto ainda era governador de Minas.

Maria era carioca, mas formou-se pelo Instituto de Engenharia de Itajubá, em Minas Gerais, em 1950. Após isso, voltou ao Rio de Janeiro, trabalhando na área de padronização do Plano Postal, função respectiva aos Correios e Telégrafos, ainda executada de forma manual na época. Entre suas atribuições estava a realização de especificações para montagem de subestações, como a qualidade de fios de cobre com alma de aço para linhas aéreas, de cabos subterrâneos, entre outros materiais.

Maria Luiza Soares Fontes. Fonte: Reynaldo Barros/Reprodução

Já na década de 60, ganhou uma bolsa de estudos do governo francês para cursar  mecanização postal e durante dez meses em Paris Visitou diversas outras cidades francesas e alemãs, a fim de conhecer os centros de triagens de correios estrangeiros. Apesar de ter recebido convite para trabalhar fora do país, escolheu não seguir para se dedicar às filhas. 

Apesar disso, deixou um importante legado para a padronização e modernização dos serviços postais brasileiros.

Maria Luiza faleceu no dia 21 de junho de 2017 aos 92 anos.

Enedina Alves Marques

A primeira engenheira negra do Brasil, se formou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná, em 1945, como engenheira civil. 

Enedina Alves Marques nasceu em 13 de janeiro de 1913, em Curitiba, Paraná, iniciando sua jornada como professora normalista. O ingresso na engenharia teve uma motivação simples: ser uma companhia à filha do patrão de sua mãe, também estudante na época.

Enedina Alves Marques. Fonte: UNIFEI/Reprodução

A engenheira esteve presente na estruturação da Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira, colaborando na parte de civil da usina subterrânea Capivari, como na topografia, construção de pontes e levantamento de rios. Também trabalhou na Secretaria de Viação e Obras Públicas, como engenheira fiscal de obras do Estado do Paraná; foi chefe da seção de hidráulica; chefe da divisão de estatísticas; chefe do serviço de engenharia da secretaria de educação e cultura.

Enedina faleceu em agosto de 1981, com 68 anos. Leia mais sobre a história dela na pesquisa de Sandro Fernandes.

Glória Conceição Odone

A paraense que se fixou no Rio de Janeiro, Gloria Conceição Odone, nasceu em 24 de maio de 1928. Glória se formou em Química na antiga Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil (atual UFRJ), se capacitando na área de petróleo em 1953, através do Conselho Nacional de Petróleo à época (renomeada para Petrobras).

Glória Conceição Odone. Fonte: Museu da Pessoa/Reprodução

Ela se tornou a primeira engenheira de processamento da instituição junto de sua colega Ileana Williams, lecionando por 12 anos no Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisas de Petróleo. Odone também participou da criação do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), até se aposentar como responsável pela Divisão Química. Em uma entrevista oral disponibilizada pelo Museu da Pessoa é possível ouvir sua história completa.

Glória Odone e Ileana Williams. Fonte: Petrobras/Reprodução

Sylvia dos Anjos

Na área mineral um importante nome é da geóloga Sylvia Maria Couto dos Anjos. Nascida em 19 de julho de 1957, no Rio de Janeiro, Sylvia se graduou em Geologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1978. Se tornou mestre em 1984 pela University of Illinois, nos Estados Unidos, e em 1986, formou-se doutora nesta mesma instituição. 

Em seu doutorado pesquisou os arenitos da composição rochosa do chamado Membro Santiago da Formação Pojuca, localizada na Bacia do Recôncavo, na Bahia. Os arenitos são rochas sedimentares porosas e de textura arenosa, conhecidas por serem bons reservatórios de água e petróleo.

Sylvia Maria Couto dos Anjos. Fonte: CREA-RJ/ Reprdução

Dos Anjos teve como principais contribuições estudos das regiões das bacias do Recôncavo, na Bahia, Bacia de Campos, localizada entre o Rio de Janeiro e Espírito Santo e a Bacia Potiguar, entre o Rio Grande do Norte e o Ceará.

Também realizou importantes trabalhos voltados às simulações diagenéticas brasileiras, relativas a  pesquisar o processo de desenvolvimento dessas rochas e também na previsão da qualidade de reservatórios, conhecimentos que são fundamentais para a exploração e produção de hidrocarbonetos no Brasil.

Atualmente ocupa o cargo de geóloga na Petrobras, no Cenpes, no Rio de Janeiro. 

Veja mais sobre ela aqui.

Olga Simbalista

Olga Simbalista, também conhecida como “mulher atômica”, é engenheira eletricista e nuclear, com mais de 40 anos de trabalho no setor e foi uma das poucas mulheres a ocupar importantes cargos de chefia no setor nuclear brasileiro. 

Nascida um dia antes do Dia da Mulher, 7 de março de 1947. é oriunda de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Olga iniciou sua jornada na Universidade Federal de Minas Gerais, se formando como engenheira eletricista no final do ano de 1970 e logo em seguida foi para a área nuclear, segmento mais predominante em sua carreira.

Olga Simbalista: Fonte: Tânia Malheiros/Reprodução

Inicialmente atuou no Instituto de Pesquisa Radiativas  (o atual Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear – CDTN, em Belo Horizonte), onde se tornou chefe de laboratório na área de de termo hidráulica.  Ainda dentro desse período, Olga estagiou no Centro de Pesquisa GKSS Geesthacht GmbH, na Alemanha, em 1977, onde participou do desenvolvimento de pesquisas para a construção de navios nucleares.

Nos anos 80, já de volta ao Brasil, mudou-se para o Rio de Janeiro, colecionando uma série de participações e contribuições na coordenação no setor nuclear e energético nacional. 

