Rochas calcárias do norte mineiro foram formadas a partir de sedimentos depositados em antigos ambientes marinhos; hoje, o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu transforma essa história geológica em um dos cenários naturais mais impressionantes do Brasil

Pode parecer difícil imaginar, mas onde hoje existem Cerrado, paredões de pedra e cavernas monumentais no norte de Minas Gerais, há centenas de milhões de anos existiram ambientes marinhos.

A resposta para a pergunta “Minas Gerais já foi fundo de oceano?” exige alguma precisão: não significa que todo o atual território mineiro tenha ficado simultaneamente sob um oceano semelhante ao Atlântico atual. Mas partes da região foram, sim, cobertas por mares antigos e relativamente rasos, nos quais se acumularam sedimentos que deram origem a grandes pacotes de rochas carbonáticas.

Um dos lugares onde essa história pode ser literalmente observada nas pedras é o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, no norte de Minas Gerais.

Nova Gestão do GDF

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O Serviço Geológico do Brasil (SGB) identifica as rochas carbonáticas da região como pertencentes ao Grupo Bambuí, uma extensa sequência sedimentar formada no Neoproterozoico. Estudos do próprio SGB descrevem a deposição do Grupo Bambuí em ambiente de mar raso epicontinental.

Milhões de anos depois, a ação da água sobre essas rochas ajudaria a produzir um mundo completamente diferente: cânions, dolinas, paredões e cavernas gigantescas.

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As pedras contam a história de um mar desaparecido

Para compreender essa transformação é necessário voltar centenas de milhões de anos no tempo.

As Cavernas do Peruaçu estão inseridas no Planalto Cárstico do São Francisco, onde predominam calcários e dolomitos associados ao Grupo Bambuí. Segundo o SGB, os calcários encontrados no vale possuem mais de 90% de carbonato de cálcio em determinados setores e preservam estruturas sedimentares importantes.

O calcário é justamente uma das grandes pistas desse passado.

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Esse tipo de rocha pode se formar pela acumulação e precipitação de carbonato de cálcio em ambientes aquáticos, inclusive marinhos. Ao longo de períodos geológicos imensos, os sedimentos são compactados e transformados em rocha.

No caso das unidades do Grupo Bambuí, estudos geológicos apontam para antigos ambientes aquáticos e marinhos. O SGB registra inclusive evidências de minerais formados em ambiente subaquático nas rochas da Formação Sete Lagoas, unidade geológica presente no contexto regional.

Ou seja, quando um visitante observa determinados paredões calcários do Peruaçu, está diante de materiais cuja história começou muito antes da existência dos seres humanos — e até muito antes dos dinossauros.

E como um antigo ambiente marinho virou uma região de cavernas?

O mar explica a origem de grande parte das rochas. Mas não explica sozinho as cavernas que vemos hoje.

Depois que esses sedimentos se transformaram em calcário e passaram por uma longa história de mudanças geológicas, a água começou outro trabalho.

A água das chuvas e dos cursos subterrâneos consegue dissolver lentamente o calcário. Ao penetrar em fraturas e falhas existentes na rocha, ela amplia pequenos espaços ao longo de milhares e milhões de anos.

É assim que se desenvolvem paisagens conhecidas como relevo cárstico.

No Peruaçu, esse processo produziu cavernas, cânions, vales fechados, dolinas, torres calcárias e diversas outras formações. O Serviço Geológico do Brasil destaca justamente a extraordinária geodiversidade criada pela dissolução das rochas carbonáticas e por processos de subsidência.

O resultado parece arquitetura monumental — mas o arquiteto foi o tempo.

Gruta do Janelão ajuda a dimensionar a grandiosidade do lugar

Entre as atrações mais conhecidas está a Gruta do Janelão, uma das imagens emblemáticas do parque.

Os enormes espaços subterrâneos, claraboias naturais e paredões dão ao visitante uma noção da escala alcançada pelos processos geológicos.

E não se trata de uma pequena área preservada.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu possui 56.448 hectares e abrange áreas dos municípios de Januária, Itacarambi e São João das Missões. A unidade de conservação foi criada em 1999.

Há ainda uma extensa rede de cavernas e abrigos rochosos espalhados pela região.

