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Treinamento progressivo, escolha adequada da distância, alimentação já testada, hidratação, atenção ao clima e respeito aos sinais do corpo fazem diferença entre uma estreia prazerosa e uma experiência marcada por exaustão ou lesões

A música começa a tocar, centenas ou milhares de pessoas se aproximam da linha de largada e a contagem regressiva transforma semanas de treinamento em alguns segundos de expectativa. Para quem participa de uma corrida de rua pela primeira vez, completar os primeiros 5 km pode ter um significado muito maior do que o número registrado no relógio.

Mas a preparação para uma prova começa muito antes de prender o número de peito à camiseta.

Correr é uma atividade acessível e capaz de oferecer importantes benefícios à saúde, mas uma competição impõe ao organismo uma demanda diferente daquela de uma caminhada ocasional ou de alguns minutos na esteira. Percurso, velocidade, temperatura, hidratação, alimentação e até a empolgação da largada podem alterar significativamente o esforço planejado.

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A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos acumulem semanalmente entre 150 e 300 minutos de atividade aeróbica moderada ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Corrida pode fazer parte dessa rotina, desde que intensidade e volume sejam compatíveis com a condição de cada pessoa.

Para quem pretende transformar os treinos em uma primeira prova, portanto, a principal recomendação é simples: o desafio deve começar antes da largada, mas não precisa começar no limite.

A primeira prova deve combinar com aquilo que foi treinado

Uma corrida oficial não deveria ser utilizada para descobrir se alguém consegue completar determinada distância pela primeira vez.

Se a inscrição é para 5 km, 10 km ou uma meia maratona, o organismo precisa ter sido progressivamente preparado para esforços compatíveis com aquele desafio.

Pessoas que estavam sedentárias devem começar com volumes menores e aumentar duração, frequência e intensidade gradualmente. Essa progressão é recomendada tanto pela OMS quanto pelo Ministério da Saúde, que orienta iniciantes a começarem devagar e ampliarem a prática conforme a adaptação do corpo.

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Na prática, isso pode significar alternar caminhada e corrida nas primeiras semanas, aumentar gradativamente o tempo correndo e permitir que músculos, tendões, articulações e sistema cardiovascular se adaptem.

O objetivo da primeira prova não precisa ser correr no ritmo dos atletas ao redor.

Para muitos iniciantes, terminar bem — ainda que alternando caminhada e corrida — é uma conquista mais importante do que perseguir um tempo incompatível com o treinamento.

Todo mundo precisa fazer exames antes de correr?

Não necessariamente.

A recomendação moderna não é submeter indiscriminadamente toda pessoa saudável a uma bateria de exames antes de iniciar uma atividade física.

O American College of Sports Medicine (ACSM) orienta que pessoas que não praticam exercícios regularmente, mas não apresentam doença cardiovascular, metabólica ou renal conhecida nem sinais ou sintomas sugestivos dessas condições, podem começar com exercícios de intensidade leve a moderada e evoluir gradualmente.

O cenário muda quando existem doenças diagnosticadas, sintomas durante o esforço ou intenção de passar diretamente do sedentarismo para exercícios vigorosos.

Dor ou desconforto no peito, desmaios, tonturas, falta de ar desproporcional ao esforço, alterações incomuns na frequência cardíaca, dor que se irradia para pescoço, ombro ou braço e determinadas condições cardiovasculares, pulmonares ou metabólicas justificam avaliação profissional antes de aumentar a intensidade.

Pessoas com doenças crônicas, histórico relevante de saúde ou que tenham dúvidas sobre sua capacidade para determinada distância também podem se beneficiar de uma avaliação individualizada.

O ponto central não é transformar a corrida em algo perigoso.

É evitar que alguém sedentário tente, de uma hora para outra, reproduzir um esforço para o qual ainda não está preparado.

Fortalecimento também faz parte da corrida

Correr mais não é necessariamente a única forma de correr melhor.

Exercícios de força para pernas, quadril e tronco ajudam a compor uma preparação física mais completa. As diretrizes internacionais recomendam atividades de fortalecimento dos principais grupos musculares pelo menos duas vezes por semana, inclusive para pessoas que já realizam exercícios aeróbicos.

Também é preciso deixar espaço para recuperação.

Treinar intensamente todos os dias, ignorar dores e tentar compensar semanas perdidas aumentando subitamente a quilometragem pode transformar entusiasmo em lesão.

Dor muscular leve depois de um treino mais exigente pode fazer parte da adaptação. Dor persistente, localizada, que piora a cada corrida ou modifica a maneira de pisar merece outra atenção.

Descanso não é tempo perdido.

É parte do treinamento.

Não estreie o tênis na manhã da prova

A feira de kits costuma ser tentadora.

Tênis novo, meia nova, camiseta da prova e até acessórios recém-comprados parecem combinar perfeitamente com o grande dia. Para o corpo, porém, a novidade pode custar caro.

Tênis e roupas devem ser testados durante os treinos.

Um calçado que parece confortável durante alguns minutos dentro da loja pode provocar bolhas ou pontos de pressão depois de quilômetros. Camisetas podem causar atrito na pele, meias podem acumular umidade e acessórios aparentemente inofensivos podem incomodar conforme aumenta a transpiração.

Isso não significa que exista um único “tênis correto” para todas as pessoas.

Conforto, ajuste, tipo de treino, características individuais e histórico de lesões precisam ser considerados. A melhor escolha para o dia da prova costuma ser aquilo que o corredor já conhece.

