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Estudo brasileiro identificou uma assinatura em células de defesa antes do início do tratamento; modelo experimental com inteligência artificial alcançou cerca de 90% de precisão, mas resultado ainda precisa ser validado em grupos maiores de pacientes

Uma amostra de sangue coletada antes mesmo da primeira dose do tratamento pode conter pistas importantes sobre quais pacientes com câncer de pulmão têm maior chance de responder à imunoterapia.

É o que indica uma pesquisa brasileira publicada na revista científica iScience, que identificou diferentes perfis do sistema imunológico entre pessoas que posteriormente responderam ao tratamento e aquelas que não apresentaram o mesmo benefício.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Imuno-Oncologia (CRIO), do Einstein Hospital Israelita, em colaboração com cientistas do A.C.Camargo Cancer Center e de outras instituições.

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A equipe analisou pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas metastático, o subtipo que representa cerca de 85% dos tumores pulmonares. Antes do início da terapia, foram estudadas células de defesa presentes no sangue dos participantes.

Os pesquisadores encontraram uma espécie de assinatura imunológica.

Algumas proteínas apareciam com maior frequência nos linfócitos T dos pacientes que responderam ao tratamento. Outras estavam associadas ao grupo que não respondeu.

Em uma análise exploratória utilizando inteligência artificial, a combinação desses sinais permitiu antecipar a resposta ao tratamento com aproximadamente 90% de precisão.

O resultado abre uma possibilidade importante para a medicina de precisão: no futuro, um exame de sangue poderá ajudar os médicos a escolher melhor quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar de determinadas estratégias de imunoterapia.

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Mas há uma ressalva fundamental.

Esse exame ainda não está disponível para uso rotineiro e o estudo não estabelece um novo teste diagnóstico ou uma indicação automática de tratamento.

A pesquisa envolveu apenas 33 pacientes e os próprios autores destacam a necessidade de confirmação em estudos maiores e independentes.

Por que saber antes quem responderá é tão importante?

A imunoterapia transformou o tratamento de diversos tipos de câncer.

Em vez de atacar diretamente as células tumorais, como ocorre com muitos medicamentos quimioterápicos, algumas imunoterapias procuram retirar os mecanismos que impedem o sistema imunológico de reconhecer e combater o tumor.

É como liberar os “freios” das células de defesa.

No câncer de pulmão, medicamentos que atuam sobre os chamados checkpoints imunológicos, como a via PD-1/PD-L1, já fazem parte das possibilidades terapêuticas para determinados pacientes. A escolha do tratamento depende do estágio da doença, características moleculares do tumor, condições clínicas e de biomarcadores como a expressão de PD-L1.

O problema é que a resposta não é igual para todos.

Há pacientes que conseguem respostas profundas e duradouras.

Outros apresentam benefício durante algum tempo e depois desenvolvem resistência.

E há aqueles que não respondem adequadamente desde o início.

Segundo os pesquisadores brasileiros, a eficácia da estratégia no grupo estudado e em contextos semelhantes gira em torno de 45%, reforçando a necessidade de ferramentas capazes de selecionar melhor quem poderá se beneficiar.

Estudo começou com o sangue de 33 pacientes

Os pesquisadores acompanharam prospectivamente 33 pessoas com câncer de pulmão de células não pequenas em estágio IV, que ainda não haviam recebido tratamento.

Todos foram tratados com uma combinação de imunoterapia anti-PD-1 e quimioterapia.

Esse detalhe é importante: o estudo não avaliou simplesmente “imunoterapia isolada”.

Após nove semanas:

22 pacientes foram classificados como respondedores;

11 não responderam.

Aos seis meses, a composição já havia mudado:

17 permaneciam no grupo de respondedores;

16 estavam classificados como não respondedores.

Essa mudança também mostra outro desafio do tratamento contra o câncer.

Responder inicialmente não significa necessariamente que o tumor continuará sensível indefinidamente.

O que os cientistas encontraram no sangue?

O foco estava nos linfócitos T, células fundamentais para a resposta imunológica contra tumores.

Os cientistas analisaram dezenas de proteínas presentes nessas células e perceberam que os pacientes possuíam perfis diferentes antes mesmo de receber a terapia.

Entre aqueles que posteriormente responderam, havia maior frequência de células T apresentando marcadores como:

CD69;

TCF-1;

CXCR3.

Essas características estão relacionadas a estados de ativação imunológica e, no caso de CXCR3, à capacidade de migração das células em direção aos tecidos onde podem atuar contra o tumor.

