Revisão conduzida por pesquisadores da Unicamp e da UFJF destaca a ação dos polifenóis sobre bactérias do intestino e investiga como essa relação pode repercutir até no eixo intestino-cérebro
Uma xícara de café pela manhã, uvas no lanche e chá-verde ao longo do dia têm algo em comum além de fazerem parte da alimentação de milhões de pessoas: esses alimentos são fontes de polifenóis, compostos bioativos que vêm despertando o interesse da ciência pela capacidade de interagir com os microrganismos que vivem no intestino.
Uma revisão científica conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) reuniu evidências sobre essa relação e aponta que os polifenóis podem favorecer a composição e a atividade da microbiota intestinal. O trabalho foi publicado no periódico científico Food & Function.
Os efeitos não parecem ficar restritos ao sistema digestivo. Os pesquisadores também discutem a possível influência dessa interação sobre o eixo intestino-cérebro, área que investiga a comunicação entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso e que ganhou espaço nos estudos sobre saúde mental.
Afinal, o que são os polifenóis?
Polifenóis são substâncias naturalmente encontradas em alimentos de origem vegetal. Fazem parte desse grande grupo compostos presentes em uvas, frutas vermelhas, café, chá-verde, cacau, verduras e diversos outros vegetais.
Alguns deles também participam das características visuais dos alimentos. Pigmentos associados às tonalidades vermelhas e arroxeadas de frutas como uva e jabuticaba, por exemplo, pertencem a grupos de compostos fenólicos.
Essas substâncias são conhecidas especialmente por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. O que pesquisas mais recentes vêm mostrando é que existe uma relação de mão dupla entre elas e os trilhões de microrganismos que habitam o intestino.
O intestino também transforma aquilo que comemos
Nem todos os polifenóis ingeridos são absorvidos imediatamente pelo intestino delgado.
Parte chega ao intestino grosso, onde encontra uma enorme comunidade de bactérias. Esses microrganismos conseguem metabolizar os compostos e transformá-los em moléculas menores, algumas potencialmente mais disponíveis para serem aproveitadas pelo organismo.
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Ao mesmo tempo, os próprios polifenóis e seus metabólitos podem interferir na composição da microbiota.
Essa interação bidirecional já havia sido observada em pesquisas envolvendo uvas e derivados. Uma revisão sistemática de estudos em humanos concluiu que os polifenóis da uva e do vinho podem modular a microbiota, embora os autores tenham ressaltado que ainda são necessárias mais pesquisas antes de estabelecer alegações específicas de benefício à saúde.
Três caminhos ajudam a explicar os benefícios
A revisão brasileira destaca mecanismos que ajudam a compreender por que esses compostos despertam tanto interesse.
Um deles é a possibilidade de favorecer determinados microrganismos considerados benéficos enquanto limita outros potencialmente prejudiciais.
Outro ocorre quando as bactérias intestinais metabolizam os polifenóis e produzem novos compostos bioativos.
Há ainda a relação com a produção de ácidos graxos de cadeia curta, substâncias geradas principalmente pela fermentação microbiana e importantes para o ambiente intestinal e para a integridade da barreira do intestino.
Uma revisão recente de estudos de intervenção em humanos encontrou efeitos dos polifenóis sobre grupos como Bifidobacterium, Faecalibacterium e Lactobacillus, embora os resultados variem conforme o alimento, o composto estudado e as características individuais.
Uva: os compostos não estão apenas na polpa
A uva é particularmente interessante porque diferentes partes da fruta concentram diferentes compostos.
Sementes são fontes importantes de proantocianidinas; a casca de determinadas variedades concentra antocianinas; e a fruta apresenta ainda flavonóis, ácidos fenólicos e estilbenos.
Isso ajuda a explicar por que pesquisas sobre microbiota não se concentram apenas no suco ou na polpa, mas também em extratos, sementes e outros componentes da fruta.
E não é necessário recorrer ao vinho para buscar esses compostos. A uva e seus derivados não alcoólicos também são fontes de polifenóis, algo especialmente importante quando o assunto é saúde pública, já que bebidas alcoólicas não devem ser recomendadas como estratégia para obtenção de antioxidantes.
