Estudos mostram que tratar a apneia obstrutiva, especialmente com CPAP, pode reduzir a pressão arterial em determinados pacientes e ajudar no controle de um importante fator de risco cardiovascular
Roncar durante a noite, acordar cansado e apresentar pausas na respiração durante o sono podem parecer problemas restritos à qualidade do descanso. Mas, em pessoas com apneia obstrutiva do sono, essas alterações também podem estar relacionadas à pressão alta e ao aumento do risco cardiovascular.
A relação entre as duas condições é conhecida pela medicina há anos. Durante os episódios de apneia, a passagem de ar é interrompida repetidamente, provocando quedas de oxigênio e despertares breves ao longo da noite. Esse processo ativa mecanismos do organismo que podem contribuir para a elevação da pressão arterial.
Por isso, diretrizes médicas recomendam considerar o tratamento da apneia em adultos que também apresentam hipertensão. A Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), por exemplo, sugere o uso de pressão positiva nas vias aéreas em pacientes com apneia e hipertensão.
O que acontece durante uma noite de apneia
Na apneia obstrutiva, os músculos da garganta relaxam durante o sono e provocam o estreitamento ou fechamento temporário das vias respiratórias.
A pessoa pode parar de respirar por alguns segundos e, muitas vezes, nem perceber o episódio. O cérebro, porém, identifica a queda de oxigênio e provoca um breve despertar para que a respiração seja retomada.
Quando isso acontece dezenas ou até centenas de vezes durante uma noite, o organismo permanece submetido repetidamente a estímulos de estresse.
O resultado pode ser aumento da atividade do sistema nervoso simpático, alterações na oxigenação e mudanças na regulação da pressão arterial.
CPAP pode reduzir a pressão
O tratamento mais conhecido para os casos moderados e graves é o CPAP, aparelho que fornece um fluxo contínuo de ar por meio de uma máscara e mantém as vias respiratórias abertas durante o sono.
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Uma grande metanálise publicada em 2025 reuniu dados individuais de 9.434 pacientes de 36 estudos clínicos. Os pesquisadores observaram que o CPAP esteve associado à redução da pressão arterial principalmente entre pacientes que apresentavam pressão sistólica não controlada no início do tratamento. Nesse grupo, a redução média foi de aproximadamente 2,6 mmHg na pressão sistólica.
Os números podem parecer modestos, mas a resposta não é igual para todos os pacientes.
Estudos anteriores também encontraram reduções mais expressivas entre pessoas com hipertensão resistente, situação em que a pressão permanece elevada apesar do uso de medicamentos. Uma metanálise de ensaios clínicos encontrou redução média de cerca de 5 mmHg na pressão sistólica de 24 horas e 4,2 mmHg na diastólica nesse grupo.
Nem todo paciente terá a mesma resposta
É importante não interpretar esses resultados como se o CPAP fosse um tratamento universal para hipertensão.
A resposta depende de diversos fatores, incluindo a gravidade da apneia, os níveis de pressão arterial antes do tratamento e, principalmente, a adesão ao uso do aparelho.
A própria evidência científica mostra grande variação entre os pacientes. Na metanálise mais recente, pessoas que já apresentavam pressão controlada tiveram pouco ou nenhum benefício adicional sobre a pressão arterial, enquanto aquelas com hipertensão não controlada foram as que mais se beneficiaram.
Por isso, o tratamento da hipertensão continua seguindo as recomendações específicas para cada paciente. O CPAP pode ser uma parte importante desse cuidado quando existe apneia do sono, mas não substitui automaticamente medicamentos, atividade física, alimentação adequada ou outras medidas indicadas pelo médico.
Quando desconfiar de apneia?
Alguns sinais podem servir de alerta.
Ronco alto e frequente, pausas observadas na respiração, sensação de sufocamento durante a noite, sono não reparador, sonolência excessiva durante o dia e dores de cabeça pela manhã estão entre os sintomas associados à apneia obstrutiva.
A doença também deve ser considerada em pessoas com hipertensão, especialmente quando ela é difícil de controlar. Diretrizes recentes recomendam investigação em pacientes de maior risco que apresentam sintomas ou condições associadas, incluindo hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares.
O diagnóstico precisa ser feito por avaliação médica e, quando indicado, por exame do sono. Não é recomendado iniciar um aparelho de pressão positiva por conta própria.
O problema pode estar escondido durante a noite
Uma das dificuldades da apneia é justamente o fato de que muitas pessoas não sabem que apresentam a doença.
Quem dorme sozinho pode não perceber as pausas respiratórias. Mesmo quem recebe o relato de que ronca pode considerar o problema apenas um incômodo para quem divide o quarto.
Enquanto isso, o organismo pode passar horas enfrentando interrupções repetidas da respiração.
Para uma pessoa que já apresenta pressão alta, identificar e tratar a apneia pode representar uma oportunidade adicional de melhorar o controle cardiovascular.
Mais do que dormir melhor
Os benefícios do tratamento não se resumem aos números da pressão arterial.
A apneia pode provocar sono fragmentado e sonolência durante o dia, prejudicando concentração, memória, produtividade e qualidade de vida. O tratamento adequado pode melhorar esses aspectos e reduzir os sintomas relacionados à falta de sono reparador. A AASM recomenda pressão positiva especialmente para adultos com apneia que apresentam sonolência excessiva e também considera seu uso em pacientes com hipertensão associada.
A adesão, entretanto, é fundamental. O acompanhamento depois do início do CPAP permite verificar se o aparelho está funcionando adequadamente, ajustar dificuldades e acompanhar o tempo efetivo de utilização.
Um alerta para quem tem pressão difícil de controlar
A relação entre apneia e hipertensão mostra por que investigar a causa de uma pressão persistentemente elevada pode ser tão importante quanto simplesmente aumentar a quantidade de medicamentos.
Para algumas pessoas, o problema pode estar associado a uma condição que acontece silenciosamente enquanto dormem.
Isso não significa que toda pessoa hipertensa tenha apneia ou que todo caso de apneia provoque hipertensão. Mas, diante de pressão difícil de controlar, ronco intenso, pausas respiratórias ou sonolência excessiva, conversar com um profissional de saúde pode abrir caminho para uma investigação adequada.
No fim, tratar a apneia significa olhar para além da noite mal dormida. Quando a respiração melhora, o sono deixa de ser fragmentado e, para determinados pacientes, a pressão arterial também pode encontrar um novo equilíbrio.
