Comum no Cerrado e facilmente observado no Distrito Federal, o Guira guira chama atenção pela vida em grupo, pelos ovos verde-marinhos cobertos por uma delicada camada calcária branca e por um sistema reprodutivo tão cooperativo quanto competitivo
Quem encontra um ninho de anu-branco pela primeira vez pode levar alguns segundos para acreditar nas cores diante dos olhos. Em meio a folhas e gravetos aparecem ovos grandes, de tonalidade que varia visualmente entre o verde-marinho e o azul-esverdeado, recobertos por uma espécie de desenho branco irregular que parece ter sido feito à mão.
A aparência incomum é apenas uma das curiosidades do anu-branco (Guira guira), ave bastante conhecida pelos brasileiros e especialmente familiar para quem vive em regiões de Cerrado. A espécie também possui uma complexa organização social: vive em bandos, costuma dormir em grupo e pode compartilhar até mesmo o ninho.
Em determinadas situações, várias fêmeas colocam seus ovos no mesmo local. O resultado são ninhos coletivos que podem acumular 20 ovos ou mais. Pesquisas realizadas justamente na região de Brasília ajudam a revelar que, por trás dessa aparente grande família harmoniosa, existe também uma intensa disputa pela sobrevivência.



Ovos parecem verdadeiras peças de porcelana
Os ovos do anu-branco estão entre as características mais marcantes da espécie.
Segundo o WikiAves, eles apresentam coloração verde-marinho e possuem sobre a superfície uma rede calcária branca em alto-relevo. Dependendo da iluminação e do estágio do ovo, a tonalidade pode ser percebida como azulada ou azul-esverdeada.
Também são proporcionalmente enormes.
Um único ovo pode representar aproximadamente 17% a 25% do peso de uma fêmea adulta, uma proporção significativa para uma ave que pesa, em geral, pouco mais de uma centena de gramas.
A Biblioteca Digital de Ciências da Unicamp registra que uma fêmea pode colocar até sete ovos, enquanto os ninhos compartilhados por diferentes integrantes do bando podem ultrapassar 20.
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A beleza, porém, esconde uma dinâmica reprodutiva surpreendentemente dura.
Várias mães podem usar o mesmo ninho
Ao contrário da imagem tradicional de um casal de aves cuidando sozinho de sua ninhada, o anu-branco apresenta um sistema conhecido como reprodução comunal.
Diversos adultos podem participar de um mesmo grupo reprodutivo, e mais de uma fêmea deposita ovos no mesmo ninho.
Um estudo clássico conduzido pela pesquisadora Regina H. F. Macedo, da Universidade de Brasília, acompanhou 86 ninhos de anu-branco na região de Brasília. Os grupos observados tinham entre dois e 13 adultos, e o número de ovos aumentava de acordo com o tamanho do grupo.
Nas ninhadas acompanhadas, foram registrados de quatro a 20 ovos, com média de cerca de dez nos ninhos que chegaram à fase de incubação.
Outra referência da Unicamp registra que ninhos coletivos podem chegar a mais de 20 ovos.
À primeira vista, parece um impressionante exemplo de cooperação.
E é.
Mas só em parte.
Há ovos expulsos do próprio ninho
A reprodução dos anus-brancos possui um comportamento que surpreende ainda mais: integrantes do próprio grupo podem retirar ovos do ninho.
Pesquisas desenvolvidas em Brasília encontraram ovos marcados que desapareceram do interior dos ninhos e posteriormente foram localizados no chão, inclusive alguns ainda inteiros. Os primeiros ovos colocados estavam entre os mais suscetíveis a desaparecer ou serem enterrados pelo material adicionado ao ninho.
O WikiAves descreve comportamento semelhante. Uma fêmea que pretende utilizar determinado ninho pode eliminar ovos depositados anteriormente por outras aves.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que encontrar 20 ovos durante a postura não significa necessariamente que todos chegarão à incubação — muito menos que produzirão 20 filhotes.
