Reforço contra tétano a cada dez anos, proteção contra sarampo, hepatite B, influenza, covid-19 e vacinas específicas para gestantes e idosos mostram que manter a caderneta atualizada é uma preocupação que acompanha todas as idades
A imagem da vacinação ainda costuma ser associada aos primeiros anos de vida: bebê no colo, caderneta nas mãos dos pais e uma sequência de doses concentrada na infância. Mas completar o calendário infantil não significa encerrar a relação com a sala de vacinação.
Adolescentes, jovens, adultos, gestantes e idosos têm indicações próprias. Algumas vacinas exigem reforços periódicos; outras são recomendadas quando uma pessoa chega a determinada idade, engravida, passa a integrar um grupo de risco ou percebe que nunca completou um esquema iniciado anos atrás.
O Calendário Nacional de Vacinação de 2026, atualizado pelo Ministério da Saúde, organiza recomendações para todas essas fases. E existe uma orientação especialmente importante para quem perdeu a caderneta ou não sabe exatamente o que tomou: a ausência do cartão de vacinação não impede procurar o serviço de saúde nem receber as doses indicadas. A situação pode ser avaliada na unidade e, quando necessário, os esquemas podem ser atualizados.
Em um país que envelhece rapidamente, esse cuidado ganha ainda mais importância. Pessoas com 60 anos ou mais já representavam 15,6% da população no Censo de 2022, crescimento de 56% em relação a 2010. A vacinação do adulto e do idoso passou, portanto, a ocupar um espaço cada vez maior nas estratégias de prevenção.
Adolescência tem HPV, meningite, dengue e reforços que não devem ser esquecidos
A adolescência funciona como uma segunda grande oportunidade para revisar toda a situação vacinal.
No calendário de 2026, a vacina contra o HPV aparece em dose única para a faixa etária prevista pelo Programa Nacional de Imunizações. Quando há atraso, o Ministério da Saúde orienta atualização até 14 anos, 11 meses e 29 dias; estratégias de recuperação podem ser adotadas para adolescentes mais velhos conforme as definições locais.
A importância dessa vacinação vai muito além de prevenir verrugas genitais. A infecção persistente por determinados tipos de papilomavírus humano está associada ao desenvolvimento de diferentes cânceres, entre eles o câncer do colo do útero.
O calendário também prevê meningocócica ACWY aos 11 anos, com possibilidade de atualização até antes dos 15 anos quando houver atraso. A vacina protege contra doença meningocócica causada pelos sorogrupos A, C, W e Y.
Publicidade
A vacina contra a dengue também aparece no calendário de adolescentes, com duas doses, iniciadas aos 10 anos dentro da estratégia prevista pelo programa; quem estiver em atraso pode ser vacinado até 14 anos, 11 meses e 29 dias. O Ministério da Saúde orienta completar o esquema com vacina do mesmo fabricante.
E há ainda um imunizante que atravessa diferentes fases da vida: a dT, contra difteria e tétano. O calendário prevê reforços durante a adolescência e juventude, preparando para uma rotina que continuará na idade adulta.
Chegou à vida adulta? A caderneta continua valendo
Entre 25 e 59 anos, o Ministério da Saúde mantém uma série de vacinas que devem ser conferidas de acordo com o histórico de cada pessoa.
Uma delas é a hepatite B. Para quem não completou o esquema, são recomendadas três doses. A infecção pelo vírus da hepatite B pode tornar-se crônica e, ao longo dos anos, provocar cirrose e câncer de fígado.
Outro ponto frequentemente esquecido é a vacina dT, contra difteria e tétano.
Quem nunca foi adequadamente imunizado deve completar o esquema indicado. Depois dele, a recomendação é de um reforço a cada dez anos. Em situações de maior risco de exposição a tétano ou difteria, esse intervalo pode ser antecipado para cinco anos.
É justamente aí que muitos adultos descobrem uma lacuna.
A pessoa toma as vacinas quando criança, deixa de acompanhar a caderneta e só volta a pensar no tétano depois de um corte, uma perfuração ou um acidente.
