Alimentação materna pode alterar alguns componentes do leite, mas peso e crescimento do bebê dependem de uma combinação muito maior de fatores

É comum que mães que amamentam se perguntem se determinados alimentos podem deixar o leite “mais forte”, fazer o bebê ganhar mais peso ou, ao contrário, prejudicar seu crescimento. A resposta, segundo as evidências disponíveis, é mais complexa: a alimentação da mãe influencia a composição do leite materno em alguns aspectos, mas não existe uma relação simples entre comer mais ou menos calorias e fazer o bebê engordar.

Uma revisão sistemática publicada em 2024, que reuniu estudos sobre a composição do leite humano e o crescimento infantil, encontrou que as relações entre os nutrientes presentes no leite e o ganho de peso das crianças ainda são pouco consistentes. Os pesquisadores destacam a grande diversidade dos estudos e a dificuldade de estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

O leite materno não é simplesmente um reflexo da alimentação

O organismo da mulher possui mecanismos que ajudam a manter uma composição adequada do leite mesmo diante de variações na alimentação.

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Isso não significa que a dieta materna seja irrelevante. Uma revisão sistemática atualizada encontrou evidências de que alguns componentes da alimentação, especialmente ácidos graxos, podem influenciar a composição do leite. O consumo materno de peixes, por exemplo, esteve associado a maiores concentrações de alguns ácidos graxos, como DHA e EPA, no leite.

Por outro lado, as evidências sobre a influência da alimentação materna sobre proteínas, carboidratos, vitaminas e minerais do leite ainda são mais limitadas e apresentam resultados variados.

Ou seja: não é correto imaginar que cada alimento consumido pela mãe será imediatamente convertido em ganho de peso para o bebê.

Então o que determina o ganho de peso?

O crescimento infantil é resultado da interação de diversos fatores. Entre eles estão a idade gestacional ao nascimento, condições de saúde, genética, frequência e eficiência das mamadas, quantidade de leite ingerida e o próprio padrão individual de crescimento.

A composição do leite também muda naturalmente ao longo da lactação e pode variar inclusive durante uma mesma mamada. Uma revisão sistemática com quase 6 mil pares de mães e bebês encontrou associações entre alguns componentes do leite e medidas de crescimento, mas não identificou um padrão suficientemente consistente para estabelecer que determinado nutriente seja responsável pelo ganho de peso.

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Por isso, um bebê ganhar peso mais rapidamente ou mais lentamente não deve ser interpretado apenas a partir da alimentação da mãe.

A mãe precisa comer por dois?

Não.

Durante a amamentação, a mulher realmente apresenta necessidades nutricionais e energéticas específicas, mas isso não significa que precise aumentar indiscriminadamente a quantidade de comida ou consumir alimentos considerados “fortificantes”.

Uma alimentação variada e equilibrada continua sendo a melhor estratégia. O foco deve estar na qualidade da dieta, com variedade de frutas, verduras, legumes, cereais, proteínas e fontes adequadas de gorduras, além de hidratação suficiente.

Dietas extremamente restritivas, por outro lado, podem dificultar a ingestão adequada de nutrientes importantes para a própria mãe.

O bebê está ganhando pouco peso. E agora?

Quando o ganho de peso é considerado abaixo do esperado, a primeira atitude não deve ser simplesmente recomendar que a mãe coma mais.

É necessário avaliar a curva de crescimento da criança, a frequência das mamadas, a pega, a transferência de leite e possíveis condições de saúde do bebê ou da mãe.

A avaliação individual é especialmente importante porque crianças pequenas não crescem todas exatamente no mesmo ritmo. Um único peso isolado também diz pouco: o acompanhamento ao longo do tempo oferece uma visão muito mais confiável do desenvolvimento.

Em bebês pequenos para a idade gestacional, por exemplo, uma revisão publicada em 2025 encontrou evidências de que o leite materno apoia o crescimento, embora a qualidade das evidências disponíveis para determinar exatamente o efeito sobre o chamado crescimento de recuperação ainda seja limitada.

E se a mãe comer doces, frituras ou alimentos ultraprocessados?

Isso não significa que o leite materno ficará automaticamente inadequado ou que o bebê terá ganho excessivo de peso.

O problema está no padrão alimentar da mãe ao longo do tempo. Uma dieta baseada predominantemente em alimentos ultraprocessados, com pouca variedade e baixa qualidade nutricional, pode prejudicar a saúde materna e dificultar o atendimento das necessidades nutricionais durante a lactação.

Por isso, a recomendação não deve ser baseada em listas rígidas de alimentos proibidos, mas na construção de uma alimentação equilibrada e sustentável.

Não é preciso excluir alimentos sem motivo

Outro mito frequente é a ideia de que a mãe precisa retirar diversos alimentos da dieta para evitar cólicas, gases ou outros desconfortos no bebê.

Restrições alimentares sem indicação podem gerar ansiedade e, em alguns casos, comprometer a própria alimentação da mulher. Quando existe suspeita de alergia ou outra reação relacionada à alimentação materna, a investigação deve ser feita com orientação de profissional de saúde.

A amamentação já envolve desafios suficientes para que a mãe ainda carregue a culpa de acreditar que cada alimento consumido determina a saúde ou o peso do filho.

O mais importante é acompanhar a criança

O ganho de peso é um dos indicadores utilizados para avaliar se o bebê está crescendo adequadamente, mas ele deve ser analisado junto com comprimento, perímetro cefálico, desenvolvimento e histórico clínico.

Por isso, consultas de acompanhamento são fundamentais.

A alimentação da mãe importa, mas não existe uma fórmula do tipo “comer determinado alimento fará o bebê ganhar peso”. As evidências atuais mostram que a relação entre dieta materna, composição do leite e crescimento infantil é complexa e ainda não completamente compreendida.

Mais importante do que contar calorias é cuidar da mãe

A mulher que amamenta também precisa ser cuidada. Ela está se recuperando da gestação e do parto enquanto produz alimento para outro ser humano.

Uma alimentação diversificada, descanso possível, hidratação, apoio familiar e acompanhamento profissional são muito mais importantes do que a busca por alimentos milagrosos capazes de “engordar” o bebê.

O leite materno é um alimento vivo e dinâmico. Seu valor não pode ser medido apenas pela quantidade de calorias ou pelo peso que o bebê ganha na balança. O crescimento saudável é resultado de uma história muito maior — e começa também pelo cuidado com quem amamenta.