Das profundezas geológicas à presença humana

A história do Peruaçu ganha outra dimensão quando a escala temporal diminui.

Se as rochas contam acontecimentos de centenas de milhões de anos, as paredes dos abrigos também preservam capítulos muito mais recentes — e profundamente humanos.

Existem evidências arqueológicas de ocupação humana no vale do Peruaçu de aproximadamente 12 mil anos. Os sítios preservam vestígios associados a grupos caçadores-coletores e populações posteriores, incluindo ferramentas, espaços de habitação, estruturas de armazenamento e manifestações rupestres.

É essa sobreposição de tempos que torna o lugar tão particular.

Primeiro, antigos ambientes aquáticos ajudaram a formar as rochas.

Muito depois, a água esculpiu cavernas e cânions.

Milhares de anos atrás, seres humanos utilizaram esses abrigos e deixaram registros de sua presença.

E agora somos nós que caminhamos por eles.

Pinturas rupestres transformam as cavernas em páginas da história

Além da geologia monumental, o Peruaçu possui um patrimônio arqueológico excepcional.

Abrigos e paredões conservam pinturas rupestres produzidas por populações que ocuparam a região muito antes da formação do Brasil.

São figuras humanas, formas geométricas e representações de animais, entre outros registros.

O plano de manejo do parque destaca a importância científica desse patrimônio para a compreensão dos grupos pré-históricos que habitaram o interior do país.

Isso significa que uma visita ao Peruaçu pode atravessar duas escalas de tempo completamente diferentes: a história geológica da Terra e a história da presença humana nas Américas.

Peruaçu entrou para a lista de Patrimônio Mundial

A importância do lugar ultrapassou definitivamente as fronteiras de Minas Gerais.

Em 2025, o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu recebeu o título de Patrimônio Mundial Natural da UNESCO, reconhecimento que reforçou internacionalmente o valor de suas formações geológicas e de sua biodiversidade. O ICMBio destacou a conquista durante as comemorações dos 26 anos da unidade.

O reconhecimento também coloca o destino em uma posição privilegiada para o turismo de natureza brasileiro.

Dá para visitar as cavernas?

Sim — e o parque foi estruturado para receber visitantes.

Existem trilhas, mirantes, passarelas e diferentes circuitos, com níveis variados de esforço físico. Como são muitos atrativos, o próprio ICMBio informa que é necessário mais de um dia para conhecer todas as opções disponíveis.

Há, entretanto, uma regra importante: a visita aos atrativos exige acompanhamento de condutor ambiental credenciado pelo ICMBio.

Em geral, cada condutor pode acompanhar grupos de até oito pessoas, com limites menores em determinados atrativos. Também é necessário realizar agendamento prévio.

Informações oficiais para visitar o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu

Curiosidade: até o nome Peruaçu guarda mistério

Nem mesmo a origem do nome é totalmente definida.

O ICMBio registra uma tradição local segundo a qual “Peruaçu” estaria relacionado às palavras indígenas “peru”, associada a buraco, vala ou fenda, e “açu”, grande.

A interpretação seria algo próximo a “grande buraco” ou “grande fenda”, possivelmente em referência ao cânion ou às enormes cavernas existentes no vale.

Difícil imaginar nome mais apropriado depois de observar a escala das formações.

Uma viagem que começa muito antes da humanidade

As Cavernas do Peruaçu são bonitas o suficiente para justificar uma viagem apenas pela paisagem. Mas compreender sua origem muda completamente a experiência.

Aquelas paredes não surgiram simplesmente como cavernas.

Parte de sua matéria-prima foi depositada quando a geografia do planeta era radicalmente diferente da atual e mares rasos ocupavam áreas que hoje estão no interior do Brasil. Depois vieram transformações tectônicas, erosão e a ação persistente da água sobre o calcário.

Muito mais tarde chegaram os primeiros grupos humanos, que encontraram abrigo nesses paredões e deixaram suas próprias marcas.

Hoje, quando um visitante entra em uma das cavernas do Peruaçu, não está apenas conhecendo uma atração turística de Minas Gerais.

Está caminhando por páginas de uma história escrita em pedra — uma história que começou centenas de milhões de anos antes de existir qualquer mapa chamado Brasil.