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Avistada pela primeira vez em 2015 na Austrália, Inspector Clouseau chama atenção pela intensa coloração rosada; análises descartaram alimentação e infecção como explicações, enquanto pesquisadores investigam uma possível alteração genética de pigmentação

Em meio ao azul intenso da Grande Barreira de Corais, na Austrália, uma criatura parece ter saído de uma pintura.

Ela desliza pela água com o corpo largo e as nadadeiras abertas como asas. À primeira vista, tem o formato imponente de uma arraia-manta comum. Mas basta que vire o ventre em direção a um mergulhador para revelar algo extraordinário:

onde normalmente predominaria o branco, aparece um intenso tom de rosa.

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O animal é conhecido como Inspector Clouseau e, até hoje, é descrito pelo Project Manta como a única manta rosa conhecida no mundo. O macho foi registrado pela primeira vez em 2015 nas águas próximas a Lady Elliot Island, no extremo sul da Grande Barreira de Corais, em Queensland.

Seu apelido faz referência ao desastrado inspetor francês da franquia cinematográfica A Pantera Cor-de-Rosa.

Mas, por trás do nome divertido e das fotografias que viralizaram pelo mundo, existe uma história científica ainda cheia de perguntas.

Por que essa manta é rosa?

A resposta definitiva ainda não existe.

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Cerca de três metros e uma coloração nunca registrada antes

Inspector Clouseau mede aproximadamente três metros de largura, segundo pesquisadores que acompanham o animal.

Quando foi fotografado em 2015, sua aparência chamou atenção imediatamente porque o ventre das mantas daquela população normalmente apresenta uma base muito mais clara, acompanhada de manchas escuras individuais.

Essas manchas, aliás, possuem enorme importância para os pesquisadores.

O padrão na região ventral de cada manta é único e funciona de maneira semelhante a uma impressão digital, permitindo identificar indivíduos ao longo dos anos por fotografias.

Foi dessa maneira que Inspector Clouseau passou a integrar o banco de dados do Project Manta, onde recebeu a identificação #900.

O programa científico acompanha as mantas da costa leste australiana e utiliza registros de pesquisadores, mergulhadores e turistas para estudar movimentos, crescimento, distribuição e comportamento desses animais.

Atualmente, o projeto informa possuir aproximadamente 1.700 mantas identificadas ao longo da costa leste da Austrália, das quais cerca de 75% foram registradas nas águas próximas a Lady Elliot Island.

Entre todas elas, apenas uma é rosa.

Quando foi vista pela primeira vez, pesquisadores pensaram em uma doença

A primeira hipótese não envolvia genética.

Quando imagens do animal chegaram aos pesquisadores em 2015, cientistas consideraram a possibilidade de a coloração incomum resultar de algum tipo de infecção ou alteração na pele.

Naquele primeiro registro, o instrutor de mergulho Ryan Jeffery encontrou a manta próxima a Lady Elliot Island e percebeu imediatamente a diferença de tonalidade em relação aos outros indivíduos.

O animal permaneceu por cerca de meia hora na área e permitiu que fossem registrados vídeos e fotografias.

A coloração era tão incomum que exigia investigação.

Nos anos seguintes, porém, novos avistamentos começaram a mostrar uma informação importante:

Inspector Clouseau continuava rosa.

E aparentemente saudável.

Uma pequena amostra de pele ajudou a eliminar hipóteses

Em 2016, pesquisadores do Project Manta conseguiram retirar uma pequena biópsia de tecido do animal.

O objetivo era entender se a aparência poderia ter origem em uma doença ou na alimentação.

As análises ajudaram a descartar essas duas possibilidades.

Esse resultado é especialmente interessante porque a natureza oferece vários exemplos de animais cuja alimentação interfere diretamente na cor.

Os flamingos, por exemplo, obtêm parte de sua famosa tonalidade a partir de pigmentos presentes nos alimentos que consomem.

Inspector Clouseau aparentemente não segue essa lógica.

A hipótese de uma infecção também perdeu força não apenas pelos resultados da análise, mas pelo acompanhamento do próprio animal.

Pesquisadores relataram que ele apresenta boa condição corporal e comportamento compatível com outras mantas, inclusive participando de interações reprodutivas.

Nem vasos sanguíneos parecem explicar o rosa

Outra possibilidade investigada foi a chamada hipervascularização.

