A escritora Ana Maria Gonçalves, conhecida pelo romance Um Defeito de Cor, destacou em Brasília a importância da literatura negra para a compreensão do racismo no Brasil. Durante sua participação no encontro Julho das Pretas que Escrevem, ela enfatizou que seus livros não são contra-histórias, mas sim narrativas que buscam ocupar o lugar da história oficial do país.
Primeira mulher negra a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), Gonçalves relembrou que sua obra ajuda a explicar a índole racista ainda presente na sociedade brasileira e a necessidade das políticas de cotas raciais. “A literatura negra propõe um novo olhar sobre a história do Brasil, revelando as vozes que sempre foram marginalizadas”, afirmou.
O romance, que narra a saga de uma mulher negra sequestrada no Benin e trazida para o Brasil, também foi peça fundamental para o samba-enredo da escola de samba Portela no carnaval de 2024. Gonçalves explicou que essa conexão com a música mostra como as histórias de sofrimento e resistência encontram ressonância na cultura popular.
A autora argumentou que a sua visão não contrasta, mas complementa a narrativa nacional. “Não quero estar à margem da história, mas sim no centro dela, contando-a a partir de uma perspectiva que sempre foi ignorada”, reforçou. Ao assumir a cadeira 33 da ABL, ela destacou a importância de reconhecer o papel da ancestralidade na literatura.
Durante o evento, Gonçalves também discutiu os desafios enfrentados por autores negros no mercado editorial, que ainda enfrenta barreiras em áreas como distribuição e visibilidade. Contudo, ela celebrou o aumento do interesse por obras de autores negros, enfaticamente posicionando essa literatura como essencial para entender a diversidade cultural do Brasil.
A conversa, mediada pela jornalista Waleska Barbosa,frisou a necessidade de que as vozes negras sejam cada vez mais ouvidas e visíveis no cenário cultural. “Publicar é apenas o primeiro passo; a circulação e a aceitação das nossas narrativas são fundamentais”, concluiu.
