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Estudo publicado na Nature Communications mostra que o consumo de café modifica microrganismos e metabólitos intestinais e encontra efeitos também entre quem tomou a versão sem cafeína; resultados ajudam a revelar que polifenóis e outros compostos da bebida podem participar da comunicação entre intestino e cérebro

Para milhões de pessoas, o café é sinônimo de cafeína. É a bebida que desperta pela manhã, ajuda a enfrentar uma tarde de trabalho ou acompanha uma conversa depois do almoço. Uma nova pesquisa, porém, reforça que a xícara guarda uma química muito mais complexa — e que parte de seus efeitos sobre o organismo pode permanecer mesmo quando a cafeína é retirada.

Um estudo publicado em abril de 2026 na revista científica Nature Communications identificou mudanças na microbiota intestinal, em metabólitos produzidos no organismo e em indicadores relacionados a comportamento, humor e cognição depois do consumo de café. Um dos achados mais interessantes é que algumas dessas alterações também ocorreram entre os participantes que receberam café descafeinado.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da University College Cork e do APC Microbiome Ireland, na Irlanda, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Parma, na Itália.

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O trabalho não permite afirmar que café seja tratamento para ansiedade, depressão, perda de memória ou doenças intestinais. Mas fornece novas evidências de que a bebida pode interagir com o chamado eixo microbiota-intestino-cérebro, uma rede de comunicação que conecta os microrganismos do trato gastrointestinal, o sistema imunológico, o metabolismo e o sistema nervoso.

E talvez a maior surpresa seja justamente esta: nem tudo passa pela cafeína.

O que é o eixo intestino-cérebro?

Intestino e cérebro não funcionam como dois sistemas completamente independentes.

Existe entre eles uma comunicação constante e bidirecional envolvendo vias neurais, hormonais, metabólicas e imunológicas. A microbiota — conjunto de trilhões de microrganismos que habitam principalmente o intestino — passou a ser reconhecida como mais um participante dessa rede.

Bactérias intestinais são capazes de metabolizar componentes dos alimentos e gerar substâncias que podem participar de processos relacionados à inflamação, à integridade da barreira intestinal e à sinalização do sistema nervoso.

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Uma revisão científica publicada em 2024 destacou que alterações provocadas pelo café na composição da microbiota podem modificar moléculas envolvidas justamente nessa comunicação entre intestino e cérebro. Os autores, porém, ressaltaram que ainda há muito a ser compreendido sobre a dimensão e a relevância clínica desses efeitos.

É nesse cenário que o novo estudo tenta avançar.

Pesquisadores acompanharam consumidores e não consumidores de café

A pesquisa envolveu 62 adultos saudáveis, entre 30 e 50 anos, residentes na Irlanda.

Metade deles não consumia café. Os outros 31 eram consumidores habituais moderados, definidos no estudo como pessoas que tomavam normalmente entre três e cinco xícaras por dia.

Na primeira etapa, os cientistas compararam os dois grupos.

Depois, apenas os consumidores habituais de café continuaram no experimento. Eles passaram duas semanas sem tomar café e, posteriormente, foram divididos de forma aleatória e duplo-cega em dois grupos.

Durante três semanas, 16 participantes receberam café com cafeína e 15 consumiram a versão descafeinada. Cada pessoa deveria tomar quatro sachês por dia do café instantâneo fornecido pelos pesquisadores.

Ao longo do experimento, foram analisadas amostras de fezes, urina, sangue e saliva. Os participantes também passaram por testes de memória, atenção e aprendizagem e responderam questionários relacionados a estresse, ansiedade, sono, humor, atividade física e comportamento.

Esse desenho permitiu aos cientistas observar o organismo durante três momentos: com café, depois de sua retirada e após sua reintrodução.

A microbiota respondeu até ao café sem cafeína

O estudo encontrou diferenças específicas na composição da microbiota intestinal entre consumidores habituais e pessoas que não bebiam café.

Entre as bactérias que apresentaram diferenças estavam espécies dos gêneros Cryptobacterium, Eggerthella e Veillonella.

Quando os consumidores habituais passaram duas semanas sem café, algumas dessas populações se modificaram. Quando a bebida voltou à rotina, novas alterações apareceram.