A ideia era que vasos sanguíneos muito próximos da superfície da pele pudessem produzir a aparência rosada.

Pesquisadores compararam, porém, o tecido de Inspector Clouseau ao de mantas com coloração habitual e não encontraram diferenças que explicassem o fenômeno dessa maneira.

A investigação passou, então, a apontar para outra direção.

Genética.

Uma mutação na pigmentação é hoje a principal hipótese

A explicação considerada mais provável pelos pesquisadores é uma alteração genética relacionada à expressão dos pigmentos da pele.

O Project Manta trabalha com a hipótese de que alguma mutação esteja interferindo na produção ou distribuição de melanina do animal.

Uma condição frequentemente associada ao caso é o chamado eritrisma.

O termo descreve alterações de pigmentação que deixam animais com tonalidades avermelhadas ou rosadas incomuns.

É um fenômeno raro, comparável, em termos gerais de alteração de cor, a outras condições pigmentares observadas na natureza, como albinismo ou melanismo.

A National Geographic apontou o eritrisma como uma provável explicação para Inspector Clouseau, mas ressaltou que os pesquisadores ainda não conheciam com certeza o mecanismo responsável pela aparência.

Portanto, existe uma diferença importante:

é plausível dizer que uma alteração genética de pigmentação é atualmente a principal hipótese.

Ainda não é correto afirmar que o eritrisma foi definitivamente comprovado nesse indivíduo.

Por que ele é tão importante para a ciência?

Uma manta rosa é visualmente espetacular.

Mas para pesquisadores seu valor vai muito além da fotografia.

Animais com características extremamente raras podem ajudar cientistas a compreender melhor os mecanismos responsáveis pela pigmentação, diversidade genética e evolução de uma espécie.

No caso de Inspector Clouseau, uma pergunta particularmente interessante é saber se a característica possui potencial hereditário.

Ele já foi observado participando de comportamentos de corte com fêmeas.

Pesquisadores, porém, não sabem se a alteração responsável pela coloração pode ser transmitida aos descendentes.

Até agora, nenhum outro indivíduo rosa foi documentado pelo projeto.

Se algum descendente com característica semelhante aparecesse, seria uma pista valiosa para investigar a origem genética do fenômeno.

Os registros são extremamente raros

Apesar da fama internacional, encontrar Inspector Clouseau não é tarefa simples.

Até 2020, ele havia sido observado apenas sete vezes desde a descoberta, segundo pesquisadores entrevistados pela ABC Australia.

Naquele mesmo período, imagens feitas pelo fotógrafo australiano Kristian Laine ajudaram a transformar o animal em fenômeno mundial.

Laine estava mergulhando quando encontrou a manta entre vários outros machos.

Inicialmente, chegou a desconfiar das próprias fotografias pela intensidade do rosa.

Depois descobriu que havia registrado justamente Inspector Clouseau.

Em agosto de 2022, o animal voltou a ser registrado nas proximidades de Lady Elliot Island depois de um longo período sem avistamentos documentados publicamente. A ABC informou na ocasião que havia sido a primeira observação em aproximadamente três anos.

O Project Manta continua apresentando Inspector Clouseau atualmente como a única manta rosa registrada no mundo.

Lady Elliot Island virou uma espécie de casa das mantas

O cenário dessa história também é especial.

Lady Elliot Island é uma pequena ilha coralínea situada no extremo sul da Grande Barreira de Corais.

As águas da região se tornaram um dos principais pontos australianos de estudo das mantas.

O Project Manta foi criado em 2007 para investigar a biologia populacional e a ecologia desses animais na costa leste da Austrália. Atualmente, o programa é ligado à University of the Sunshine Coast e conta com apoio, entre outras instituições, de Lady Elliot Island Eco Resort e Great Barrier Reef Foundation.

A região concentra uma parcela impressionante dos indivíduos cadastrados pelo programa.

Dos cerca de 1.700 animais identificados na costa leste australiana, aproximadamente 1.275 tiveram registros nas águas ao redor de Lady Elliot Island, segundo os números atuais divulgados pelo projeto.

Não por acaso, o local ganhou o apelido de “Home of the Manta Ray” — Casa das Mantas.

Gigantes que se alimentam de organismos minúsculos

A aparência imponente pode enganar.