A mesma regra vale para praticamente tudo que acompanha a corrida:

dia de prova não é o melhor momento para experimentar.

O jantar da véspera não precisa virar um banquete de macarrão

Outra tradição comum entre corredores é tentar garantir energia ingerindo uma quantidade extraordinária de carboidrato poucas horas antes da largada.

A estratégia alimentar depende da distância, da duração prevista da prova e das características individuais.

Em provas mais curtas, uma rotina alimentar adequada costuma ser muito mais relevante do que uma mudança radical na noite anterior. Estratégias específicas de aumento dos estoques de glicogênio ganham maior importância em provas longas, especialmente maratonas.

Na manhã da corrida, a World Athletics recomenda, para provas de distância, uma refeição familiar e rica em carboidratos cerca de duas a quatro horas antes da largada, evitando experimentar alimentos desconhecidos.

“Familiar” é uma palavra especialmente importante.

Uma tapioca que funciona durante o treino pode ser melhor escolha que um café da manhã sofisticado que o organismo nunca recebeu antes de correr.

O mesmo vale para café, isotônicos, suplementos e géis.

O sistema gastrointestinal também é treinável — e pode reagir mal quando recebe uma novidade justamente durante um esforço intenso.

Gel de carboidrato não é obrigatório em toda corrida

A popularização das corridas colocou os sachês de carboidrato em praticamente toda largada.

Mas uma prova curta não exige automaticamente suplementação durante o percurso.

Diretrizes da World Athletics indicam que, em esforços inferiores a aproximadamente 45 minutos, ingestão de carboidrato durante a atividade geralmente não é necessária. Conforme a duração aumenta, a reposição energética passa a ter maior relevância. Em provas de uma a duas horas e meia, referências esportivas trabalham frequentemente com algo em torno de 30 a 60 gramas de carboidrato por hora, dependendo do atleta, da duração e da tolerância gastrointestinal.

Isso não significa que um corredor iniciante deva fazer contas sozinho e começar a consumir vários géis.

A estratégia deve ser testada previamente nos treinos e individualizada quando necessário com orientação nutricional.

Mais suplemento não significa necessariamente mais energia.

Também pode significar náusea, dor abdominal e uma corrida inteira procurando um banheiro.

Hidratação exige equilíbrio — inclusive para não beber água demais

Chegar desidratado à largada prejudica o desempenho e pode aumentar a sobrecarga provocada pelo calor. Mas existe outro extremo igualmente importante: ingerir líquido exageradamente sem necessidade.

A World Athletics alerta que corredores não devem consumir tanto líquido durante uma prova a ponto de terminarem pesando mais do que no início. O excesso de ingestão pode contribuir para hiponatremia associada ao exercício, condição potencialmente grave relacionada à redução da concentração de sódio no sangue.

A necessidade de líquidos varia enormemente.

Temperatura, umidade, ritmo, duração da prova, tamanho corporal, intensidade da transpiração e adaptação individual modificam quanto cada pessoa perde.

Por isso, não existe uma quantidade universal que todos devam beber a cada posto.

Para provas longas, corredores mais experientes podem estimar a própria taxa de suor durante treinos e desenvolver estratégias individualizadas. Para o praticante recreativo, a mensagem principal é evitar dois erros: começar desidratado e transformar cada ponto de hidratação em obrigação de consumir grandes volumes.

Calor muda completamente a corrida

Uma pessoa pode estar preparada para correr 10 km e, ainda assim, descobrir que os mesmos 10 km se tornam muito mais exigentes em um dia quente e úmido.

O exercício aumenta a produção de calor pelo organismo. Em ambientes quentes, o corpo precisa simultaneamente sustentar os músculos em atividade e enviar maior fluxo sanguíneo à pele para dissipar calor.

A desidratação reduz ainda mais a tolerância ao esforço e aumenta a carga térmica.

O CDC recomenda que pessoas que se exercitam em dias muito quentes reduzam o ritmo, iniciem a atividade progressivamente, mantenham hidratação e fiquem atentas a sinais como fraqueza e sensação de desmaio.

Isso significa que o pace planejado semanas antes talvez precise ser abandonado.

Em determinadas condições, insistir em um recorde pessoal deixa de ser disciplina e passa a ser um risco desnecessário.

Organizações esportivas também consideram temperatura, umidade e exposição ao sol na avaliação do risco térmico de corridas de rua. A World Athletics mantém diretrizes específicas para competições realizadas em ambientes extremos.

A empolgação da largada pode ser uma armadilha

Poucos treinos reproduzem exatamente a sensação de uma largada.

Música, locutor, torcida, relógios disparando e centenas de pessoas correndo juntas provocam uma descarga de entusiasmo capaz de fazer o iniciante acelerar sem perceber.

O problema costuma aparecer alguns quilômetros depois.

Quem treinou para correr a determinado ritmo e começa muito mais rápido precisa pagar essa diferença com fadiga precoce.

Por isso, uma das estratégias mais simples para estreantes é controlar deliberadamente os primeiros minutos.

Em provas muito cheias, também é importante respeitar o posicionamento das baias de largada. Corredores mais lentos e pessoas que pretendem caminhar devem evitar ocupar a frente de atletas que sairão em ritmo muito alto, diminuindo ultrapassagens bruscas e choques.

A corrida de rua é coletiva na largada, mas o ritmo continua sendo individual.

Conhecer o percurso evita surpresas.