por Fran Guttierrez Costa

Localizado a mais de 2 mil metros de altitude, em uma curva dramática do Passo da Furka, o Hotel Belvedere é hoje uma construção abandonada que continua a despertar fascínio. Fundado em 1882 por Josef Steiler, então com apenas 24 anos, o hotel nasceu como uma hospedagem modesta para viajantes que se aventuravam pela região glacial.

Com o tempo, o Belvedere ganhou notoriedade. Em 1904, foi ampliado para 90 quartos, adotando um estilo que remetia à Belle Époque e tornando-se parada obrigatória para montanhistas e turistas interessados nas grutas de gelo da Geleira do Ródano. O auge da fama veio nos anos 1960, quando o hotel apareceu em uma das cenas mais icônicas da franquia James Bond, em 007 contra Goldfinger (1964). A perseguição automobilística protagonizada por Sean Connery, que era frequentador assíduo do local, transformou o Belvedere em cartão-postal mundial.

Após a Segunda Guerra Mundial, o crescimento do turismo impulsionado pelo automóvel pessoal trouxe ainda mais visitantes. Mas, paradoxalmente, o progresso dos carros acabou contribuindo para o declínio do hotel: as travessias pelos Alpes, que antes exigiam dois ou três dias, passaram a ser feitas em poucas horas, reduzindo a necessidade de hospedagem. Somado a isso, o recuo da geleira em mais de um quilômetro diminuiu o impacto visual da paisagem que tornava o Belvedere tão especial.

Em 1980, o hotel foi adquirido pelo Cantão de Valais e, em 1988, vendido à família Carlen, que o restaurou e reabriu dois anos depois. Ainda assim, em 2015, o Belvedere fechou definitivamente as portas. O motivo foi emblemático: as mudanças climáticas. A geleira de 11 mil anos que se estende diante do edifício recua cerca de 10 centímetros por dia, tornando o cenário cada vez mais instável e preocupante para especialistas.

Hoje, mesmo abandonado, o Belvedere continua atraindo turistas. Sua fachada de pedra e estilo vintage, em contraste com o silêncio das montanhas, criam uma atmosfera única. Visitantes relatam até movimentações misteriosas — cortinas que se mexem e sons vindos de dentro do prédio —, alimentando o imaginário em torno do local.

O Hotel Belvedere é, ao mesmo tempo, símbolo da história do turismo alpino, da cultura pop e dos desafios ambientais contemporâneos. Entre o fascínio dos viajantes e a preocupação dos cientistas, permanece como um ícone que resiste ao tempo, guardando segredos e memórias nas alturas dos Alpes suíços.