As mantas são gigantes, mas alimentam-se principalmente de organismos muito pequenos presentes na água.

São animais filtradores, que capturam plâncton e outros organismos microscópicos enquanto nadam.

E, ao contrário de algumas espécies de arraias conhecidas pelo ferrão na cauda, as mantas não possuem ferrão venenoso.

Inspector Clouseau pertence à população de mantas-de-recife acompanhada pelo Project Manta, ligada à espécie Mobula alfredi.

O próprio projeto destaca que a manta-de-recife é classificada como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, situação associada sobretudo à pesca direcionada em partes de sua distribuição e às características reprodutivas lentas da espécie.

Mantas têm uma estratégia de vida que aumenta sua vulnerabilidade

Uma das razões para a preocupação com a conservação está na própria biologia desses animais.

Mantas não produzem grandes quantidades de filhotes rapidamente.

Elas possuem uma estratégia reprodutiva lenta, o que significa que populações afetadas por mortalidade elevada podem demorar muito tempo para se recuperar.

Por isso, compreender onde vivem, por onde se deslocam e quais ambientes utilizam é fundamental para protegê-las.

Entre 2021 e 2024, o Project Manta instalou transmissores de satélite em 14 mantas para investigar melhor o uso do habitat.

Inspector Clouseau é apenas um indivíduo dentro de uma pesquisa muito maior.

Mas sua aparência incomum tornou-se uma poderosa janela para esse trabalho.

Fotografias de turistas também viram ciência

Talvez uma das partes mais interessantes do projeto seja a participação de pessoas comuns.

Mergulhadores e turistas que fotografam mantas podem enviar seus registros para o banco de dados do Project Manta.

Como o padrão de manchas ventrais identifica cada indivíduo, uma simples fotografia pode ajudar pesquisadores a descobrir:

onde aquela manta esteve;

quanto cresceu;

quantos anos se passaram entre dois registros;

quais trajetórias percorreu;

e com quais outros indivíduos interagiu.

O programa incentiva explicitamente a chamada ciência cidadã e permite até que a pessoa que fotografe uma manta ainda não cadastrada participe do processo de identificação do novo indivíduo.

Foi justamente uma combinação entre ciência profissional e registros de mergulhadores que permitiu acompanhar Inspector Clouseau ao longo dos anos.

Uma cor que parece não atrapalhar sua vida

Uma pergunta inevitável é se ser rosa traz algum problema para o animal.

Até agora, os registros disponíveis não indicam que sua condição tenha provocado prejuízo evidente à saúde.

Pesquisadores observaram Inspector Clouseau em boa condição corporal, nadando normalmente e participando de interações com outras mantas.

Também foi fotografado em contexto de corte reprodutivo, acompanhando fêmeas juntamente com outros machos.

Isso não significa que cientistas conheçam todas as consequências biológicas de sua pigmentação.

Mas, até o momento, a aparência extraordinária parece ser principalmente isso:

uma característica extraordinária.

A natureza ainda consegue produzir o inesperado

Em uma época em que satélites fotografam o planeta inteiro, pesquisadores sequenciam genomas e câmeras submarinas registram ambientes antes inacessíveis, Inspector Clouseau é um lembrete curioso de quanto ainda existe para descobrir.

Ele não vive escondido em uma fossa oceânica a quilômetros de profundidade.

Está em uma das regiões marinhas mais estudadas e conhecidas do planeta.

Mesmo assim, apenas em 2015 alguém conseguiu registrar aquela combinação de características pela primeira vez.

Uma manta.

Três metros de largura.

Rosa.

E, mais de uma década depois do primeiro encontro, nenhum outro exemplar igual foi oficialmente documentado pelo programa que acompanha centenas de indivíduos na costa australiana.

Talvez futuras análises consigam determinar exatamente qual alteração genética criou a coloração.

Talvez outro animal rosa seja encontrado.

Talvez um descendente revele pistas sobre a hereditariedade da característica.

Por enquanto, Inspector Clouseau continua deslizando pelas águas da Grande Barreira de Corais carregando um dos mistérios mais coloridos da vida marinha.

E mostrando que, mesmo entre milhares de indivíduos de uma mesma espécie, a natureza ainda encontra maneiras de criar algo aparentemente único.

Fontes: Project Manta/University of the Sunshine Coast, ABC Australia e National Geographic.