Café também entra nessa história
O café é outra fonte alimentar relevante de compostos fenólicos, especialmente os ácidos clorogênicos.
A relação é particularmente interessante para os brasileiros: o cafezinho está profundamente incorporado à cultura alimentar do país e pode representar uma fonte habitual desses compostos na dieta.
Isso, entretanto, não transforma café em medicamento. Açúcar em excesso, quantidade consumida, sensibilidade à cafeína, horário e condições individuais também precisam ser considerados.
O benefício potencial associado aos polifenóis deve ser compreendido dentro do conjunto da alimentação — e não como justificativa para consumir grandes quantidades de uma bebida específica.
E o chá-verde?
No chá-verde, ganham destaque as catequinas, entre elas a epigalocatequina galato, conhecida pela sigla EGCG.
Estudos mostram uma relação bastante complexa entre essas substâncias e as bactérias intestinais: os microrganismos transformam os polifenóis do chá e, simultaneamente, esses compostos podem alterar o crescimento de determinados grupos bacterianos.
Uma pesquisa recente realizada em laboratório encontrou ainda mudanças na diversidade e na estrutura da microbiota após fermentação de extrato de chá-verde, incluindo enriquecimento de alguns gêneros bacterianos. Os próprios autores, porém, destacam que se trata de um modelo in vitro, e os resultados não devem ser automaticamente transportados para o organismo humano.
Mas o que o intestino tem a ver com o cérebro?
Muito mais do que se imaginava algumas décadas atrás.
O chamado eixo intestino-cérebro descreve uma rede de comunicação que envolve sistema nervoso, sistema imunológico, metabolismo e substâncias produzidas ou modificadas pela microbiota.
É justamente nesse contexto que os pesquisadores brasileiros discutem a possibilidade de os efeitos dos polifenóis alcançarem aspectos relacionados à saúde mental. A interação intestinal pode participar de processos ligados à inflamação e à modulação de substâncias envolvidas na comunicação do organismo.
Isso não significa que tomar café, chá-verde ou comer uvas trate depressão ou ansiedade.
Os achados ajudam a compreender mecanismos biológicos e abrem caminhos para novas pesquisas, mas transtornos mentais são condições complexas e não devem ter seu tratamento substituído por alimentos ou suplementos.
Não existe um único alimento capaz de “consertar” a microbiota
A microbiota de cada pessoa é diferente e sofre influência de inúmeros fatores: alimentação, medicamentos, idade, ambiente, atividade física e hábitos de vida estão entre eles.
Há inclusive estudos demonstrando grande variação individual na maneira como a microbiota metaboliza os mesmos polifenóis. Pessoas diferentes podem produzir perfis distintos de metabólitos depois de consumir compostos semelhantes.
Por isso, a descoberta não deve resultar em uma corrida por suplementos concentrados de polifenóis.
A estratégia mais coerente continua sendo uma alimentação diversificada e rica em alimentos de origem vegetal, capaz de oferecer fibras e diferentes compostos bioativos.
Quanto mais variedade no prato, melhor
A grande mensagem que emerge das pesquisas talvez seja menos sofisticada do que os nomes químicos envolvidos.
Não é necessário procurar um alimento milagroso.
Uvas, frutas vermelhas, verduras, café, chá e outros vegetais fornecem diferentes famílias de compostos. Quando fazem parte de uma dieta variada, eles chegam ao intestino acompanhados de fibras e inúmeros outros nutrientes.
E é justamente a diversidade que interessa.
A ciência começa a compreender com maior profundidade que alimentar-se não significa fornecer nutrientes apenas às nossas próprias células. Parte do que colocamos no prato também alimenta e influencia um enorme ecossistema microscópico que vive conosco.
Uva, café e chá-verde são apenas alguns exemplos dessa relação. A cada refeição, o que escolhemos comer pode ajudar a determinar não apenas quais nutrientes chegam ao organismo, mas também quais microrganismos encontram condições para prosperar dentro dele.


