Negócio criado por Selma Ferreira enquanto conciliava maternidade e trabalho cresceu, ganhou novo segmento e hoje soma quatro lojas físicas entre Inhumas e Goiânia; matriz foi reinaugurada em 11 de setembro com nova identidade, coquetel e desfile
Há 24 anos, quatro máquinas de costura ocupavam a sala de uma casa em Goiás. Não havia uma grande fábrica, uma rede de lojas ou um plano de expansão desenhado em uma sala de reuniões. Havia uma mulher, dois filhos, a necessidade de encontrar uma forma de continuar trabalhando e uma vontade antiga de vender.


Foi desse começo doméstico que nasceu a Bella Renda, marca criada pela empresária Selma Ferreira, que atravessou mais de duas décadas de transformações e hoje soma quatro lojas físicas — duas em Inhumas e duas em Goiânia.

No último dia 11 de setembro, um novo capítulo dessa história foi celebrado em Inhumas. A loja matriz da Bella Renda foi reinaugurada após passar por uma renovação que aproximou definitivamente a marca de lingerie da Bella Beach, negócio de moda praia lançado pela empresária há cerca de dois anos e meio.
A nova fase foi apresentada ao público com um coquetel e desfile, reunindo clientes e convidados em torno do conceito escolhido para representar o momento: “A mesma essência, uma nova experiência.”
Mais do que a mudança de um espaço comercial, a reinauguração materializa uma trajetória de empreendedorismo feminino que começou quando Selma precisou encontrar uma maneira de conciliar trabalho e maternidade.
O sonho veio antes de saber o que vender
Selma conta que a vontade de empreender surgiu ainda muito cedo.
“Desde muito pequena tive um sonho de vender. Não sabia o quê”, recorda.
A oportunidade — ou, como acontece com tantas mulheres, a necessidade — apareceu depois do nascimento do segundo filho.
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Na época, Selma trabalhava em um escritório de contabilidade. Conciliar a rotina profissional fora de casa com a maternidade estava se tornando cada vez mais difícil.
Foi então que começou a vender roupas.
Pouco tempo depois, direcionou as vendas para lingerie. Mas comercializar peças prontas já não era suficiente. Ela queria aprender a produzi-las.
Selma procurou um curso de costura, aprendeu o ofício, comprou quatro máquinas e instalou os equipamentos na sala de casa.
A Bella Renda começava ali.
Não em um ponto comercial movimentado, mas dentro do espaço doméstico — cenário que ainda hoje representa o ponto de partida de milhares de empreendedoras brasileiras.
Começar em casa é realidade para milhares de mulheres em Goiás
A história de Selma, embora particular, encontra paralelo em um fenômeno econômico muito maior.
Um levantamento do Sebrae Goiás em parceria com a Universidade Federal de Goiás mostrou que mais de 140 mil mulheres goianas desenvolviam seus negócios dentro da própria residência. Isso representava quatro em cada dez empreendedoras do estado no estudo divulgado em 2025.
Em muitos casos, trabalhar dentro de casa não começa como escolha estratégica.
É uma forma de diminuir custos, permanecer perto dos filhos, conciliar tarefas domésticas ou simplesmente tornar possível uma atividade profissional quando as estruturas tradicionais do mercado de trabalho já não se encaixam na realidade familiar.
Mais de duas décadas depois, a cena das quatro máquinas na sala ajuda a dimensionar o caminho percorrido pela Bella Renda.
O negócio que nasceu dentro de casa deixou de caber nela.
De uma pequena produção a quatro lojas físicas
Ao longo dos 24 anos seguintes, vieram mudanças, novos clientes, pontos comerciais e diferentes fases da empresa.
Hoje, a Bella Renda mantém quatro operações físicas em Goiás, distribuídas entre os dois principais mercados em que a marca consolidou presença:
- duas lojas em Inhumas;
- duas lojas em Goiânia.
O crescimento não aconteceu em linha reta.
“Durante esses 24 anos muitas e muitas coisas aconteceram, boas e ruins”, resume Selma.
É uma frase simples, mas que traduz uma realidade comum aos negócios que conseguem ultrapassar as primeiras etapas de sobrevivência.
Empresas atravessam mudanças de comportamento do consumidor, novos concorrentes, períodos de retração econômica, transformações no varejo, crescimento das vendas digitais e acontecimentos inesperados — como a pandemia, que obrigou o comércio a rever operações em todo o país.

