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Combinação de litotripsia intravascular e balão farmacológico apresentou resultados promissores em pacientes com artérias coronárias pequenas e severamente calcificadas; estudo com participação brasileira abre caminho para tratar casos selecionados sem deixar uma estrutura metálica permanente no coração

Uma estratégia que combina ondas de choque dentro da artéria com um balão revestido de medicamento pode abrir uma nova possibilidade para pacientes com um dos quadros mais desafiadores da cardiologia intervencionista: artérias coronárias pequenas, estreitadas e severamente calcificadas.

O tratamento foi avaliado em uma pesquisa internacional envolvendo o Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, e a Universidade de Verona, na Itália, e apresentado no EuroPCR 2026, um dos principais congressos mundiais dedicados às intervenções cardiovasculares. A proposta une duas tecnologias já utilizadas na cardiologia — a litotripsia intravascular (IVL) e o balão farmacológico (DCB) — com um objetivo diferente: tratar determinadas obstruções sem precisar deixar um stent metálico permanentemente dentro da artéria.

O estudo foi planejado para incluir 50 pacientes com doença coronariana e lesões novas em vasos com menos de 3 milímetros de diâmetro, obstrução superior a 50% e calcificação grave. Os participantes foram tratados no Brasil e na Itália.

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Os primeiros resultados chamaram atenção: segundo os pesquisadores, não houve morte cardíaca, infarto nem necessidade de uma nova revascularização relacionada à lesão tratada durante o primeiro mês de acompanhamento.

Os dados são animadores, mas ainda preliminares. O trabalho é exploratório, não possui um grupo randomizado de comparação com o tratamento convencional e envolve um número relativamente pequeno de pacientes. Portanto, não demonstra que os stents estejam sendo substituídos nem que a estratégia seja adequada para qualquer obstrução coronariana.

A novidade está justamente em mostrar que, em pacientes cuidadosamente selecionados, pode ser possível tratar uma artéria extremamente endurecida pelo cálcio, entregar um medicamento à parede do vaso e retirar todos os dispositivos ao final do procedimento.

Por que uma artéria calcificada é tão difícil de tratar?

A doença arterial coronariana costuma se desenvolver ao longo de muitos anos.

Depósitos de colesterol, células inflamatórias e outras substâncias vão formando placas na parede das artérias responsáveis por levar sangue ao músculo cardíaco. Com o tempo, essas placas também podem acumular cálcio.

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Quando a calcificação se torna acentuada, a artéria perde flexibilidade.

Imagine um tubo fino cuja parede deixou de ser maleável e ficou rígida. Inflar um balão dentro dele se torna mais difícil. Colocar um stent e fazer com que ele se expanda perfeitamente também pode ser um desafio.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca que lesões calcificadas aumentam o risco de subexpansão do stent, situação associada posteriormente a reestenose — uma nova redução do calibre do vaso — e outras complicações. Técnicas de modificação do cálcio, entre elas a litotripsia intravascular, passaram justamente a ser utilizadas para melhorar o preparo dessas lesões.

O problema ganha uma dificuldade adicional quando a coronária é pequena.

No estudo brasileiro-italiano, foram incluídos vasos com diâmetro inferior a 3 milímetros. Critérios internacionais costumam classificar como pequenos os vasos abaixo de aproximadamente 2,75 mm.

Quanto menor a artéria, menor também é a margem para qualquer nova redução do espaço disponível para a passagem do sangue.

Primeiro passo: ondas de choque “quebram” o cálcio

A primeira parte da estratégia é a litotripsia intravascular.

O nome lembra o tratamento utilizado para fragmentar cálculos renais — e o princípio físico possui semelhanças.

Um cateter com um pequeno balão é conduzido até a área calcificada da coronária. Dentro desse sistema existem emissores capazes de produzir pulsos de pressão acústica.

Essas ondas atravessam os tecidos mais macios e provocam fraturas controladas nas placas de cálcio, tornando aquela região da artéria mais flexível.

É importante compreender uma diferença: a litotripsia não simplesmente “raspa” ou retira todo o cálcio da parede.

Ela modifica sua estrutura.

Ao criar fissuras no depósito rígido, permite que o vaso seja expandido com maior eficiência. É como tornar maleável algo que antes funcionava quase como uma camada de pedra dentro da parede arterial.

O cardiologista intervencionista Guy Fernando de Almeida Prado Junior, pesquisador do Einstein envolvido no estudo, explicou que a energia sônica “quebra e desorganiza a arquitetura do cálcio”.

A tecnologia já vem sendo utilizada no tratamento de lesões coronárias calcificadas, frequentemente como preparação para a colocação de um stent.

A inovação investigada agora está justamente no que acontece depois da litotripsia.

Segundo passo: medicamento é entregue pelo balão — e o balão sai

Depois que o cálcio é modificado e a artéria adequadamente expandida, entra em cena o balão farmacológico.