Já os pacientes que não responderam apresentavam com maior frequência células T CD4+ e CD8+ expressando:

CTLA-4;

CD161;

IL-10.

Esses sinais estavam relacionados a um perfil mais imunossupressor.

Em termos simples, o sangue dos dois grupos parecia mostrar dois sistemas imunológicos em estados diferentes antes mesmo de o tratamento começar.

É como observar se o sistema imunológico já está pronto para reagir

Nos pacientes respondedores, os cientistas encontraram maior presença de células com características associadas à ativação e à capacidade de atacar células tumorais.

Também foram observados programas genéticos ligados à atividade citotóxica, incluindo genes como NKG7 e GNLY.

Nos não respondedores, predominavam sinais associados à supressão imunológica.

Essa diferença ajuda a explicar uma das grandes questões da imunoterapia:

dois pacientes podem receber tratamentos semelhantes e apresentar resultados completamente diferentes porque o estado inicial do sistema imunológico também é diferente.

Inteligência artificial encontrou padrões difíceis de enxergar isoladamente

O estudo não se limitou a procurar uma única proteína.

Os pesquisadores utilizaram um modelo de aprendizado de máquina do tipo Random Forest para analisar simultaneamente as frequências das diferentes populações de células T e seus biomarcadores.

A combinação dessas informações conseguiu estimar a resposta ao tratamento com cerca de 90% de precisão na análise exploratória realizada pelos pesquisadores.

Essa informação precisa ser interpretada com cautela.

Não significa que já exista um “teste de sangue 90% preciso” disponível em hospitais.

O modelo foi desenvolvido a partir de um grupo pequeno de pacientes e ainda precisa demonstrar que mantém bom desempenho quando aplicado a populações maiores, de diferentes centros e com diferentes características clínicas.

Essa etapa de validação é indispensável antes que uma ferramenta desse tipo possa orientar decisões médicas rotineiras.

Técnica utilizada já existe em laboratórios clínicos

Um dos aspectos que torna o trabalho particularmente interessante é a técnica empregada.

Os pesquisadores utilizaram citometria de fluxo para identificar as populações de células imunológicas e as proteínas presentes nelas.

A citometria não é uma tecnologia experimental restrita a poucos laboratórios de pesquisa.

Ela já é amplamente utilizada, por exemplo, na investigação e classificação de leucemias e outras doenças hematológicas.

Isso significa que, caso a assinatura identificada no estudo seja confirmada e transformada em um teste clínico padronizado, parte da infraestrutura necessária já existe em muitos centros.

Esse é um ponto relevante especialmente quando se pensa em ampliar o acesso.

Por que não usar apenas a biópsia do tumor?

Atualmente, um dos biomarcadores importantes na decisão sobre algumas imunoterapias no câncer de pulmão é a expressão da proteína PD-L1 no tecido tumoral.

Para isso, é necessário obter material do câncer.

Dependendo da localização da doença, a coleta pode exigir broncoscopia, punção guiada por imagem ou outro procedimento invasivo.

Além disso, uma pequena amostra retirada de uma área específica pode não representar perfeitamente toda a heterogeneidade do tumor.

A avaliação do sangue tem outra lógica.

Uma coleta sanguínea é mais simples, pode ser repetida ao longo do tratamento e oferece a possibilidade de observar características sistêmicas do paciente.

O estudo brasileiro não demonstra que o sangue deva substituir a análise do tumor.

A proposta é que esses biomarcadores possam, no futuro, complementar as informações que os médicos já utilizam.

Sangue e tumor apresentaram sinais semelhantes

Para verificar se aquilo que aparecia na circulação realmente tinha relação com o que ocorria dentro do câncer, os pesquisadores compararam os resultados com dados de células existentes no microambiente tumoral.

Foram utilizadas também análises de sequenciamento de RNA de célula única, técnica que permite observar quais genes estão ativos em células individuais.

Os perfis associados à resposta identificados no sangue também apareceram no ambiente tumoral de uma coorte independente.

Esse resultado reforçou uma hipótese importante:

o sangue pode carregar informações sobre o estado imunológico presente no próprio tumor.

Pesquisa encontrou ainda uma pista sobre resistência

Os cientistas não queriam apenas descobrir quem respondia.

Também tentaram compreender por que algumas pessoas não respondiam.

Um dos sinais encontrados com maior frequência nesses pacientes foi o receptor CTLA-4.

Assim como PD-1, o CTLA-4 funciona como um mecanismo regulador do sistema imunológico.

Em laboratório, os pesquisadores testaram o bloqueio simultâneo de PD-1 e CTLA-4 em células dos pacientes que não haviam respondido adequadamente.