O ideal é não esperar a emergência.
Sarampo também é assunto de adulto
A tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola e também precisa ser conferida na vida adulta.
Segundo o calendário de 2026, quem tem até 29 anos deve ter duas doses registradas. Dos 30 aos 59 anos, a recomendação de rotina é de uma dose conforme o histórico vacinal. Trabalhadores da saúde devem ter duas doses, independentemente da idade dentro da faixa contemplada.
A existência de vacinação na infância não torna o sarampo um problema exclusivamente pediátrico. Adultos suscetíveis também podem adoecer, desenvolver complicações e contribuir para a transmissão do vírus.
É por isso que o cartão de vacinação continua sendo uma ferramenta epidemiológica muito depois da escola.
E a febre amarela?
A vacina contra a febre amarela também integra o calendário do adulto conforme o histórico vacinal e a situação epidemiológica.
O Brasil adota desde 2017, como regra geral, uma dose ao longo da vida. O Ministério da Saúde recomenda atenção especial a moradores ou viajantes de áreas com risco epidemiológico. Para viagens em que a dose esteja indicada, ela deve ser administrada com antecedência mínima de dez dias.
Isso significa que não se deve tomar uma nova dose simplesmente porque muitos anos se passaram desde a anterior, se o esquema válido já foi cumprido.
Influenza e covid-19 não têm a mesma indicação para todo adulto
Outro ponto que costuma gerar confusão é imaginar que todas as vacinas presentes nas campanhas anuais possuem exatamente a mesma recomendação para toda a população.
No SUS, influenza e covid-19 possuem estratégias específicas de rotina e grupos prioritários, que podem ser ampliadas durante campanhas ou conforme decisões das autoridades sanitárias.
Entre os públicos prioritários da vacinação contra influenza estão idosos, gestantes, crianças pequenas, trabalhadores da saúde e pessoas com determinadas doenças ou condições especiais, além de outros grupos definidos pelo programa.
Para a covid-19, o calendário de rotina de 2026 prevê, entre outros grupos, vacinação de gestantes e idosos. Pessoas entre 5 e 59 anos podem ser contempladas conforme grupos estabelecidos pelo Ministério da Saúde ou pelas secretarias locais.
A recomendação, portanto, é conferir a indicação vigente — e não simplesmente assumir que uma dose tomada anos atrás encerrou definitivamente o esquema.
Gravidez cria uma nova etapa de vacinação
A gestação talvez seja um dos exemplos mais claros de que o calendário vacinal acompanha momentos da vida, e não apenas a idade.
Em 2026, o Ministério da Saúde orienta que, já no início do pré-natal, seja avaliada a situação para hepatite B e dT, além da aplicação da vacina contra influenza em cada temporada e de uma dose contra covid-19 em cada gestação.
A partir da 20ª semana, é indicada uma dose de dTpa em cada gravidez.
Ela protege a mulher contra difteria, tétano e coqueluche, mas tem uma missão adicional: permitir a transferência de anticorpos para o bebê, proporcionando proteção nos primeiros meses de vida, quando a criança ainda não completou seu próprio esquema contra coqueluche.
Desde 2026, o calendário da gestante também inclui um avanço importante: a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) a partir da 28ª semana de gestação, novamente em cada gravidez. O objetivo é proteger o bebê contra bronquiolite, pneumonia e outras complicações provocadas pelo vírus nos primeiros meses.
A vacinação materna transforma o corpo da mãe em uma espécie de primeira linha de proteção imunológica para uma criança que ainda nem nasceu.
Depois dos 60, vacinação ganha ainda mais importância
Com o envelhecimento, o sistema imunológico também muda. Esse processo, conhecido como imunossenescência, ajuda a explicar por que algumas infecções podem provocar consequências mais graves em pessoas idosas.
O calendário nacional de 2026 prevê para quem tem 60 anos ou mais a vacina contra influenza todos os anos e contra a covid-19 a cada seis meses.
Hepatite B e dT continuam dependendo do histórico vacinal, com reforço da dupla adulto a cada dez anos depois do esquema completo.
