Pesquisa com 387 mulheres na pós-menopausa encontrou menor ocorrência de osteopenia e osteoporose entre usuárias de terapia hormonal; especialistas reforçam que tratamento deve ser individualizado
A terapia hormonal utilizada na menopausa pode trazer um benefício que vai além do controle de ondas de calor, suor noturno e outros sintomas dessa fase: ajudar a preservar a saúde dos ossos.
Um estudo apresentado no congresso internacional ENDO 2026, da Endocrine Society, encontrou uma associação expressiva entre o uso da terapia hormonal da menopausa e maior densidade mineral óssea.
Entre as 387 mulheres avaliadas, aquelas que utilizavam terapia hormonal apresentaram 69% menor chance de ter baixa densidade mineral óssea, definida no estudo como osteopenia ou osteoporose, em comparação com aquelas que não utilizavam o tratamento.
O resultado chama atenção especialmente porque a perda de massa óssea acelera após a menopausa e pode, com o passar dos anos, aumentar o risco de fraturas.
Mas o número de 69% exige contexto.
A pesquisa foi observacional e retrospectiva. Isso significa que os pesquisadores analisaram mulheres que já usavam ou não terapia hormonal, em vez de distribuir aleatoriamente o tratamento entre participantes.
Por isso, o trabalho mostra uma forte associação, mas não significa que toda mulher que iniciar hormônios reduzirá automaticamente seu risco em exatamente 69%.
Por que a menopausa afeta tanto os ossos?
Os ossos estão em permanente renovação.
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Ao longo da vida, tecido ósseo antigo é reabsorvido enquanto novo tecido é produzido.
O estrogênio participa desse equilíbrio, ajudando a limitar a perda óssea.
Quando os níveis hormonais caem durante a transição para a menopausa, a reabsorção pode passar a ocorrer em ritmo maior que a formação.
Segundo o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), a queda do estrogênio desencadeia um período de perda óssea acelerada que começa próximo à última menstruação.
Com o tempo, algumas mulheres desenvolvem osteopenia, quando a densidade está abaixo do esperado, mas ainda não atingiu os critérios de osteoporose.
Em estágio mais avançado, surge a osteoporose, condição em que os ossos ficam mais frágeis e suscetíveis a fraturas, principalmente na coluna, no quadril e no punho.
O que o novo estudo analisou?
Os pesquisadores avaliaram 387 mulheres na pós-menopausa submetidas a exames de densitometria óssea entre 2021 e 2025.
Do total:
129 mulheres, ou 33,3%, usavam terapia hormonal da menopausa;
258, ou 66,7%, não utilizavam.
A densidade dos ossos foi medida por DXA, técnica considerada padrão para avaliação da densidade mineral óssea.
Os autores classificaram como baixa densidade mineral óssea a presença de osteopenia ou osteoporose.
No grupo completo, essa condição foi encontrada em 186 mulheres, equivalentes a 48,1% das participantes.
Usuárias apresentaram ossos mais densos
As diferenças foram observadas em regiões particularmente importantes para o risco de fraturas.
Na coluna lombar, as usuárias da terapia hormonal apresentaram T-score médio de -0,62, contra -1,02 entre as mulheres que não utilizavam hormônios.
No quadril total, os valores médios foram de -0,32 entre as usuárias e -0,81 entre as não usuárias.
Quanto mais baixo o T-score, menor é a densidade óssea.
Depois de ajustar a análise para fatores como idade, tempo desde a menopausa, índice de massa corporal, níveis de vitamina D, tabagismo e doenças metabólicas, a associação permaneceu.
O uso de terapia hormonal esteve relacionado a 69% menor chance de baixa densidade mineral óssea, com odds ratio de 0,31.
Isso significa 69% menos fraturas?
Não.
Essa distinção é fundamental.
O estudo analisou principalmente densidade mineral óssea, e não acompanhou prospectivamente as mulheres para demonstrar uma redução de 69% nas fraturas.