No estudo, o dispositivo era revestido com paclitaxel, substância com ação antiproliferativa.

O balão é posicionado na região tratada e insuflado. Durante esse contato, o medicamento é transferido para a parede arterial com o objetivo de reduzir a proliferação celular excessiva que poderia contribuir para uma nova obstrução.

Depois, o balão é esvaziado e retirado.

Não permanece ali.

Esse detalhe estabelece uma diferença fundamental em relação ao stent farmacológico.

O stent funciona como uma pequena malha metálica expansível que permanece dentro da coronária sustentando suas paredes. Nos dispositivos modernos, medicamentos também são liberados para reduzir a chance de reestenose.

No tratamento com balão farmacológico, o medicamento é entregue sem deixar uma estrutura metálica permanente no segmento tratado.

A cardiologia brasileira já reconhece vantagens potenciais dessa característica especialmente em vasos finos, casos de reestenose dentro de stents e determinadas regiões mais distais das coronárias.

Por que evitar um stent poderia ser vantajoso?

Os stents transformaram o tratamento da doença coronariana e continuam sendo fundamentais na cardiologia moderna.

Para milhões de pacientes, eles permitem restabelecer rapidamente o fluxo de sangue em artérias estreitadas ou obstruídas.

A questão investigada pelos cientistas não é se os stents funcionam.

É se todos os pacientes precisam necessariamente permanecer com uma estrutura metálica no vaso quando existe outra estratégia capaz de produzir um resultado adequado.

O diretor de Cardiologia do Einstein, Pedro Alves Lemos, explica que a ideia é especialmente interessante porque procura tratar lesões calcificadas sem deixar metal definitivo dentro da coronária. Segundo ele, em pacientes selecionados, isso pode favorecer uma resposta mais fisiológica do próprio vaso ao longo do tempo.

Em vasos pequenos, essa discussão ganha importância porque alguns milímetros fazem enorme diferença.

Além disso, qualquer stent pode apresentar problemas ao longo dos anos, como reestenose ou trombose, embora os dispositivos farmacológicos modernos tenham reduzido significativamente essas complicações.

Uma estratégia que não deixa implante permanente também preserva a anatomia vascular para eventuais tratamentos futuros.

Estudo encontrou sinais de que a artéria pode manter ou ampliar o calibre

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores.

As análises angiográficas mostraram sinais do chamado remodelamento positivo.

Nesse fenômeno, depois do tratamento com balão farmacológico, o segmento da artéria pode manter ou até aumentar seu espaço interno ao longo do acompanhamento.

Isso contrasta com o conceito do stent, que mantém mecanicamente um diâmetro determinado pela estrutura metálica implantada.

A possibilidade de a própria artéria recuperar parte de sua capacidade de adaptação é uma das razões pelas quais as estratégias “leave nothing behind” — em tradução livre, “não deixar nada para trás” — vêm despertando interesse na cardiologia intervencionista.

Estudos anteriores sobre balões farmacológicos já apontavam possibilidade de remodelamento positivo em alguns pacientes, embora os resultados ainda precisem ser compreendidos melhor em diferentes tipos de lesão.

Resultados de outros estudos fortalecem a hipótese

O estudo conduzido entre Brasil e Itália não está isolado.

Uma pesquisa observacional publicada em 2026 no periódico Clinical Research in Cardiology avaliou 73 lesões coronárias calcificadas submetidas à litotripsia intravascular com intenção de tratamento posterior por balão farmacológico.

Em 55 das 73 lesões — cerca de 75% — foi possível concluir o tratamento somente com o balão farmacológico, sem implantação de stent após a preparação com litotripsia. No acompanhamento angiográfico disponível, os pesquisadores observaram baixa ocorrência de reestenose e ausência de perda significativa do lúmen do vaso.

Outro estudo publicado em JACC: Advances comparou pacientes submetidos à litotripsia seguida de balão farmacológico ou de stent farmacológico.

Entre 579 pacientes, 45 receberam a estratégia com balão. O sucesso do procedimento foi de 89,4% no grupo do balão e 91,7% no grupo do stent, sem diferença estatisticamente significativa. Também não houve diferença significativa nas taxas hospitalares de eventos cardiovasculares graves.

Esses dados ajudam a formar um conjunto de evidências favorável à abordagem, mas ainda não encerram a discussão.

Os próprios pesquisadores ressaltam que os dados disponíveis sobre a combinação de litotripsia e balão farmacológico permanecem limitados.

Artérias pequenas são um problema especialmente delicado

Um trabalho apresentado em 2026 no European Heart Journal Supplements analisou especificamente o uso de litotripsia em pequenos vasos coronários calcificados.

Foram avaliadas 31 lesões. O dispositivo conseguiu executar o procedimento planejado em 100% dos casos, e o sucesso clínico do procedimento foi de 86,2%. Não foram registradas complicações procedimentais no grupo avaliado e, em um ano, não houve eventos cardiovasculares adversos maiores entre os pacientes acompanhados.