O bloqueio duplo conseguiu reativar parcialmente características antitumorais dessas células T in vitro.

Esse é um resultado experimental interessante, mas precisa ser colocado em contexto.

Resultado em laboratório não significa novo tratamento aprovado

Quando pesquisadores dizem que algo funcionou in vitro, significa que o efeito foi observado em células em condições experimentais de laboratório.

Isso é bastante diferente de demonstrar que o mesmo tratamento melhora a sobrevida ou controla o câncer em pessoas.

Segundo os autores, combinações envolvendo essas vias imunológicas já foram estudadas clinicamente anteriormente.

A hipótese agora é que a utilização de biomarcadores para selecionar determinados pacientes poderia ajudar a identificar quem teria maior possibilidade de se beneficiar de estratégias combinadas.

Essa possibilidade ainda exigirá novos ensaios clínicos.

Portanto, o estudo não recomenda que pacientes mudem seus tratamentos atuais nem demonstra que o bloqueio combinado seja indicado para todos os casos resistentes.

Um dos desafios é o tumor mudar durante o tratamento

O acompanhamento também mostrou que alguns pacientes inicialmente classificados como respondedores deixaram de apresentar resposta após alguns meses.

Isso ocorre porque um tumor não é formado por células todas idênticas.

O tratamento pode eliminar as populações mais sensíveis enquanto células resistentes sobrevivem, crescem e passam a predominar.

Esse fenômeno é conhecido como resistência adquirida.

Segundo Kenneth Gollob, diretor do CRIO e autor correspondente da pesquisa, a pressão exercida pelo sistema imunológico pode selecionar células tumorais capazes de escapar da resposta.

É uma das razões pelas quais a oncologia procura biomarcadores não apenas para escolher o primeiro tratamento, mas também para acompanhar a evolução da doença.

O que muda para o paciente hoje?

Por enquanto, nada na rotina clínica apenas por causa deste estudo.

O tratamento do câncer de pulmão continua sendo definido individualmente pela equipe oncológica considerando fatores como:

tipo histológico;

estágio da doença;

alterações moleculares do tumor;

expressão de PD-L1;

estado geral do paciente;

tratamentos anteriores;

localização das metástases;

e outras condições clínicas.

No câncer de pulmão de células não pequenas avançado, a análise molecular é particularmente importante porque alterações em genes como EGFR, ALK, ROS1, NTRK e outros podem direcionar pacientes para terapias-alvo específicas. O NCI também destaca a importância da avaliação de PD-L1 antes da definição de determinadas estratégias com imunoterapia.

Os novos biomarcadores estudados no Brasil poderão, no futuro, acrescentar mais uma camada de informação a essas decisões.

Por que o achado pode ser especialmente relevante para o SUS?

Imunoterapias estão entre os tratamentos de maior custo da oncologia contemporânea.

Quando uma medicação beneficia apenas parte dos pacientes, encontrar um método confiável de identificar previamente quem tem maior probabilidade de responder pode ter impacto tanto clínico quanto econômico.

Na avaliação dos pesquisadores, uma ferramenta baseada em citometria de fluxo poderia ajudar a direcionar melhor os tratamentos e, potencialmente, favorecer discussões sobre ampliação de acesso.

Mas esse benefício só poderá ser estimado adequadamente depois da validação clínica da assinatura.

Seria prematuro concluir que o teste já permitiria reduzir custos do SUS ou definir sozinho quem deve receber imunoterapia.

Estudo brasileiro envolveu diferentes instituições

O artigo tem como primeira autora Amanda B. Figueiredo e como autor correspondente Kenneth J. Gollob.

O trabalho reuniu pesquisadores ligados ao Einstein Hospital Israelita, A.C.Camargo Cancer Center, Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais, Grupo Fleury e instituições internacionais.

A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e de uma parceria público-privada com a GSK. O artigo declara que a farmacêutica não participou do desenho do estudo, coleta e análise dos dados, decisão de publicação ou elaboração do manuscrito.

O trabalho foi publicado em junho de 2026 com o título:

“Circulating cell populations as response predictors and targets to improve immunotherapy in metastatic lung cancer”.

As limitações são importantes

Os próprios autores reconhecem pontos que impedem transformar o resultado imediatamente em um teste clínico.

O primeiro é o tamanho da amostra:

33 pacientes.

É pouco para estabelecer de forma definitiva o desempenho de um novo biomarcador.

O estudo também foi realizado em um único centro clínico, o que aumenta a necessidade de verificar os resultados em outras populações.