Baixa densidade óssea é um importante fator relacionado ao risco de fratura, mas os dois conceitos não são idênticos.
Portanto, manchetes dizendo que a terapia hormonal “reduziu fraturas em 69%” extrapolariam os resultados apresentados.
O que o estudo permite afirmar é:
mulheres que utilizavam terapia hormonal apresentaram 69% menor chance estatística de osteopenia ou osteoporose naquele grupo analisado.
Resultado não surgiu do nada
A relação entre terapia hormonal e proteção óssea já é conhecida há anos.
A novidade do estudo está em mostrar esse efeito em uma população acompanhada na prática clínica contemporânea.
A International Menopause Society, em suas recomendações mais recentes, afirma que a terapia hormonal é uma estratégia de primeira linha para a prevenção da perda óssea relacionada à menopausa em mulheres adequadamente selecionadas. Também há evidências de redução de fraturas associadas à osteoporose.
A Menopause Society igualmente reconhece que a terapia hormonal previne perda óssea e fraturas, embora ressalte a necessidade de individualizar a decisão conforme idade, momento de início, dose, formulação, via de administração e perfil de risco de cada paciente.
Por que o momento de iniciar importa?
Um conceito importante na medicina da menopausa é a chamada janela de oportunidade.
Para grande parte das mulheres saudáveis e sintomáticas, o equilíbrio entre benefícios e riscos tende a ser mais favorável quando a terapia é iniciada:
antes dos 60 anos;
ou
dentro dos primeiros dez anos após o início da menopausa.
Essa recomendação aparece tanto nas orientações da International Menopause Society quanto da Menopause Society.
Isso não significa que toda mulher nessa faixa precise usar hormônios.
Significa que idade e tempo desde a menopausa fazem parte da avaliação de segurança.
Iniciar terapia muitos anos depois pode representar um perfil de risco diferente.
Terapia hormonal não é um tratamento único
Falar em “reposição hormonal” pode dar a impressão de que existe uma única medicação.
Na prática, existem diferentes esquemas.
A terapia pode envolver:
estrogênio isolado;
estrogênio combinado a progesterona ou outro progestogênio;
comprimidos;
adesivos transdérmicos;
géis;
sprays;
ou formulações locais para determinadas indicações.
Mulheres que ainda possuem útero geralmente precisam de proteção endometrial com progesterona ou progestogênio quando usam estrogênio sistêmico, porque o estrogênio isolado pode estimular excessivamente o endométrio.
A escolha da formulação interfere tanto nos benefícios quanto nos riscos.
Terapia transdérmica e oral não têm exatamente o mesmo perfil
A via de administração também pode fazer diferença.
As recomendações internacionais destacam que o estrogênio oral está associado a aumento do risco de tromboembolismo venoso em determinadas pacientes.
O estrogênio transdérmico, administrado por adesivo ou gel, apresenta perfil diferente e pode ser preferido em algumas mulheres com maior risco de trombose.
Isso é mais uma razão pela qual não existe uma receita universal para a menopausa.
A decisão envolve:
idade;
histórico médico;
antecedentes familiares;
pressão arterial;
peso;
risco cardiovascular;
histórico de trombose;
risco de câncer de mama;
presença ou ausência de útero;
intensidade dos sintomas;
e objetivos do tratamento.
Há mulheres para quem terapia hormonal não é indicada
Apesar dos benefícios, terapia hormonal sistêmica não é apropriada para todas.
O ACOG afirma que ela geralmente não é recomendada para mulheres com histórico de algumas condições, entre elas:
câncer de mama ou endométrio;
acidente vascular cerebral;
infarto;
trombose;
doença hepática.
Cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Mesmo situações que parecem semelhantes podem exigir condutas diferentes dependendo do tipo de doença, tempo decorrido, tratamento realizado e outros fatores clínicos.
E o risco de câncer de mama?
Esse é um dos temas que mais geram preocupação.
O risco não é igual para todos os esquemas de terapia hormonal.
