O leite, alimento que está na base nutricional de várias populações mundo afora, infelizmente tem sido uma das vítimas das informações falsas e mitos que não têm nenhuma comprovação

O 1º de abril, o Dia da Mentira, é bem conhecido por ser uma boa ocasião para se pregar pegadinhas e brincadeiras com os amigos. Mas em tempos de redes sociais, em que mentiras e informações falsas viralizam a uma velocidade assustadora, o 1º de abril é também uma data importante para refletirmos sobre a qualidade das informações que recebemos e compartilhamos. Quando essas informações erradas podem afetar a nossa saúde e alimentação, o cuidado precisa ser redobrado.

O leite, alimento que está na base nutricional de várias populações mundo afora, infelizmente tem sido uma das vítimas das fake news. Inúmeros perfis nas redes sociais e até mesmo em veículos de comunicação com certa credibilidade difundem recorrentemente informações equivocadas e, por  vezes, até falsas sobre o leite. 

Para não cair nas armadilhas das falsas informações e deixar de usufruir os vários benefícios que esse importante alimento pode oferecer, confira cinco mitos sobre sobre o leite, que estão de contato:

1 – O leite é um alimento inflamatório
Essa é uma mentira recorrente, e que pode estar impactando no não cumprimento da meta definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que preconiza o consumo de 200 litros per capita anuais, para uma dieta considerada saudável e balanceada. De acordo com a nutricionista Carolina Nobre, que atua no centro clínico Órion Complex, em Goiânia, esse questionamento se difundiu muito em conteúdos sensacionalistas da internet. 

Segundo ela, o leite não é inflamatório para a grande maioria da população mundial. O que há, na verdade, são peculiaridades sobre de cada organismo em relação ao consumo do leite.  “Muitas vezes, encontramos pessoas produzindo conteúdo rápido e superficial, que é o que mais vende e chama atenção, mas não fazem uma pesquisa de fato ou aprofundam o conteúdo. Na verdade, o que existe são particularidades de cada organismo, e essas afirmações generalistas só colaboram para a desinformação”, explica a nutricionista. 

Segundo a nutricionista, é um equívoco atribuir ao leite, em especial o de vaca, o poder de inflamar ou não a um único alimento. “Temos que olhar para o contexto da alimentação. Uma pessoa que tem em sua rotina o hábito de comer muitos alimentos industrializados, embutidos, e cheios de conservantes, cria um contexto propício para essa inflamação do corpo. A verdade é que apenas pessoas com alergia à Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) ou intolerância à lactose podem ter desconforto após o consumo. E mesmo assim, aquelas que têm intolerância podem consumir o leite sem lactose ou fazer uso de medicamentos que ajudam na digestão da lactase”, explica a nutricionista.

2. O leite desnatado é leite integral com água
Essa é outra mentira antiga sobre o leite de vaca. O leite, naturalmente, já é composto por 87% de água, mas em momento algum nos processos de esterilização e de pasteurização é inserido água no alimento, seja o leite integral, semidesnatado ou desnatado. De acordo com Vinícius Junqueira, diretor da indústria de laticínios Marajoara, em Goiás, o que diferencia esses três tipos de leite é o percentual de gordura em cada um. 

“Os leites desnatados ou semidesnatados, nada mais são do que o leite integral com um percentual de gordura bem menor. Não há inserção de água nesse processo, só a redução da quantidade de gordura. A redução desse teor não afeta em nada o nível de nutrientes, que são a vitaminas, proteínas e sais minerais. O que é reduzido de fato é só a gordura do leite””, explica o diretor da indústria.

3. É necessário ferver o leite de caixinha antes de consumir
Esse é um mito sobre leite que pode ter se mantido devido às antigas formas de comercialização do produto, quando muitas vezes era vendido em embalagens de plásticos (o antigo leite de saquinho) ou diretamente pelo produtor. Mas, com o advento do processo UHT (Ultra High Temperature ou Ultra Alta Temperatura) e das embalagens longa vida, o procedimento de ferver o leite para ser consumido é totalmente desnecessário, a não ser que você prefira um leite quentinho ou morno. 

Vinícius Junqueira, da indústria Marajoara, explica que o UHT é um processo de esterilização que elimina 99,9% das bactérias do leite, não sendo necessário fervê-lo antes do consumo. E o envase em embalagem asséptica, hermética e sem contato com a luz, assegura a conservação do alimento fora de refrigeração por até quatro meses. Ele só lembra porém, que após aberta a embalagem, aí sim o leite deve ser mantido refrigerado e consumido em até três dias. “Com o uso da técnica UHT e das embalagens longa vida é possível transportar o produtor para distâncias bem maiores e com isso chegar a muito mais pessoas”, diz Vinícius.

4. Alergia ao leite e intolerância à lactose são a mesma coisa
Essa é uma mentira que pode custar caro para a saúde de quem a considera verdade. De acordo com a nutricionista Yumi Kuramoto, nutricionista que atende no Órion Complex, em Goiânia, intolerância à lactose e alergia ao leite são coisas bem diferentes e requerem cuidados específicos ao se consumir o leite. 

Segundo ela, a alergia é um quadro mais grave em que o sistema imunológico da pessoa reage a determinados alimentos ou alguns de seus componentes. Para algumas pessoas, o leite pode ser um desses alimentos alérgicos, e nessa situação o seu consumo deve ser totalmente restringido. Já a intolerância à lactose não é uma alergia, mas sim uma dificuldade maior de digerir esse açúcar existente no leite. “Essa é uma reação que pode ou não ocorrer e varia de pessoa para para pessoa, inclusive, pode ser que a intolerância não se manifeste numa determinada fase de vida, mas ocorra em outro momento”, esclarece a nutricionista.

Ela destaca que hoje, para contornar essa questão da intolerância à lactose, já existem várias opções de medicamentos modernos que auxiliam na digestão da lactose e há também o leite sem lactose, em cujo a composição, este tipo de açúcar já é processado. “Vale lembrar que os sintomas de alergia costumam ser bem mais intensos e graves do que a intolerância alimentar, que em geral se restringem a um desconforto intestinal”, alerta Yumi.

5. O leite UHT é totalmente modificado e cheio de substâncias tóxicas
Essa é uma mentira que já foi desmentida por informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em reportagem publicada no site do órgão, em 23 de abril de 2023, o MAPA esclarece que o processo térmico UHT nada mais é do que um tratamento ao qual o leite de vaca é submetido para eliminar microorganismos patogênicos — que fazem mal à saúde — e deteriorantes, que são bactérias que estragam o produto. 

O processamento térmico não tem nenhuma relação com a adição de substâncias tóxicas para conservar o alimento. Na verdade, o tratamento é uma esterilização que também garante que o leite se mantenha em temperatura ambiente sem a necessidade de refrigeração. Inclusive, a adição de conservantes no leite de caixinha é proibida por lei no Brasil e fiscalizada pelo Mapa.