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Tubarão-lixa de aproximadamente dois metros apresentou uma alteração de pigmentação extremamente rara; caso registrado na Costa Rica é o primeiro xantismo total documentado na espécie

Parece filtro.

Ou montagem.

Mas o tubarão de coloração laranja intensa e olhos esbranquiçados fotografado no Caribe é real — e tão incomum que acabou se transformando em objeto de estudo científico.

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O animal é um tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum), espécie normalmente conhecida pela coloração marrom ou acinzentada que ajuda o predador a se camuflar próximo ao fundo do mar.

Este exemplar, porém, parecia pertencer a outra versão da natureza.

Com quase dois metros de comprimento, corpo completamente amarelo-alaranjado e olhos brancos, ele foi capturado durante uma pescaria esportiva nas águas caribenhas da Costa Rica, próximo ao Parque Nacional Tortuguero.

Depois de ser fotografado e documentado, o tubarão foi devolvido ao mar.

A aparência extraordinária levou pesquisadores a investigar o caso e, posteriormente, descrevê-lo na revista científica Marine Biodiversity. O trabalho concluiu que se tratava do primeiro caso cientificamente documentado de xantismo total em um tubarão-lixa e do primeiro registro desse tipo de alteração de pigmentação em peixes cartilaginosos no Caribe.

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O encontro aconteceu durante uma pescaria

O animal foi encontrado em agosto de 2024, durante uma saída de pesca esportiva na costa leste da Costa Rica.

A captura ocorreu nas proximidades de Tortuguero, a cerca de 37 metros de profundidade, onde a temperatura da água era de aproximadamente 31,2°C.

O exemplar media em torno de 200 centímetros de comprimento total, dimensão compatível com um animal adulto.

Foi justamente seu tamanho que chamou atenção dos pesquisadores.

Alterações muito marcantes na coloração podem, em teoria, trazer desvantagens para animais que dependem da camuflagem.

Ainda assim, aquele tubarão havia chegado à fase adulta.

Isso sugere que sua aparência incomum não o impediu de sobreviver por anos no ambiente natural.

Por que ele ficou laranja?

A principal explicação está em uma condição conhecida como xantismo, também chamada de xantocromismo.

Ela provoca uma predominância anormal de pigmentos amarelos ou alaranjados no organismo.

O fenômeno já havia sido descrito em diferentes grupos de animais, incluindo peixes, aves, répteis e anfíbios.

Em tubarões, entretanto, registros desse tipo são extremamente incomuns.

No exemplar da Costa Rica, a alteração não aparecia apenas em pequenas manchas.

Todo o corpo apresentava coloração amarelo-alaranjada intensa.

Por isso, os autores classificaram o caso como xantismo total.

E por que os olhos eram brancos?

Esse é outro detalhe que tornou o caso ainda mais intrigante.

Além do corpo laranja, o tubarão apresentava olhos muito claros, aparentemente sem uma íris pigmentada normalmente visível.

Os pesquisadores consideraram que essa característica poderia indicar também um componente de albinismo, situação relacionada à ausência ou redução da melanina.

Por isso, o artigo descreve a aparência como compatível com uma condição chamada albino-xantocromismo — combinação entre características de albinismo e xantismo.

É importante, porém, não transformar essa classificação em uma conclusão genética definitiva.

O animal foi fotografado, medido e libertado.

Não houve, no relato científico publicado, uma análise genética que identificasse uma mutação específica responsável pela coloração.

Portanto, o que os pesquisadores documentaram com segurança foi o fenótipo, ou seja, a aparência excepcionalmente amarela ou alaranjada acompanhada de olhos brancos.

As causas biológicas exatas ainda precisam ser estudadas.

Não é uma nova espécie

Apesar da aparência quase irreconhecível, o animal não representa uma nova espécie de tubarão.

Ele pertence à espécie Ginglymostoma cirratum, conhecida em português como tubarão-lixa.

Um indivíduo com coloração normal costuma apresentar tons de marrom, cinza ou bege que se confundem facilmente com areia, rochas e ambientes de recife.

A comparação entre um tubarão-lixa convencional e o exemplar registrado na Costa Rica deixa evidente o tamanho da diferença visual.

O laranja intenso não é uma característica típica da espécie.

É uma anomalia de pigmentação.

