Apesar do nome popular, condição não está comprovadamente relacionada ao crescimento dos ossos; massagens, calor e analgésicos podem aliviar as crises, mas pesquisadores ainda buscam compreender sua origem

Ela costuma aparecer no fim do dia ou durante a madrugada. A criança reclama de dores nas pernas, pode acordar chorando e, para preocupação dos pais, o desconforto às vezes é intenso. Na manhã seguinte, porém, está novamente correndo e brincando normalmente.

O quadro é popularmente conhecido como “dor do crescimento” e está entre as causas frequentes de dor musculoesquelética recorrente na infância. Apesar de ser descrito pela medicina há mais de dois séculos, ainda existem dúvidas importantes sobre sua origem, seus critérios diagnósticos e a melhor maneira de tratá-lo.

E há uma curiosidade que começa pelo próprio nome: não há evidência consistente de que essas dores sejam provocadas pelo crescimento da criança ou por surtos de crescimento.

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Afinal, o que é a “dor do crescimento”?

O termo é utilizado para descrever episódios recorrentes de dor, geralmente nos membros inferiores, em crianças que não apresentam uma doença aparente capaz de explicar o sintoma.

Uma ampla revisão publicada na revista Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria, analisou 145 estudos e encontrou pouca concordância até mesmo sobre a definição da condição. Dor nas pernas, episódios no período noturno ou no fim do dia, recorrência, exame físico normal e acometimento dos dois lados aparecem entre as características mais citadas.

A falta de consenso é tamanha que 93% dos trabalhos analisados sequer mencionavam o crescimento como parte da definição.

Por isso, alguns especialistas utilizam denominações como “dores benignas noturnas dos membros na infância”.

Por que algumas crianças sentem tanta dor?

Essa é uma pergunta que a ciência ainda não conseguiu responder definitivamente.

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Ao longo dos anos, pesquisadores investigaram diferentes hipóteses, incluindo características anatômicas, alterações na percepção da dor, fatores vasculares e metabólicos, menor resistência óssea e níveis de vitamina D.

Uma revisão sistemática sobre as possíveis causas concluiu que a origem permanece pouco compreendida e que nenhuma das teorias propostas conseguiu explicar definitivamente o quadro. Alguns estudos identificaram, por exemplo, menor limiar de dor entre crianças que apresentam o problema, mas isso ainda não esclarece todo o mecanismo.

Não existe um tratamento específico

Outro desafio está justamente no tratamento.

Não existe atualmente uma terapia específica capaz de eliminar a chamada dor do crescimento. Uma revisão científica publicada em 2025 encontrou grande variedade nos critérios utilizados para diagnosticar o problema e destacou que os estudos sobre intervenções ainda são pequenos e insuficientes para estabelecer uma estratégia terapêutica definitiva.

Na prática, o cuidado é direcionado principalmente para aliviar os episódios de dor.

Massagens suaves nas pernas, aplicação de calor e, quando orientados adequadamente, analgésicos comuns podem ajudar durante as crises. Alongamentos musculares também foram estudados, mas as evidências disponíveis ainda são limitadas.

A boa notícia é que o quadro costuma ser benigno e tende a desaparecer conforme a criança fica mais velha.

Nem toda dor nas pernas é “dor do crescimento”

Este talvez seja o ponto mais importante para pais e responsáveis.

Como não existe um exame específico que confirme a condição, é necessário observar as características da dor e, principalmente, identificar sinais que indiquem a possibilidade de outro problema.

No quadro considerado típico, a criança geralmente apresenta dor nas duas pernas, principalmente no final do dia ou à noite, mas mantém suas atividades normalmente e não apresenta alterações relevantes no exame físico.

dor persistente ou progressivamente mais intensa, desconforto sempre no mesmo local, rigidez nas articulações pela manhã, inchaço, vermelhidão ou dificuldade para caminhar merecem avaliação médica.

Também é importante investigar quando existem sintomas sistêmicos ou alterações identificadas no exame físico. Nesses casos, exames laboratoriais ou de imagem podem ser necessários para excluir outras condições.

Quando a madrugada assusta toda a família

Para quem observa uma criança acordar chorando de dor, ouvir que o quadro costuma ser benigno nem sempre diminui imediatamente a preocupação.

Os episódios podem interromper o sono e provocar ansiedade tanto na criança quanto nos pais. E justamente porque não existe uma causa facilmente demonstrável, algumas famílias podem sentir que a queixa está sendo minimizada.

A dor, entretanto, é real.

O desafio está em acolher a criança e aliviar o desconforto sem atribuir automaticamente qualquer dor nas pernas ao crescimento. Quando os sintomas fogem do padrão esperado, a investigação médica é importante.

Um nome antigo para uma condição ainda cercada de perguntas

A expressão “dor do crescimento” atravessou gerações e permanece presente no cotidiano das famílias. A ciência, porém, mostra que a história é mais complexa do que o nome sugere.

Mais de 200 anos depois das primeiras descrições médicas, ainda não se sabe exatamente por que algumas crianças apresentam esses episódios, e não existe um tratamento específico capaz de fazê-los desaparecer.

Enquanto pesquisadores tentam compreender melhor o fenômeno, a orientação mais importante para as famílias é observar.

Na maioria das vezes, as crises passam e não deixam consequências. Mas uma dor persistente, localizada ou acompanhada de outros sintomas conta uma história diferente — e nenhuma dor infantil deve ser automaticamente atribuída ao crescimento antes de se observar o que o corpo da criança está tentando dizer.