Ele depende, entre outros fatores, de:
tipo de hormônio;
combinação utilizada;
tempo de uso;
idade;
e risco individual de base.
As recomendações de 2025 da International Menopause Society destacam que o aumento de risco observado em alguns estudos está especialmente relacionado a determinados esquemas combinados de estrogênio com progestogênio e ao tempo de exposição.
Isso significa que a discussão não deve ser reduzida a duas afirmações extremas:
“hormônio causa câncer”
ou
“hormônio não tem risco”.
As duas simplificam excessivamente uma questão que depende do perfil da paciente e do tratamento escolhido.
Estudo encontrou outro fator importante: cigarro
A pesquisa apresentada no ENDO 2026 também identificou outros fatores associados à saúde óssea.
O tabagismo apareceu relacionado a uma chance mais elevada de baixa densidade mineral óssea.
No modelo estatístico ajustado, fumantes apresentaram odds aproximadamente 2,25 vezes maiores de baixa densidade óssea.
Além disso, a cada ano adicional desde a menopausa, aumentava a associação com baixa densidade óssea.
Níveis mais elevados de vitamina D apareceram associados a efeito protetor no modelo.
Esses resultados reforçam um ponto importante:
a saúde do esqueleto não depende de apenas um hormônio ou de apenas um medicamento.
Exercício também faz parte da proteção dos ossos
Mesmo para mulheres que utilizam terapia hormonal, hábitos de vida permanecem fundamentais.
Atividades de fortalecimento muscular e exercícios que impõem carga aos ossos ajudam na manutenção da saúde óssea.
Também entram nessa equação:
alimentação adequada;
consumo suficiente de cálcio;
vitamina D quando necessária;
não fumar;
reduzir consumo excessivo de álcool;
e prevenção de quedas.
A terapia hormonal não substitui essas medidas.
Ela pode fazer parte de uma estratégia mais ampla.
Quem precisa fazer densitometria?
A densitometria óssea mede a quantidade de mineral presente nos ossos e auxilia no diagnóstico de osteoporose e na estimativa do risco de fraturas.
A indicação do exame depende de idade e fatores de risco.
História familiar de fraturas, menopausa precoce, baixo peso, tabagismo, uso prolongado de determinados medicamentos e algumas doenças podem aumentar a necessidade de avaliação mais precoce.
A decisão deve ser feita com o profissional que acompanha a paciente.
Osteopenia não é igual a osteoporose
Essa diferença também merece atenção porque o novo estudo agrupou as duas condições sob o termo “baixa densidade mineral óssea”.
A osteopenia representa uma redução da densidade óssea que ainda não atingiu o nível usado para diagnosticar osteoporose.
A osteoporose representa uma perda mais acentuada e está associada a maior fragilidade do esqueleto.
Na densitometria, o T-score é uma das medidas utilizadas para classificar a densidade mineral óssea em mulheres após a menopausa.
Agrupar osteopenia e osteoporose é útil para determinadas análises científicas, mas não significa que as duas condições tenham exatamente a mesma gravidade ou exijam sempre o mesmo tratamento.
Pesquisa tem limitações importantes
Apesar do resultado expressivo, existem razões para interpretar o estudo com cautela.
Primeiro, foram analisadas 387 mulheres, uma amostra relativamente limitada.
Segundo, o trabalho foi uma coorte retrospectiva, e não um ensaio clínico randomizado.
Os pesquisadores ajustaram a análise para diferentes variáveis que poderiam interferir na densidade óssea, mas estudos observacionais não conseguem eliminar completamente todos os chamados fatores de confusão.
Também é importante destacar que o resultado foi apresentado como resumo científico no ENDO 2026, congresso da Endocrine Society.
Ou seja, trata-se de evidência interessante e coerente com conhecimentos já estabelecidos sobre o papel do estrogênio nos ossos, mas o número específico de 69% não deve ser interpretado como uma promessa individual de benefício.
Não é motivo para começar hormônio por conta própria
Talvez esse seja o principal cuidado ao divulgar a pesquisa.