Primeiro caso conhecido na espécie

O estudo foi publicado na Marine Biodiversity, volume 55, artigo 73, com o título:

“First record case of free-living xanthism in the nurse shark Ginglymostoma cirratum (Bonnaterre, 1788) from Caribbean Sea”.

O trabalho é assinado pelos pesquisadores Marioxis Macías-Cuyare, Gilberto Rafael Borges Guzmán e Daniel Arauz-Naranjo.

Segundo os autores, o tubarão representa:

o primeiro xantismo total cientificamente documentado em Ginglymostoma cirratum;

e

o primeiro registro de xantismo em um peixe cartilaginoso no Caribe.

Peixes cartilaginosos incluem tubarões, raias e quimeras.

Seu esqueleto é constituído principalmente por cartilagem, diferentemente dos peixes ósseos.

A espécie já havia apresentado outras alterações de cor

O tubarão-lixa não é completamente desconhecido da ciência quando o assunto são alterações de pigmentação.

Outros indivíduos da espécie já apresentaram fenômenos como:

albinismo;

piebaldismo, caracterizado por regiões despigmentadas;

e

hipomelanose, relacionada à redução de pigmentação escura.

O caso da Costa Rica, entretanto, foi diferente justamente pela intensidade e uniformidade do amarelo-alaranjado observadas em todo o corpo.

Ser laranja poderia ser uma desvantagem

A coloração natural dos animais frequentemente não existe por acaso.

Para o tubarão-lixa, os tons discretos ajudam na integração com o fundo marinho.

A espécie passa bastante tempo próxima ao substrato, incluindo áreas arenosas e recifes.

Uma coloração extremamente chamativa poderia teoricamente prejudicar essa camuflagem.

Isso poderia tornar mais fácil ser percebido por outros animais ou dificultar determinadas estratégias relacionadas à alimentação.

E é justamente por isso que o tamanho do exemplar surpreendeu.

Com aproximadamente dois metros, ele claramente conseguiu sobreviver até a idade adulta.

O caso sugere que, pelo menos para aquele indivíduo, a falta de uma camuflagem convencional não foi um obstáculo suficiente para impedir seu desenvolvimento.

Isso significa que a cor não prejudica tubarões?

Não.

Um único animal não permite chegar a essa conclusão.

O estudo mostra apenas que este exemplar específico conseguiu chegar à fase adulta apesar da pigmentação atípica.

Os pesquisadores consideram a observação relevante justamente porque ela desafia a ideia de que uma alteração tão visível seria necessariamente incompatível com a sobrevivência de um tubarão-lixa na natureza.

Para descobrir se indivíduos xânticos apresentam diferença na sobrevivência, reprodução ou alimentação, seria necessário acompanhar mais animais — algo particularmente difícil quando se trata de uma característica tão rara.

O que pode causar o xantismo?

A resposta ainda não está fechada.

Alterações de pigmentação podem estar ligadas a fatores genéticos, mas estudos sobre coloração atípica em animais também consideram possíveis influências ambientais, hormonais ou relacionadas a outros processos biológicos.

No caso do tubarão da Costa Rica, os próprios pesquisadores afirmam que mais estudos são necessários para investigar possíveis fatores genéticos ou ambientais envolvidos.

Portanto, dizer que os cientistas já encontraram uma “mutação genética responsável pelo tubarão laranja” iria além do que o estudo demonstrou.

Por enquanto, a origem exata permanece uma questão em aberto.

Um animal aparentemente saudável

Outro detalhe registrado foi a condição geral do tubarão.

Apesar da aparência incomum, o exemplar era adulto e não apresentava, nas observações relatadas, sinais evidentes de que a alteração de pigmentação tivesse impedido seu desenvolvimento.

Depois do registro, o animal foi devolvido vivo ao mar.

Desde então, o caso se tornou uma referência científica sobre variações de pigmentação em tubarões.

Como é um tubarão-lixa normal?

Os tubarões-lixa possuem cabeça larga e achatada e pequenas estruturas semelhantes a “bigodes” próximas à boca, chamadas barbilhões.

Essas estruturas ajudam o animal a perceber alimento no ambiente.

A espécie costuma permanecer próxima ao fundo e pode ser observada repousando em regiões de areia ou recifes.

A coloração discreta típica funciona muito melhor nesse ambiente do que o amarelo quase fluorescente apresentado pelo exemplar da Costa Rica.

Segundo o FishBase, o Ginglymostoma cirratum é atualmente classificado globalmente como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Por que o registro interessa à ciência?