A vacina contra febre amarela passa a exigir maior cuidado nessa faixa etária: para não vacinados, é considerada em situações de alto risco epidemiológico e após avaliação do serviço de saúde sobre riscos e benefícios.
O calendário do SUS também prevê vacina pneumocócica para grupos específicos de idosos, como pessoas não vacinadas que vivem acamadas ou institucionalizadas, além de populações contempladas pelas regras do programa.
Há vacinas recomendadas por sociedades médicas que não fazem parte da rotina universal do SUS
É importante distinguir o Calendário Nacional de Vacinação, que orienta a política pública, das recomendações de sociedades médicas, que podem ser mais amplas e incluir imunizantes disponíveis principalmente na rede privada ou no SUS apenas para determinados grupos especiais.
Um exemplo é a vacina contra herpes-zóster.
A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) recomenda a vacina recombinante para pessoas a partir dos 50 anos e também para adultos mais jovens com determinadas condições de risco. O esquema é composto por duas doses. O herpes-zóster, popularmente chamado de cobreiro, é provocado pela reativação do vírus da catapora e pode causar dor persistente por meses após o desaparecimento das lesões.
Outro exemplo é a vacinação contra VSR em idosos. A SBIm recomenda atualmente a vacinação de rotina a partir dos 70 anos e também para pessoas de 60 a 69 anos com condições que aumentam o risco de doença grave. Essa indicação não equivale à oferta universal no calendário básico do SUS.
Essas diferenças deixam claro por que a decisão sobre vacinação pode depender não apenas da idade, mas também de doenças preexistentes, profissão, viagens, tratamentos imunossupressores e outras características individuais.
Perdeu a caderneta? Isso não é motivo para desistir
Uma das barreiras mais comuns entre adultos é não saber onde está o cartão de vacinação.
O Ministério da Saúde é claro: não ter o documento em mãos não impede a vacinação. A pessoa deve procurar a unidade de saúde para que a situação seja avaliada e uma nova via possa ser providenciada quando necessário.
Também não existe idade máxima para “voltar a cuidar” da vacinação.
Esquemas incompletos podem ser avaliados e atualizados conforme as regras de cada imunizante. Em muitos casos, não é necessário começar toda a sequência novamente — o profissional verifica o que já foi realizado e orienta a continuidade.
A proteção individual também protege quem está por perto
A importância da vacinação adulta pode ser difícil de perceber porque algumas de suas maiores conquistas são justamente aquilo que não aconteceu.
É a gestante que transmite anticorpos ao bebê antes do nascimento.
É o avô vacinado contra influenza que reduz o risco de adoecer gravemente.
É o profissional de saúde protegido contra doenças que poderiam ser transmitidas a pacientes vulneráveis.
É o adulto com vacinação contra sarampo atualizada que não se transforma em mais um elo de uma cadeia de transmissão.
A vacinação, portanto, não acompanha apenas uma pessoa. Ela acompanha famílias, locais de trabalho e comunidades inteiras.
A caderneta deveria envelhecer junto com a pessoa
Há uma mudança cultural importante por trás desse tema.
Durante décadas, cuidar da vacinação foi encarado quase como uma responsabilidade dos pais. A criança crescia, guardava a caderneta em alguma gaveta e só voltava a pensar em vacina diante de uma campanha, de uma viagem ou de uma emergência.
O calendário atual mostra que essa lógica ficou ultrapassada.
Existem vacinas que precisam ser acompanhadas aos 10, 11, 14, 24, 34, 60 anos e além. Existem doses vinculadas à gravidez, à profissão, ao envelhecimento e às condições de saúde. Algumas são anuais; outras semestrais; outras exigem reforço a cada década.
A caderneta, portanto, não deveria ser uma lembrança da infância.
Ela é um documento de saúde para toda a vida.
E talvez a pergunta mais importante não seja “quando foi a última vez que levei meu filho para vacinar?”, mas outra, muito mais ampla:
“Quando foi a última vez que conferi as minhas próprias vacinas?”