Além disso, a comparação entre os sinais encontrados no sangue e aqueles observados no tumor não foi feita utilizando amostras pareadas de cada um dos mesmos pacientes; foram utilizados dados de uma coorte tumoral independente.

Essas limitações não anulam os achados.

Mas determinam como eles devem ser interpretados:

como uma descoberta promissora a ser validada — e não como um exame pronto para uso.

Câncer de pulmão continua entre os maiores desafios da oncologia

A importância de avanços desse tipo pode ser compreendida pelos números.

O câncer de pulmão permanece como o tumor mais diagnosticado e a principal causa de morte por câncer no mundo.

As estimativas mais recentes da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer apontam aproximadamente 2,5 milhões de novos casos e mais de 1,8 milhão de mortes no mundo.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima 35.380 novos casos de cânceres de traqueia, brônquio e pulmão por ano entre 2026 e 2028.

São aproximadamente:

18.730 casos anuais em homens;

16.650 em mulheres.

O tabagismo continua sendo o principal fator de risco, embora pessoas que nunca fumaram também possam desenvolver a doença. Exposições ocupacionais e ambientais também estão associadas ao risco.

Medicina de precisão tenta responder uma pergunta cada vez mais importante

Durante muito tempo, dois pacientes com câncer no mesmo órgão podiam receber tratamentos praticamente iguais.

A oncologia moderna mostrou que tumores aparentemente semelhantes podem ter características moleculares e imunológicas muito diferentes.

Hoje, a pergunta já não é apenas:

“Qual é o câncer?”

Também é:

“Que características esse câncer — e esse paciente — possuem?”

É nesse cenário que os biomarcadores ganham importância.

Eles ajudam a transformar decisões baseadas apenas no local e na aparência do tumor em estratégias cada vez mais individualizadas.

O estudo brasileiro acrescenta uma nova possibilidade:

talvez parte das informações necessárias para prever o comportamento de uma imunoterapia possa ser encontrada não apenas dentro do tumor, mas também circulando no sangue do paciente.

O que o estudo mostrou — e o que ainda não mostrou

O que foi encontrado:
Pacientes que responderam à combinação de anti-PD-1 e quimioterapia apresentavam, antes do tratamento, um perfil de células T diferente dos não respondedores.

Quantas pessoas participaram:
33 pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas metastático.

Quais marcadores apareceram nos respondedores:
Maior frequência de células T com CD69, TCF-1 e CXCR3.

E nos não respondedores:
Maior presença de células T expressando CTLA-4, CD161 e IL-10.

O que a inteligência artificial fez:
Uma análise exploratória baseada nesses perfis antecipou a resposta com cerca de 90% de precisão no conjunto estudado.

O exame já está disponível?
Não como um teste clínico validado para definir a terapia.

Pode substituir a biópsia ou o PD-L1?
O estudo não demonstra isso.

Já muda o tratamento dos pacientes?
Não. São necessários estudos maiores e independentes.

Qual é a principal perspectiva?
Desenvolver uma ferramenta sanguínea menos invasiva capaz de complementar os biomarcadores já utilizados e ajudar a personalizar a imunoterapia.

Um passo promissor, não uma resposta definitiva

O avanço não está em anunciar uma nova cura para o câncer de pulmão.

Também não está em afirmar que um simples exame de sangue já consiga decidir qual tratamento um paciente deverá receber.

A descoberta é mais específica — e cientificamente importante.

Os pesquisadores mostraram que o estado do sistema imunológico antes da terapia deixa sinais mensuráveis no sangue e que esses sinais estão associados ao que acontece depois do início do tratamento.

Se essa assinatura for confirmada em estudos maiores, poderá surgir uma ferramenta relativamente acessível para ajudar oncologistas a responder uma das perguntas mais difíceis da imunoterapia:

quem realmente tem maior chance de se beneficiar?

Para os pacientes, isso poderia significar tratamentos cada vez mais personalizados.

Para a ciência, significa compreender melhor por que o sistema imunológico consegue controlar alguns tumores e outros ainda encontram maneiras de escapar.

E, para a oncologia, representa mais um passo em direção a um cenário no qual a escolha de uma terapia seja baseada não apenas no diagnóstico, mas também na biologia individual de cada paciente.

Fontes: artigo científico publicado na iScience; PubMed; Centro de Pesquisa em Imuno-Oncologia (CRIO/Einstein); Agência FAPESP; Instituto Nacional de Câncer (INCA); International Agency for Research on Cancer (IARC/OMS) e National Cancer Institute (NCI).