Para Selma, há um elemento que atravessa toda essa história.
“Em todo tempo tive Deus me dando forças para continuar.”
A fé aparece em seu relato não como discurso empresarial, mas como parte da memória afetiva de quem viu o negócio crescer junto com a própria família.
Bella Beach abriu uma nova frente para o negócio
Depois de mais de duas décadas ligada principalmente ao universo da lingerie, a empresária decidiu ampliar a atuação.
Há aproximadamente dois anos e meio, Selma adquiriu a Bella Beach, voltada ao segmento de biquínis e moda praia.
Inicialmente, o novo negócio funcionava em outro endereço.
A expansão criou duas identidades que dialogavam com o mesmo público, mas ainda ocupavam espaços separados.
A nova etapa apresentada neste mês procura justamente eliminar essa distância.
A identidade visual da Bella Renda foi renovada para conversar diretamente com a Bella Beach, e as duas marcas passam agora a compartilhar o mesmo ambiente na matriz de Inhumas.
Não se trata, portanto, apenas de uma reforma.
É uma estratégia de posicionamento.
Ao reunir lingerie e moda praia em um único espaço, a empresa amplia o portfólio disponível à cliente e transforma duas operações relacionadas em uma experiência de compra integrada.
Matriz renasce 24 anos depois
A reinauguração realizada em 11 de setembro de 2026 marcou publicamente essa nova fase.
O evento contou com coquetel e desfile, apresentando produtos e o novo conceito visual da empresa.
A escolha da matriz de Inhumas para simbolizar a mudança também carrega significado.
É na cidade onde parte importante dessa história foi construída que a Bella Renda inicia mais uma etapa de expansão e reposicionamento.
Depois de 24 anos, a marca poderia simplesmente celebrar o tempo de mercado.
Escolheu mudar.
Essa capacidade de se renovar sem abandonar aquilo que formou a identidade do negócio aparece sintetizada na frase adotada para a nova fase:
“A mesma essência, uma nova experiência.”
Mulheres já lideram 44% dos negócios ativos em Goiás
A história acontece em um estado onde o protagonismo feminino nos negócios ganhou dimensão econômica significativa.
Dados divulgados em 2026 pelo Sebrae Goiás mostram que aproximadamente 435 mil empresas goianas são lideradas por mulheres, o equivalente a 44% dos negócios ativos no estado. Em seis anos, o número de empresas sob liderança feminina cresceu 135%.
O levantamento aponta ainda cerca de 374 mil mulheres empreendedoras em Goiás.
Outro dado ajuda a compreender por que empreendedorismo feminino não pode ser observado apenas como realização profissional: 53% das empreendedoras goianas são responsáveis pelo sustento do próprio domicílio.
Ou seja, por trás de boa parte dessas empresas há também famílias cuja renda depende diretamente da capacidade daquela mulher de manter o negócio funcionando.
A formalização, entretanto, continua sendo um desafio. Segundo o mesmo estudo, quase metade das empresas comandadas por mulheres está enquadrada como Microempreendedor Individual (MEI), e 55% das empreendedoras ainda atuavam sem CNPJ em 2025 — percentual que, apesar de elevado, caiu em comparação com anos anteriores.
Empreender enquanto se é mãe ainda exige conciliações
É impossível contar a origem da Bella Renda sem falar de maternidade.
Foi justamente depois do nascimento do segundo filho que Selma percebeu como estava difícil continuar trabalhando fora.
Esse ponto aproxima sua trajetória da realidade de muitas brasileiras para quem empreender não começa necessariamente com uma oportunidade de mercado identificada em uma planilha.
Começa com uma pergunta prática:
Como continuar produzindo renda sem abrir mão de estar presente em casa?
No caso de Selma, a resposta passou primeiro pelas vendas e depois pela costura.
As quatro máquinas instaladas na sala representavam uma solução doméstica para um problema real.
Anos depois, aquilo que começou como alternativa para conciliar diferentes papéis femininos tornou-se uma rede com quatro endereços.
É nesse aspecto que histórias empresariais como a da Bella Renda ultrapassam a vitrine.
Elas mostram como maternidade, independência financeira e empreendedorismo frequentemente estão conectados na trajetória de mulheres que criam seus próprios caminhos profissionais.
Permanecer também é uma forma de crescer
No empreendedorismo, costuma-se falar muito sobre negócios que surgem.
Menos sobre aqueles que permanecem.
Segundo o Sebrae, o ambiente empresarial feminino em Goiás vive um momento de expansão, com maior presença das mulheres na geração de renda, formalização e liderança de empresas. Ao mesmo tempo, programas como o Sebrae Delas continuam trabalhando questões relacionadas à gestão, competitividade, negociação, liderança e independência financeira, mostrando que abrir um negócio é apenas uma das etapas da jornada.
A Bella Renda chega aos 24 anos justamente demonstrando outro lado dessa equação: a capacidade de atravessar ciclos.
Começou vendendo roupas.
Encontrou seu espaço na lingerie.
Passou a produzir.
Abriu lojas.
Expandiu para Goiânia.
Incorporou a moda praia.
E agora reorganiza suas marcas para começar mais um capítulo.
Das máquinas na sala ao desfile da nova matriz
Talvez a imagem que melhor represente essa trajetória esteja no contraste entre dois momentos.
De um lado, uma jovem mãe aprendendo a costurar e acomodando quatro máquinas dentro da própria sala.
Do outro, 24 anos depois, clientes reunidos diante de uma passarela na reinauguração de uma loja que faz parte de uma rede de quatro unidades.
Entre essas duas cenas estão anos de trabalho que não aparecem em uma fotografia de inauguração: dias de vendas fracas, contas para pagar, decisões erradas, mudanças de rota e a necessidade de continuar quando seria mais fácil parar.
Selma não esconde essa parte.
Reconhece que houve acontecimentos bons e ruins.
Talvez por isso a nova fase da Bella Renda tenha um significado maior do que simplesmente trocar uma identidade visual ou reunir duas marcas sob o mesmo teto.
Para a empresária, renovar não significa apagar a história.
Significa permitir que ela continue.
A Bella Renda que nasceu há 24 anos já não cabe em quatro máquinas na sala de casa. Hoje ocupa vitrines em duas cidades, ganhou uma marca-irmã e emprega uma história que cresceu junto com sua fundadora.
Mas a essência daquele primeiro movimento permanece reconhecível: uma mulher que queria vender, decidiu aprender e transformou uma necessidade em negócio.
Em um Goiás onde centenas de milhares de mulheres já comandam empresas, a trajetória de Selma Ferreira ajuda a lembrar que algumas das maiores histórias do empreendedorismo não começam com grandes investimentos.
Às vezes, começam com quatro máquinas, uma sala de casa e a decisão de tentar.


