Estudiosos da China testaram o método em 3 mil mulheres, mas aplicação prática do exame esbarraria em diversas limitações

Sangue menstrual pode ajudar a detectar HPV e abrir caminho para uma nova forma de rastreamento

Estudo realizado na China com mais de 3 mil mulheres encontrou desempenho semelhante ao da coleta cervical feita por profissionais, mas método ainda enfrenta limitações antes de chegar à prática clínica.

Um método que utiliza sangue menstrual coletado em um pequeno absorvente pode se tornar uma alternativa menos invasiva para a detecção do papilomavírus humano (HPV), um dos principais fatores associados ao desenvolvimento do câncer do colo do útero.

A possibilidade foi investigada por pesquisadores chineses em um estudo publicado no periódico científico The BMJ. A pesquisa envolveu 3.068 mulheres entre 20 e 54 anos, recrutadas em quatro comunidades urbanas e três rurais da província de Hubei, na China, entre setembro de 2021 e janeiro de 2025. (BMJ)

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Os resultados foram considerados promissores: o teste realizado a partir do sangue menstrual apresentou sensibilidade de 94,7% para identificar lesões cervicais de alto grau (CIN2+), contra 92,1% no teste convencional com amostra coletada por profissional de saúde. (BMJ)

Como funcionaria o exame

A proposta é relativamente simples. As participantes receberam um pequeno dispositivo absorvente, colocado na parte central de um absorvente menstrual convencional no início do ciclo.

Quando o material estava suficientemente saturado, a minipad era retirada e colocada em um recipiente com solução de conservação. O material era posteriormente encaminhado ao laboratório para extração do DNA e pesquisa de HPV.

A vantagem potencial está justamente na forma de coleta: não seria necessário realizar inicialmente o exame ginecológico para obter a amostra.

No estudo, a concordância entre os resultados obtidos pelo sangue menstrual e pelas amostras cervicais foi de 97,7% para os genótipos de HPV analisados. (BMJ)

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O resultado não significa que o método já substitui o exame tradicional

Apesar dos resultados positivos, os próprios pesquisadores apontam que ainda existem questões a serem resolvidas antes que a estratégia possa ser considerada uma substituta definitiva da coleta convencional.

Uma delas está relacionada à especificidade. O teste com sangue menstrual apresentou especificidade de 89,1%, ligeiramente inferior aos 90% observados na coleta feita por profissionais. Isso significa que existe uma pequena diferença na capacidade de identificar corretamente quem não apresenta a condição investigada. (BMJ)

Outro ponto importante é que a pesquisa foi realizada com um grupo específico de mulheres: todas tinham ciclos menstruais regulares, colo do útero e histórico de atividade sexual. Mulheres grávidas, lactantes, menopausadas, submetidas a determinados tratamentos cervicais ou com fluxo menstrual muito baixo foram excluídas. (BMJ)

Isso significa que os resultados ainda precisam ser avaliados em populações mais diversas e em diferentes contextos de saúde.

Por que a descoberta chama atenção

O câncer do colo do útero está fortemente relacionado à infecção persistente por tipos de alto risco do HPV. O rastreamento periódico permite identificar alterações antes que elas evoluam para um câncer invasivo.

O problema é que nem todas as mulheres conseguem ou desejam realizar o rastreamento convencional. Questões como constrangimento, medo, distância dos serviços de saúde, custos e dificuldade de acesso podem contribuir para a baixa adesão em determinadas populações. O próprio estudo destaca essas barreiras como um dos motivos para buscar alternativas de coleta. (BMJ)

Uma estratégia que permitisse coletar a amostra em casa poderia, portanto, alcançar mulheres que hoje permanecem fora dos programas de rastreamento.

O que o sangue menstrual revela

O interesse científico pelo sangue menstrual não é recente. O material contém células provenientes do trato genital e pode carregar material genético que permite investigar diferentes condições.

Pesquisas anteriores já haviam estudado seu potencial para identificação de HPV e outras infecções, mas enfrentavam limitações relacionadas ao tamanho das amostras e à ausência de padronização. O novo estudo chinês procurou avançar justamente nesses pontos ao utilizar uma população comunitária numerosa e um método padronizado de coleta. (BMJ)

O impacto para as mulheres

Por trás da tecnologia existe uma questão que vai além do laboratório: como tornar o rastreamento do câncer mais acessível e menos desconfortável?

Para uma mulher que evita o exame ginecológico por medo, vergonha ou dificuldade de acesso, poder realizar uma primeira etapa de rastreamento por meio de uma amostra coletada durante a própria menstruação poderia representar uma mudança significativa.

Mas isso não significa que uma eventual aprovação do método eliminaria a necessidade de acompanhamento médico. Um resultado positivo para HPV exige avaliação adequada e, dependendo do caso, exames complementares para identificar alterações no colo do útero.

Uma possibilidade para ampliar o rastreamento

Os pesquisadores concluem que o sangue menstrual coletado por minipads apresentou desempenho comparável ao das amostras cervicais coletadas por profissionais na identificação de lesões CIN2+ e CIN3+. (BMJ)

Ainda assim, transformar uma descoberta promissora em uma ferramenta de saúde pública exige novas pesquisas, validação em diferentes populações, padronização dos procedimentos e avaliação regulatória.

O que o estudo oferece, por enquanto, é uma perspectiva interessante: uma parte do material que normalmente é descartado durante a menstruação pode conter informações capazes de ajudar a identificar uma infecção importante para a prevenção do câncer.

Se os próximos estudos confirmarem esses resultados, a coleta menstrual poderá se tornar mais uma ferramenta para aproximar o rastreamento das mulheres — especialmente daquelas que hoje, por diferentes motivos, ainda não conseguem chegar até ele.