Comunidades virtuais dedicadas à disseminação de discursos de ódio contra mulheres vêm utilizando, há anos, uma série de códigos, expressões e conceitos próprios para difundir ideias e fortalecer a comunicação entre seus integrantes. Segundo especialistas, essa linguagem funciona como uma forma de identificação entre membros e, ao mesmo tempo, como ferramenta para ampliar discursos que defendem hierarquias de gênero.

Espalhados por fóruns de internet, redes sociais e aplicativos de mensagens, esses grupos promovem narrativas que responsabilizam mulheres por frustrações masculinas e questionam direitos conquistados por movimentos feministas. Para pesquisadores, tais discursos fazem parte de um fenômeno estrutural conhecido como misoginia — termo que descreve o ódio, desprezo ou aversão às mulheres e a defesa da manutenção de privilégios historicamente atribuídos aos homens.

A circulação dessas ideias preocupa especialistas porque, em alguns casos, ambientes digitais que incentivam hostilidade podem contribuir para a normalização da violência. Episódios recentes de crimes contra mulheres reacenderam o debate público sobre o impacto dessas comunidades e a necessidade de compreender sua dinâmica.

Misoginia e reação a avanços sociais

Em muitos desses espaços, a defesa de uma chamada “masculinidade tradicional” aparece como resposta aos avanços sociais ligados à igualdade de gênero. Para sustentar esse discurso, grupos utilizam frequentemente o termo “misandria”, apresentado como uma suposta prova de que homens também seriam vítimas de preconceito estrutural.

Essa narrativa costuma surgir como contraponto ao feminismo, movimento que defende igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Em resposta, algumas comunidades promovem ideologias classificadas como “masculinistas”, que defendem papéis sociais rígidos e diferenciados para os gêneros.

A ativista feminista Lola Aronovich, que desde 2008 mantém o blog Escreva Lola Escreva, relata sofrer ataques constantes de grupos misóginos na internet. A mobilização contra essas práticas contribuiu para a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes misóginos praticados online.

Segundo Aronovich, muitos agressores apresentam perfis semelhantes e costumam compartilhar diferentes tipos de preconceito. Para ela, o ambiente digital facilita a formação de comunidades que reforçam esse comportamento.

Comunidades e grupos mais conhecidos

Entre os termos mais comuns associados a esses movimentos está “machosfera”, expressão usada para descrever o conjunto de fóruns, canais e perfis dedicados à promoção de discursos antifeministas e de hostilidade contra mulheres.

Outra comunidade frequentemente citada são os chamados “incels” — abreviação de “celibatários involuntários”. O termo descreve homens que afirmam não conseguir estabelecer relações afetivas ou sexuais e atribuem essa situação às mulheres ou a padrões sociais.

Também fazem parte desse universo fóruns anônimos conhecidos como “chans”, ambientes que historicamente têm sido associados à disseminação de discursos extremistas, ataques coordenados e vazamento de imagens íntimas.

Entre as ideologias mais difundidas está a chamada “redpill”, expressão inspirada no filme The Matrix. No contexto dessas comunidades, o termo indica a crença de que alguns homens teriam “despertado” para uma suposta realidade em que mulheres manipulariam relações sociais em benefício próprio.

Outro movimento conhecido é o MGTOW (sigla em inglês para “Men Going Their Own Way”), formado por homens que defendem o afastamento total de relacionamentos com mulheres.

Há ainda os chamados Pick Up Artists (PUA), que promovem técnicas de sedução baseadas em manipulação psicológica, tratando mulheres como objetos ou recompensas.

Hierarquias e arquétipos

Além das comunidades, essas redes também criaram uma série de categorias para classificar homens e mulheres em hierarquias sociais.

Entre elas está o conceito de “Chad”, usado para definir o homem considerado fisicamente perfeito e altamente desejado. Sua contraparte feminina seria a “Stacy”, vista como a mulher mais atraente dentro dessa lógica.

Já o termo “alfa” descreve o homem dominante, líder e bem-sucedido. Em contraste, o “beta” é apresentado como alguém submisso ou socialmente inferior.

Outro conceito popularizado nas redes sociais é o “sigma”, figura descrita como um “alfa solitário”, que supostamente não depende de aprovação social.

Teorias e gírias

Essas comunidades também difundem teorias consideradas pseudocientíficas. Uma delas é a chamada regra “80/20”, segundo a qual 80% das mulheres competiriam por apenas 20% dos homens considerados mais atraentes ou bem-sucedidos.

Outros termos incluem “hipergamia”, que descreve a crença de que mulheres buscam sempre parceiros com status social superior, e a sigla “AWALT” (“All Women Are Like That”), utilizada para generalizar comportamentos femininos.

Há ainda expressões abertamente ofensivas, como “femoids”, que descrevem mulheres como organismos inferiores ou subumanos.

Debate sobre impactos

Para pesquisadores e organizações de defesa dos direitos humanos, compreender a linguagem e os códigos dessas comunidades é fundamental para enfrentar a disseminação de discursos de ódio na internet.

Especialistas destacam que a análise desses termos ajuda a identificar como ideias extremistas se organizam, se expandem nas redes sociais e podem influenciar comportamentos no mundo real.