O aspecto particularmente relevante é que a reintrodução tanto do café cafeinado quanto do descafeinado produziu mudanças em cepas bacterianas específicas.

Os pesquisadores não encontraram uma transformação ampla de toda a diversidade microbiana. O efeito pareceu mais seletivo: determinadas espécies responderam à presença ou à ausência da bebida.

Isso ajuda a desmontar a ideia de que a influência do café sobre o intestino seja simplesmente resultado do estimulante mais famoso presente na bebida.

Se não é só a cafeína, o que existe na xícara?

Muito mais do que parece.

O café contém centenas de compostos químicos. Entre eles estão ácidos clorogênicos e outros polifenóis, diterpenos, fibras e melanoidinas, substâncias formadas durante a torra e capazes de interagir com o trato gastrointestinal.

Os polifenóis recebem atenção especial.

Grande parte deles não é completamente absorvida no intestino delgado. Isso significa que uma parcela chega ao cólon, onde passa a ser metabolizada pelas bactérias intestinais.

É uma relação de mão dupla: os componentes do café alteram o ambiente disponível para os microrganismos, e a microbiota transforma esses compostos em novas moléculas.

No estudo de 2026, a ingestão de polifenóis caiu quando os participantes pararam de tomar café. Quando a bebida foi reintroduzida, os níveis voltaram a aumentar tanto entre quem recebeu café tradicional quanto entre quem consumiu o descafeinado.

A análise da urina reforçou o padrão: metabólitos derivados da cafeína retornaram apenas no grupo que recebeu a versão cafeinada, como seria esperado. Já diversos metabólitos derivados de polifenóis reapareceram nos dois grupos.

É uma pista importante sobre por que o descafeinado também pode provocar respostas biológicas.

Humor e estresse também apresentaram mudanças

A equipe não estudou apenas bactérias.

Depois da reintrodução do café, participantes dos dois grupos — com e sem cafeína — apresentaram redução nos escores autorreferidos de estresse percebido, sintomas depressivos e impulsividade.

Mas os resultados não foram idênticos.

No grupo que recebeu café com cafeína, houve melhora em medidas relacionadas à ansiedade e ao sofrimento psicológico. Entre os consumidores de descafeinado, os pesquisadores observaram melhora em indicadores de qualidade do sono, atividade física e alguns testes de memória.

No teste de memória episódica utilizado pelos pesquisadores, a melhora ao final da intervenção apareceu de forma significativa apenas no grupo do descafeinado. Em outra tarefa de aprendizagem visuoespacial, esse grupo também cometeu menos erros. Os próprios autores alertam, entretanto, que parte do desempenho pode ter sido influenciada pela repetição dos testes e por fatores como melhora do sono.

Portanto, não seria correto transformar o resultado em uma manchete como “café descafeinado melhora a memória”.

O estudo aponta uma associação experimental interessante — e que ainda precisa ser confirmada em trabalhos maiores.

Café também alterou moléculas relacionadas ao sistema nervoso

Outro capítulo da pesquisa veio da metabolômica, técnica que permite analisar uma grande quantidade de pequenas moléculas produzidas ou modificadas pelo metabolismo.

Consumidores habituais de café apresentaram diferenças em compostos intestinais como ácido indol-3-propiônico, indol-3-carboxaldeído e GABA, sigla para ácido gama-aminobutírico, um neurotransmissor envolvido na regulação da atividade do sistema nervoso.

Os cientistas também identificaram relações entre determinadas espécies bacterianas, metabólitos do café e resultados de testes cognitivos e comportamentais.

Isso não demonstra que uma determinada bactéria esteja diretamente fazendo alguém se sentir melhor ou pior.

Mas cria uma espécie de mapa das possíveis conexões existentes entre o que bebemos, os microrganismos que carregamos no intestino, as substâncias produzidas nesse processo e o funcionamento do cérebro.

É justamente essa rede que define o campo de pesquisa do eixo microbiota-intestino-cérebro.

A ciência já sabia que o café mexia com o intestino

Para muita gente, não é necessária uma pesquisa para perceber que café e intestino têm alguma relação.

A bebida pode estimular movimentos do trato gastrointestinal, e estudos mostram que até o café descafeinado é capaz de influenciar a motilidade intestinal. A literatura científica também vem documentando associações entre consumo moderado da bebida e alterações em microrganismos como Bifidobacterium.

