Conhecida como Garnacha na Espanha e Grenache na França, variedade pode originar vinhos frescos e frutados ou rótulos encorpados, complexos e capazes de evoluir por anos
Uma mesma uva pode aparecer em um rosé refrescante, dar origem a um tinto varietal de personalidade ou ocupar papel de destaque em alguns dos blends mais conhecidos do sul da França. Essa capacidade de assumir diferentes estilos é uma das características da Grenache, variedade celebrada internacionalmente em setembro.
Também chamada de Garnacha na Espanha e de Cannonau na Sardenha, na Itália, a uva se adapta especialmente bem a regiões quentes e secas. Suas raízes conseguem avançar profundamente pelo solo em busca de água, característica importante em vinhedos submetidos a altas temperaturas e pouca disponibilidade hídrica.
O resultado dessa adaptação pode aparecer na taça em vinhos com boa concentração de fruta, graduação alcoólica elevada e diferentes níveis de estrutura.
“A beleza da Garnacha é essa versatilidade. Ela pode ser leve e fresca ou estruturada e longeva, dependendo de onde é plantada e como é vinificada”, explica a sommelière Thamirys Schneider, do Grupo Wine.
Para mostrar essas diferenças, a especialista selecionou quatro exemplares produzidos na Espanha e na França.
Um rosé que foge do perfil mais delicado
A primeira indicação é o Insaciable D.O.Ca Rioja Garnacha 2024, produzido na região espanhola de Rioja.
Apesar de ser rosé, o processo de elaboração busca mais estrutura e complexidade. O vinho passa por fermentação em barris de carvalho americano e francês e permanece durante quatro meses em barricas.
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Nesse período é realizada semanalmente a batonnage, técnica na qual as borras depositadas no recipiente são movimentadas para ampliar o contato com o vinho. O processo pode contribuir para aumentar a sensação de volume e cremosidade e acrescentar complexidade aromática.
O rótulo apresenta notas de frutas vermelhas maduras, nuances mentoladas e vegetais, especiarias e um toque balsâmico.
Vinhedos de 45 anos dão origem a tinto espanhol
Outra maneira de conhecer a Garnacha é experimentá-la sem a participação de outras variedades.
O Insensato D.O.Ca Rioja Garnacha 2024 é elaborado exclusivamente com Garnacha proveniente de vinhedos de aproximadamente 45 anos.
O vinho apresenta aromas de frutas vermelhas maduras, especiarias, notas de madeira e nuances balsâmicas. Depois da vinificação, passa cinco meses em barricas de carvalho francês.
É um exemplo de como a mesma variedade utilizada em rosés também pode originar tintos com maior estrutura e complexidade.
Na França, Grenache ganha força nos blends
Ao atravessar a fronteira e chegar ao sul da França, Garnacha passa a ser chamada de Grenache e assume papel importante nos tradicionais cortes do Rhône.
É frequentemente combinada com variedades como Syrah, Mourvèdre, Cinsault e Carignan. Uma das combinações mais conhecidas é o chamado GSM — Grenache, Syrah e Mourvèdre.
A Grenache tende a contribuir com fruta, corpo, álcool e maciez, enquanto as demais variedades ajudam a construir diferentes camadas aromáticas e estruturais.
Em denominações como Châteauneuf-du-Pape, ela ocupa posição central na identidade de muitos vinhos. Em Gigondas, também é uma das principais variedades utilizadas, enquanto na Provence aparece com frequência na produção de rosés.
De vinhos jovens a garrafas capazes de envelhecer
Para representar um estilo mais estruturado, Thamirys indica o Calvet Châteauneuf-du-Pape.
Os vinhos dessa denominação do sul do Rhône são conhecidos pela intensidade, presença de frutas maduras, especiarias, estrutura e, em muitos casos, graduação alcoólica mais elevada. Dependendo do produtor, da safra e das condições de armazenamento, exemplares da região podem apresentar bom potencial de evolução em garrafa.
No outro extremo está o Calvet Prestige Côtes du Rhône, elaborado a partir de Grenache e Syrah.
A proposta é de um vinho mais jovem e frutado, com aromas de frutas vermelhas, notas picantes e especiadas e taninos mais macios, mostrando como a variedade também pode participar de vinhos pensados para consumo menos formal.
Uma uva, diferentes experiências na taça
A comparação entre os quatro estilos ajuda a mostrar que identificar a variedade no rótulo é apenas o começo para entender o vinho.
Local de cultivo, idade das videiras, clima, composição do blend, fermentação, uso de barricas e tempo de amadurecimento podem modificar significativamente o resultado.
No caso da Grenache, essa combinação de fatores permite encontrar desde rosés frescos e gastronômicos até tintos concentrados e vinhos destinados a uma evolução mais longa.
Para quem está começando a explorar a variedade, comparar uma Garnacha espanhola com um blend do Rhône pode ser uma forma interessante de perceber, na prática, quanto uma mesma uva é capaz de mudar de acordo com sua origem e com as escolhas feitas na vinificação.
Beba com moderação. A venda e o consumo de bebidas alcoólicas são proibidos para menores de 18 anos.