Um tubarão laranja é, naturalmente, uma imagem capaz de viralizar.

Mas o valor científico vai além da curiosidade.

Casos de coloração anormal ajudam pesquisadores a compreender:

como a pigmentação é determinada;

quais alterações podem ocorrer naturalmente;

se determinadas características afetam a sobrevivência;

como fenótipos raros aparecem nas populações;

e até que ponto animais conseguem se adaptar mesmo quando apresentam características aparentemente desfavoráveis.

No caso do tubarão-lixa, existe ainda outra razão.

Anomalias de pigmentação desse tipo são raramente documentadas em animais cartilaginosos vivendo em liberdade.

Por isso, cada registro acrescenta informação a uma área em que ainda existem poucos casos disponíveis para comparação.

Fotografias foram fundamentais para o estudo

Os registros feitos durante a pescaria tiveram papel decisivo.

Quando as primeiras imagens começaram a circular, a coloração parecia tão incomum que havia espaço até para dúvidas sobre sua autenticidade.

Pesquisadores avaliaram as fotografias e o contexto da captura antes de o caso chegar à literatura científica.

A National Geographic relatou posteriormente que os cientistas concluíram que as imagens eram genuínas e que a pigmentação era compatível com o raro quadro descrito no estudo.

Isso também mostra como observações ocasionais feitas por pescadores, mergulhadores e outras pessoas no ambiente natural podem gerar registros relevantes para pesquisadores — desde que sejam devidamente documentadas e avaliadas.

O tubarão foi descoberto agora?

Não.

Esse é um ponto importante para não apresentar uma descoberta antiga como notícia recente.

O encontro ocorreu em agosto de 2024.

O artigo científico foi recebido pela revista em abril de 2025, aceito em julho e publicado on-line em 1º de agosto de 2025.

Desde então, imagens do tubarão voltaram a circular várias vezes nas redes sociais por causa de sua aparência incomum.

O valor atual da história está principalmente na curiosidade científica e na explicação de um caso excepcional da biodiversidade marinha.

“Tubarão 17 Pro Max”?

A brincadeira com o nome faz sentido visualmente.

Enquanto a maioria dos tubarões-lixa parece ter sido desenhada com uma paleta discreta de marrons e cinzas, esse exemplar surgiu com uma aparência que dificilmente passaria despercebida.

Mas a natureza não lançou uma nova versão.

Muito menos criou uma nova espécie.

O que aconteceu foi algo potencialmente ainda mais interessante:

um único indivíduo apresentou uma combinação de características de pigmentação tão rara que não havia sido documentada daquela maneira na espécie.

E conseguiu sobreviver até a fase adulta.

O que sabemos até agora

Espécie: tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum)

Onde foi encontrado: costa caribenha da Costa Rica, próximo ao Parque Nacional Tortuguero

Quando: agosto de 2024

Profundidade: aproximadamente 37 metros

Temperatura da água: 31,2°C

Comprimento: cerca de 2 metros

Coloração: amarelo-alaranjada intensa em todo o corpo

Olhos: brancos

Condição descrita: xantismo total, com características compatíveis com albino-xantocromismo

O que aconteceu depois: animal documentado e devolvido ao mar

Publicação científica: Marine Biodiversity, 2025

Importância: primeiro caso cientificamente documentado de xantismo total no tubarão-lixa e primeiro registro do fenômeno em peixes cartilaginosos no Caribe.

Ainda há perguntas sem resposta

Por que justamente aquele tubarão nasceu — ou desenvolveu — aquela coloração?

Existe uma mutação específica?

Há outros indivíduos semelhantes vivendo no Caribe sem terem sido registrados?

A alteração interfere na visão?

Afeta a alimentação?

Muda as chances de reprodução?

Ou aquele tubarão é simplesmente uma exceção extraordinariamente bem-sucedida?

O estudo não responde a todas essas perguntas.

E esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da descoberta.

Mesmo em uma espécie conhecida há séculos e em águas frequentadas por pescadores, turistas e pesquisadores, a natureza ainda consegue produzir um animal capaz de parecer quase artificial.

O “tubarão laranja” não é uma nova espécie.

Mas é uma lembrança bastante chamativa de quanto ainda existe para descobrir sob a superfície dos oceanos.

Fontes: Marine Biodiversity, DOI 10.1007/s12526-025-01558-5; National Geographic; FishBase.