Uma mulher não deve concluir que precisa iniciar terapia hormonal exclusivamente porque leu que ela pode proteger os ossos.
Antes da prescrição, é necessário analisar riscos, sintomas, idade, tempo de menopausa, histórico pessoal e familiar e alternativas terapêuticas.
Para algumas mulheres, terapia hormonal pode ser uma excelente opção.
Para outras, medicamentos específicos para osteoporose podem ser mais adequados.
E há pacientes que podem precisar apenas de acompanhamento e medidas preventivas naquele momento.
Mulheres com alto risco de fratura podem precisar de outros medicamentos
A terapia hormonal não substitui todas as terapias disponíveis para osteoporose.
As recomendações da International Menopause Society destacam que medicamentos como os bisfosfonatos têm eficácia comprovada na prevenção de fraturas e são indicados especialmente para mulheres com risco alto ou muito alto de fratura.
Existem ainda outras classes de medicamentos utilizadas conforme o perfil da paciente.
Portanto, uma mulher já diagnosticada com osteoporose importante não deve trocar ou suspender sua medicação para iniciar hormônios sem orientação médica.
O que o estudo realmente acrescenta
O resultado não descobriu pela primeira vez que estrogênio influencia os ossos.
Essa relação já é conhecida.
O que chama atenção é que, em uma população contemporânea de mulheres acompanhadas na prática clínica, o uso de terapia hormonal continuou associado a uma diferença expressiva na densidade óssea mesmo depois de os pesquisadores ajustarem fatores como idade, tempo desde a menopausa, tabagismo, vitamina D e condições metabólicas.
Para o pesquisador Diego Espinoza-Peralta, responsável pelo estudo, os achados reforçam a necessidade de reconsiderar o papel da terapia hormonal em mulheres adequadamente selecionadas, não apenas para sintomas da menopausa, mas também como parte da preservação óssea.
O que sabemos até agora
Quantas mulheres participaram?
387 mulheres na pós-menopausa.
Quantas usavam terapia hormonal?
129, ou 33,3%.
O que foi considerado baixa densidade óssea?
Osteopenia ou osteoporose.
Quantas apresentaram baixa densidade no total?
186 mulheres, ou 48,1%.
Qual foi o principal resultado?
O uso de terapia hormonal esteve associado a 69% menor chance de baixa densidade mineral óssea após ajustes estatísticos.
Isso significa 69% menos fraturas?
Não. O estudo avaliou principalmente densidade óssea.
Prova que os hormônios causaram a diferença?
Não. É um estudo observacional.
A terapia hormonal protege os ossos?
Há um conjunto amplo de evidências mostrando que a terapia hormonal previne a perda óssea relacionada à menopausa e pode reduzir fraturas em mulheres adequadamente selecionadas.
Toda mulher deve fazer terapia hormonal?
Não. A decisão precisa ser individualizada.
Um benefício que precisa ser colocado na balança
Durante muito tempo, a discussão sobre terapia hormonal ficou concentrada quase exclusivamente nos possíveis riscos.
A medicina atual trabalha com uma visão mais individualizada.
Hormônios não são indicados indiscriminadamente.
Também não precisam ser descartados indiscriminadamente.
Para mulheres saudáveis, especialmente nos primeiros anos após a menopausa e sem contraindicações, sociedades médicas reconhecem que os benefícios podem superar os riscos quando existe indicação adequada.
E a saúde óssea faz parte dessa equação.
O novo estudo acrescenta um número expressivo à discussão: 69% menor chance de baixa densidade mineral óssea entre as usuárias analisadas.
Não é uma promessa de que qualquer mulher terá o mesmo resultado.
Mas reforça algo que a ciência já vinha mostrando:
com a queda do estrogênio, os ossos passam a merecer atenção especial — e, para algumas mulheres, a terapia hormonal pode ser uma ferramenta importante para protegê-los.
Fontes: Endocrine Society/ENDO 2026; International Menopause Society; The Menopause Society; American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).