O número de participantes, novamente, é pequeno.

Mas diferentes trabalhos começam a apontar na mesma direção: modificar adequadamente o cálcio pode ampliar as possibilidades de tratamento de vasos que antes eram particularmente difíceis para a intervenção percutânea.

Isso significa que o stent pode ser abandonado?

Não.

Essa é provavelmente a interpretação mais importante para quem lê sobre a nova tecnologia.

O tratamento sem stent depende de um resultado adequado depois da preparação da lesão.

Se a artéria apresentar uma dissecção importante, voltar a se fechar devido à retração elástica ou permanecer muito estreitada, o cardiologista pode precisar colocar um stent de resgate.

Protocolos de tratamento com balão farmacológico estabelecem critérios específicos para determinar se é seguro terminar o procedimento sem implante metálico.

Além disso, o estudo do Einstein e da Universidade de Verona foi desenhado para um grupo bastante específico.

Entraram pacientes com:

  • lesões coronárias novas;
  • estreitamento superior a 50%;
  • vasos com menos de 3 mm de diâmetro;
  • calcificação severa.

Lesões muito longas, bifurcações específicas, presença de trombo e determinadas situações mais complexas ficaram fora do protocolo.

Portanto, não se trata de um tratamento que simplesmente possa substituir o stent em qualquer angioplastia.

Pesquisa ainda precisa responder o que acontece anos depois

Existe ainda uma questão fundamental.

O resultado após um mês foi favorável.

Mas o tratamento da doença coronariana precisa ser avaliado em anos, e não apenas semanas.

Os pesquisadores reconhecem essa limitação e defendem estudos maiores, comparativos e com acompanhamento prolongado antes que seja possível determinar com precisão quais pacientes obtêm mais benefício da combinação.

Uma pesquisa publicada em janeiro de 2026, por exemplo, avaliou outra série de pacientes com calcificação severa tratados com litotripsia e balão farmacológico. A estratégia foi considerada viável, mas os próprios autores concluíram que são necessários estudos adicionais para confirmar seus possíveis benefícios.

A ciência cardiovascular avança justamente dessa forma.

Um estudo piloto demonstra que algo pode funcionar.

Estudos maiores verificam se o resultado se repete.

Ensaios comparativos avaliam se a nova estratégia é igual, superior ou inferior ao tratamento existente.

E acompanhamentos prolongados revelam se o benefício observado inicialmente se sustenta.

O tratamento da artéria não encerra o tratamento da doença

Existe ainda um ponto que nenhuma tecnologia consegue substituir.

Uma angioplastia — com stent, balão farmacológico ou qualquer outra técnica — trata uma determinada obstrução. Ela não elimina a aterosclerose do organismo.

A placa que se formou é consequência de um processo crônico relacionado a fatores como colesterol elevado, hipertensão, diabetes, tabagismo, idade, predisposição genética, sedentarismo e outros elementos.

Mesmo depois de uma intervenção bem-sucedida, o paciente continua precisando de acompanhamento cardiológico e do tratamento dos fatores de risco.

Medicamentos indicados para controlar colesterol, pressão arterial, diabetes e formação de coágulos não devem ser suspensos por conta própria simplesmente porque a artéria foi desobstruída.

A inovação muda a maneira de tratar a lesão.

Não torna desnecessária a prevenção de novas lesões.

Uma pequena artéria pode decidir o destino de uma vida inteira

Para quem observa uma angiografia em uma tela, dois ou três milímetros parecem uma medida quase insignificante.

Para o coração, podem representar a diferença entre receber sangue adequadamente ou sofrer com isquemia.

Dor no peito, falta de ar e limitação para realizar tarefas simples fazem parte da rotina de muitos pacientes com doença coronariana. Quando uma artéria se fecha abruptamente, o resultado pode ser um infarto.

É por isso que um avanço aparentemente técnico — quebrar cálcio com ondas acústicas, insuflar um balão por alguns segundos e retirá-lo — pode ter consequências humanas muito maiores.

A pesquisa com participação brasileira sugere que cardiologistas podem estar se aproximando de uma possibilidade que, há alguns anos, seria muito mais difícil: tratar uma coronária fina e endurecida pelo cálcio sem necessariamente deixar metal dentro dela.

Ainda não é uma solução para todos.

Ainda não substitui o stent.

E ainda precisa provar seus resultados em estudos maiores e de longo prazo.

Mas os primeiros dados apresentados no EuroPCR 2026 mostram que a combinação de tecnologias pode ampliar o arsenal disponível justamente para aqueles pacientes em que a anatomia torna cada milímetro decisivo.

Na cardiologia intervencionista, às vezes o próximo grande avanço não está em colocar um novo dispositivo dentro do coração.

Pode estar em conseguir tratar a artéria e, ao final, não deixar nenhum dispositivo permanente para trás.