Uma revisão publicada na revista Nutrients, que avaliou estudos humanos e experimentais, concluiu que o consumo moderado de café pode influenciar positivamente determinados componentes da microbiota e a função intestinal, embora os autores ressaltem que os resultados ainda são heterogêneos.

Outra revisão dedicada especificamente à relação entre café e eixo cérebro-intestino aponta efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e sobre a motilidade gastrointestinal tanto em componentes cafeinados quanto não cafeinados, mas reconhece que poucos estudos avaliaram diretamente todo o eixo como um único sistema.

O trabalho publicado em 2026 é relevante exatamente porque tenta juntar essas peças.

Isso significa que todo mundo deveria tomar café?

Não.

O estudo envolveu apenas 62 adultos saudáveis, e somente 31 participaram da fase de retirada e reintrodução. Trata-se de uma amostra relativamente pequena e de uma população bastante específica.

Também não foram estudadas pessoas com depressão, ansiedade, demência, síndrome do intestino irritável ou outras doenças para determinar se a bebida seria capaz de tratá-las.

Além disso, café não provoca os mesmos efeitos em todas as pessoas.

A cafeína pode aumentar ansiedade e palpitações em indivíduos sensíveis, interferir no sono e produzir sintomas de abstinência quando retirada abruptamente de consumidores habituais.

O trato digestivo também responde de maneiras diferentes. Algumas pessoas toleram a bebida perfeitamente; outras relatam desconforto, azia ou piora de sintomas gastrointestinais.

Uma revisão de 2024 ressaltou que, embora o consumo moderado apresente resultados potencialmente favoráveis em diversos estudos, ingestões muito elevadas e determinadas doenças digestivas exigem avaliação individual.

Portanto, café não deve ser encarado como medicamento.

O descafeinado deixa de ser um simples “café sem efeito”

Para quem evita cafeína por sensibilidade, preferência pessoal ou porque pretende tomar café no fim do dia, o novo estudo chama atenção para algo particularmente interessante.

Retirar grande parte da cafeína não elimina todos os compostos biologicamente ativos da bebida.

Os polifenóis continuam presentes.

As substâncias formadas durante a torra continuam presentes.

E parte delas continua chegando ao intestino e sendo metabolizada pela microbiota.

No experimento, o descafeinado foi capaz de desencadear alterações microbianas e metabólicas semelhantes em alguns aspectos às observadas com a versão cafeinada.

Isso não torna os dois cafés iguais.

Os pesquisadores encontraram efeitos específicos da cafeína em diferentes indicadores, enquanto outros pareciam estar relacionados à matriz do café como um todo.

É justamente essa diferença que torna a descoberta relevante.

Durante muito tempo, boa parte da discussão sobre café e saúde foi resumida à pergunta: “quanto de cafeína existe nessa xícara?”

A ciência começa a mostrar que talvez seja necessário fazer outra:

“O que mais existe nela?”

Uma conversa microscópica que pode chegar ao cérebro

Há algo particularmente humano nessa descoberta.

O café faz parte de rituais sociais, memórias afetivas e rotinas que atravessam gerações. Para alguns, é o cheiro da casa dos avós. Para outros, a pausa no escritório ou alguns minutos silenciosos antes de começar o dia.

Agora, pesquisadores tentam compreender uma dimensão invisível desse hábito.

Enquanto seguramos uma xícara, centenas de compostos entram no organismo. Alguns são absorvidos rapidamente. Outros atravessam o sistema digestivo e encontram trilhões de bactérias. Essas bactérias transformam moléculas, produzem metabólitos e participam de uma rede que conversa com o sistema imunológico e o cérebro.

Ainda estamos longe de compreender todas as consequências desse diálogo.

O estudo publicado na Nature Communications não prova que café deixe alguém mentalmente mais saudável, nem autoriza trocar tratamento médico por uma bebida.

Mas oferece uma pista fascinante: parte da relação entre café, intestino e cérebro pode acontecer independentemente da cafeína.

E isso transforma o aparentemente simples café descafeinado em algo muito mais interessante do ponto de vista científico.

A energia da cafeína pode ter ido embora.

Mas a conversa entre a xícara, o intestino e o cérebro aparentemente continua.