No estudo realizado no Brasil Central, a perda de ovos foi frequente justamente por causa desse comportamento de expulsão. Apenas uma parcela dos ovos resultou em filhotes capazes de deixar o ninho.
É uma combinação curiosa de cooperação e competição dentro da mesma família social.
Eles também se unem para enfrentar o frio
A vida coletiva não acontece apenas durante a reprodução.
Quem observa anus-brancos em Brasília provavelmente já viu uma das cenas mais características da espécie: vários indivíduos posicionados muito próximos uns dos outros sobre um mesmo galho ou fio.
Não é coincidência.
Os anus-brancos vivem permanentemente em grupos e costumam se reunir à noite em fileiras apertadas ou verdadeiros aglomerados.
Registros feitos inclusive no Distrito Federal mostram grandes grupos encostados lado a lado. Esse comportamento social acompanha a espécie durante todo o ano e pode ajudar na proteção e na conservação de calor.
Com sua crista desgrenhada, bico alaranjado, peito claro e longa cauda escura com ponta branca, o anu-branco dificilmente passa despercebido.
Também não é uma ave particularmente silenciosa.
A espécie possui um repertório vocal complexo e utiliza diferentes chamados durante as interações sociais. A Biblioteca Digital de Ciências da Unicamp registra pelo menos 15 formas diferentes de vocalização.
Uma velha conhecida do Cerrado
Há um detalhe que aproxima ainda mais essa curiosidade da realidade brasiliense.
O anu-branco gosta justamente das paisagens que fazem parte do cotidiano do Distrito Federal: campos, cerrados, áreas abertas, pastagens, jardins e ambientes urbanos ou agrícolas com vegetação esparsa.
Sua distribuição é ampla. A espécie ocorre desde o norte do Brasil até países como Bolívia, Argentina e Uruguai.
Também se alimenta de artrópodes e pequenos vertebrados, circulando frequentemente pelo solo ou por vegetações baixas em busca de alimento.
Em Brasília, portanto, não é necessário viajar para uma reserva distante para encontrar essa história natural acontecendo.
Ela pode estar em um terreno aberto, no Cerrado próximo de casa, em uma área rural ou até sobre os fios vistos pela janela.
O ninho não deve virar atração para fotografias
A beleza dos ovos azul-esverdeados naturalmente provoca curiosidade — e é justamente aí que observadores precisam ter cuidado.
Ao encontrar um ninho, a recomendação é não tocar nos ovos, não retirar galhos e não permanecer excessivamente perto tentando conseguir uma fotografia melhor.
O próprio WikiAves mantém um alerta específico para registros de ninhos e filhotes, recomendando que observadores evitem aproximações capazes de interferir no processo reprodutivo.
A presença constante de pessoas pode estressar as aves, alterar seus comportamentos e facilitar inclusive a localização do ninho por predadores.
A melhor fotografia, nesses casos, pode ser justamente aquela feita à distância.
Uma sociedade complexa escondida diante dos nossos olhos
Talvez o aspecto mais fascinante do anu-branco não esteja apenas na cor dos ovos.
Está na contradição de seu comportamento.
Essas aves dormem juntas, procuram alimento em grupo, compartilham territórios e podem criar descendentes coletivamente. Ao mesmo tempo, disputam posições reprodutivas, eliminam ovos de outras integrantes do próprio bando e enfrentam elevada mortalidade entre ovos e filhotes. Pesquisadores também já descreveram episódios compatíveis com comportamentos ainda mais extremos dentro de grupos reprodutivos.
É uma lembrança de que a natureza raramente funciona pelas categorias humanas simples de “harmonia” ou “crueldade”.
São estratégias construídas ao longo da evolução para aumentar as chances de sobrevivência e reprodução.
E uma das melhores partes dessa história é que ela pode estar acontecendo neste momento a poucos quilômetros — ou poucos metros — de quem vive no Distrito Federal.
O pássaro de crista bagunçada que muitos enxergam todos os dias sobre um fio esconde uma sociedade complexa. E, dentro de seus ninhos, pequenos ovos azul-esverdeados revelam uma das estratégias reprodutivas mais curiosas das aves brasileiras.