A engenheira foi superintendente geral de planejamento da Nuclebrás, uma das primeiras empresas voltada à temática nuclear no Brasil, em 1988; colaborou com o processo de financiamento de Angra 3, foi superintendente de planejamento da Eletronuclear e consultora da Agência Internacional de Energia Atômica, atuando na formulação de cenários energéticos nucleares no mundo no representante da América Latina na AIEA/Viena, durante 11 anos. 

A engenheira possui ainda outros títulos, sendo mestre em Engenharia Nuclear, ex-Presidente da ABEN, LAS/ANS, Consultora de Energia ACRJ e Banco da Mulher/Brasil, Board of Directors da American Nuclear Society, Diretora de Novos Negócios e Participações/Furnas e coautora do Livro “Mulheres na Energia”. Atualmente, integra o Conselho do Clube de Engenharia, já tendo recebido doze prêmios por sua atuação na promoção dos direitos da mulher e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela ONU. 

Confira a história dela aqui

Laura Porto

Na área das renováveis, um setor mais recente no Brasil, há também outras mulheres que estão deixando inúmeras contribuições. Entre elas está Laura Porto, engenheira eletricista que foi a primeira presidente da Abeeólica.

Formada na  pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Laura começou sua jornada na Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (COELBA), nas áreas de Planejamento de Sistemas de Transmissão e Geração de Energia. Durante essa experiência, Laura ingressou na especialização em Conversores de Energia Eólica Conectados à Rede, curso oferecido pela Deutsches Windenergie Institut, na Alemanha, no ano de 1994.

Laura Porto. Fonte: Redes Sociais/Reprodução

A partir dos anos 2000 atuou junto ao Ministério de Minas e Energia (MME), com destaque na coordenação de programas governamentais como o Programa de Incentivo a Fontes de Energia Alternativas (PROINFA), importante programa que incentiva a compra de energia de fontes renováveis para atender o crescimento da demanda nacional de energia elétrica. 

Também atuou entre outras iniciativas como o Programa de Eletrificação Rural “Luz no Campo”, atualmente “Luz para Todos”; e na implementação da Lei de Eficiência Energética e do Plano Nacional de Mudanças Climáticas. Ela também foi representante do MME na Comissão Interministerial de Mudanças Climáticas Globais.

Em seus mais de 25 anos de experiência dirigiu importantes empresas e organizações, como a Energias Renováveis ​​da Neoenergia S.A,  Iberdrola Renováveis ​​do Brasil até a posição de primeira presidenta da ABEEólica em abril de 2025, onde também é Conselheira desde 2010. Atualmente, como Diretora da Neoenergia.

No TEDX, ela conta mais sobre sua jornada.

Elbia Gannoum

Elbia é especialista em Regulação e Mercados de Energia Elétrica desde 1998.

Nascida em Ituiutaba, Minas Gerais, no dia 6 de janeiro de 1972, teve como primeira formação o curso de bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Uberlândia (IERI-UFU), em 1997, também obtendo o título de mestre em Economia  pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 1999 e de Doutora em 2003 em Engenharia de Produção pela mesma entidade. 

Em uma oportunidade oferecida pela UFSC, durante o doutorado, Elbia apresentou um estudo em um evento que comparava a competição no mercado de energia em diferentes países, onde recebeu o convite para trabalhar na Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Atuou na equipe responsável por gerenciar os efeitos do racionamento de energia e dali, foi escalada para tratar de energia no Ministério da Fazenda. 

Elbia Gannoum: Fonte: Redes sociais/Reprodução

Em 2003, atuou junta a Dilma (e também com Laura Porto), no Ministério de Minas e Energia, promovendo a revisão do modelo do setor elétrico e também na estruturação do Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica), que abriu espaço no mercado nacional às energias renováveis..

Elbia também passou por outras importantes organizações, sendo membro da Diretoria  Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), conselheira da ELETROSUL (2005-2006), professora da Universidade Federal de Santa Catarina (1998-2000) e CEO  da ABEEólica desde 2011, na qual é a atual presidente executiva.

Izete Zanesco

Izete Zanesco se interessou pela energia solar durante o período de graduação em Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde se formou em 1987. Motivada pelo curso, ingressou no Mestrado em Engenharia na Área de Energia também pela UFRGS, em 1991, defendendo dissertação no tema. 

Já no doutorado, se especializou em  Engenharia Fotovoltaica pela Universidade Politécnica de Madri, em 1996, na Espanha, por ainda não haver cursos neste nível no Brasil. A temática de sua tese de doutorado tratou sobre os módulos fotovoltaicos com concentração de radiação solar.

Izete Zanesco. Fonte: PUCRS/Reprodução

Entre seus trabalhos de destaque está o desenvolvimento do projeto Planta Piloto de Produção de Módulos Fotovoltaicos com Tecnologia Nacional/CB-Solar, em conjunto com o pesquisador Adriano Moehlecke. O projeto foi pioneiro em propor tecnologia brasileira de alta eficiência e venceu o II Prêmio Melhores Universidades, como inovação e sustentabilidade no ano de 2006.

Além disso, Zanesco foi indicada ao Prêmio Claudia da Editora Abril, na categoria ciências no ano de 2011, também coordenando o desenvolvimento da célula solar com maior eficiência produzida no Brasil seis anos depois. Tem 150 artigos publicados e 8 patentes

Atualmente é bolsista no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professora titular da Escola Politécnica da PUCRS e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia de Materiais (PGETEMA) e coordena o Núcleo de Tecnologia em Energia Solar (NT-Solar) da Escola Politécnica da PUCRS, é membro da Associação Brasileira de Energia Solar (ABENS) desde 2003 e da International Solar Energy Society (ISES) desde 1998. Também é uma das fundadoras da Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (MESol).